22 de março de 2020

O fundador do Correio dos Açores e as ligações aéreas para as ilhas (1919-1937)

Oito anos decorreram entre a abertura da base aero-navalem Ponta Delgada e a chegada cá de uma aeronave portuguesa

O Fokker“Infante de Sagres” ligou o Continente aos Açores em 1926

Como se viu no texto anterior, os aviadores haviamrealizado a 1.ª ligação aérea no sentido este-oeste entre o Continente europeu e os Açores. Não chegaram a Angra ou à Horta, nem regressaram à Madeira ou a Lisboa no Fokker Infante de Sagres, como tinha sido inicialmente previsto, mas tinham, sem dúvida, conseguido realizar o principal objetivo do empreendimento – a ligação aérea do Continente aos Açores.
O reboque do hidroavião, que fora encontrado pelo barco de pesca, perto de Porto Santo, para Santa Cruz; uma subscrição pública a favor dos pescadores do “S. João” para os compensar do esforço e tempo investidos no socorro ao Infante de Sagres; a reparação do hidro e o seu voo de Santa Cruz para Funchal; os festejos e homenagens na Madeira; as declarações de Ernesto Costa à imprensa sobre as características técnicas do aparelho, e as de Moreira de Campos e Neves Ferreira sobre as peripécias do voo, naufrágio, salvamento, reboque e recuperação do Fokker; as ordens e contraordens para cancelar a missão a partir dali; os preparativos para prosseguir para os Açores; a falsa partida e o regresso à baía do Funchal para mais reparações; as declarações de Frederico de Melo, piloto aviador terceirense, instrutor na Escola de Aviação de Sintra (o mesmo que, quatro anos e meio mais tarde, inauguraria a pista da Achada, primeiro aeroporto dos Açores); os votos de Gago Coutinho: - tudo foi notícia com destaque no Correio dos Açores, entre 23 de abril e 9 de maio, sobre o Fokker T.III Infante de Sagres, os seus audazes pilotos e o engenheiroErnesto Costa, seu parceiro da aventura, enquanto se mantiveram na Madeira. O voo do dia 9, com um desvio para Santa Maria, e a partida do mar de Vila do Porto para o de Vila Franca onde foram rebocados para o porto, aí pernoitando: - tudo teve enorme repercussão no jornal de José Bruno Carreiro.

A chegada no dia 10 a Ponta Delgada, depois de um último voo de 25 minutos e de uma “exibição” sobre a cidade, que veio a ficar no imaginário público e a ser refletida na arte de Domingos Rebelo, foi noticiada no dia 11, na 1.ª página do jornal, toda ela dedicada ao evento.Os títulos, subtítulos e destaques desse dia 11 são eufóricos no Correio dos Açores:  “O ‘RAID’ AEREO LISBOA – A conclusão do ‘raid’ Lisboa-Madeira-Açores pelo hidroavião ‘Sagres’, da Marinha de Guerra Portuguesa, realizando a primeira ligação aérea do Continente Europeu com o Arquipélago Açoreano por aviadores portugueses”; “Vila Franca do Campo e Ponta Delgada recebem com apoteose os dois oficiaes aviadores, que são levados em triunfo até às Câmaras Municipaes”; “O TENENTE NEVES FERREIRA narra ao Correio dos Açores a ‘étape’ Madeira-San Miguel”; “BEMVINDOS!”; “Para o Correio dos Açores PELO FOKKER 25 (O primeiro artigo recebido pela via aérea, publicado na imprensa açoriana)”. Até um soneto da autoria de Espínola de Mendonça: “MAIS ALTO – Homenagem aos heroicos aviadores do Infante de Sagres, Moreira de Campos e Neves Ferreira, o último dos quais nasceu nesta bela terra dos Açores.”“OS AVIADORES EM PONTA DELGADA (...) O DIA DE ONTEM (...) A récita de gala no Coliseu Avenida (...) EM HONRA DOS AVIADORES – A EXCURSÃO ÀS FURNAS – Os aviadores aclamados na sua passagem pelas vilas e aldeias de S. Miguel (...) A festa náutica de ante-ontem em sua homenagem”, são extratos dos destaques dos dias 12, 13, 15, 18 e 19 de Maio de 1926, no Correio dos Açores.
No dia 28 de Maio – ironicamente a data do movimento militar que pôs termo à I República, ainda o destaque do jornal de José Bruno vai para “O ‘RAID’ AOS AÇORES – Uma manifestação aos aviadores no seu regresso a Lisboa”: - como se sabe, tanto o hidroavião desmontado, como os aviadores, regressaram ao Continente a bordo do navio Lima. Isto num ambiente político e social instável, véspera da queda da I República. O representante do Correio dos Açores em Lisboa, para participar na homenagem a Moreira de Campos e Neves Ferreira, era, como se vê pelo nome que assina essa reportagem de 28 de maio, nada mais nada menos que o coronel Fernando Borges, ligação de José Bruno e habitual colaborador do seu jornal, onde assinou durante muitos anos, como Correspondente, as “Cartas de Lisboa”, coluna publicada regularmente, desde 1924, que acompanhava o “dia a dia de toda a vida política portuguesa”, nas palavras de José Bruno1. 
Só na sua edição de 3 de Junho, o Correio dos Açores noticia o Movimento Militar de 28 de maio. Ocorre ser oportuno aqui referir que um dos protagonistas da primeira ligação aérea Lisboa-Madeira-Açores, o açoriano José Neves Ferreira veio a ser afastado das suas funções aeronáuticas, tendo em conta as suas opiniões políticas discordantes do regime salazarista. O mesmo veio a acontecer a outro pioneiro da aviação portuguesa, José Sarmento de Beires, mencionado no presente trabalho pelos seus voos de exploração de 1920, 1922, 1924 e 1927, por ter resistido ativamente à implantação da ditadura resultante do derrube da I República, participando concretamente na revolta dos aviadores de 1931, também aqui referida.
Na sua edição de 17 de julho desse mesmo ano de 1926, é publicada uma carta de um leitor residente em Lisboa, “UMA IDEIA ANTIGA – O ‘RAID’ LISBOA-AÇORES-AMÉRICA” em que é lembrada a intenção da colónia portuguesa na América do Norte de, seguindo o exemplo da comunidade do Brasil, e da própria aquisição do Fokker T.III Infante de Sagres, angariar fundos para a aquisição de uma aeronave que se destinasse a cruzar o Atlântico Norte.
O Correio dos Açores de 20 de Abril do ano seguinte, 1927, dá grande destaque ao artigo “O ‘RAID’ AEREO LISBOA-AÇORES-AMERICA DO NORTE’’, pelo ten. Aviador Neves Ferreira, ilustrado com uma fotografia de um modelo de hidroavião, cuja legenda “O APARELHO ESCOLHIDO PELO AVIADOR NEVES FERREIRA’’, mostra que aquele açoriano gostaria de tentar a travessia do Atlântico. Trata-se de um dos protagonistas da primeira ligação aérea Lisboa-Madeira-Açores, realizada no ano anterior com o Fokker T.III Infante de Sagres. O Correio dos Açores divulgava assim a vontade de Neves Ferreira de tentar realizar a primeira travessia do Atlântico, de Lisboa à América, via Açores, e o Diário de Notícias de New Bedford fez eco dessa divulgação, dispondo-se a comunidade de imigrantes açorianos em Massachusetts a angariar fundos para, tal como fizera relativamente à coleta para aquisição da primeira aeronave que ligasse os Açores a Lisboa, proporcionar ao aviador açoriano os meios materiais para a sua tentativa. Estava-se ainda no tempo anterior ao voo de Lindbergh, de New York para Paris, e uma travessia no sentido este-oeste era,então, ainda mais arriscada. Na altura em que foi destacado para o centro de aviação naval da defesa de Macau, Neves Ferreira mandou informação, através do irmão, para o Correio dos Açores, com as características do aparelho da sua escolha e este jornal manifestou o desejo de que, quando Neves Ferreira regressasse de Macau, estivessem reunidas a condições para se realizar a tentativa de cruzar o oceano.

Outras análises do tema aviação 
na imprensa

Na segunda página do Correio do Açores de 7 de Agosto de 1927, sob o título “A hora da aviação – em que se fala de projectos de novos grandes voos, alguns com escala nos Açores”, são mesmo elencados episódios e aventuras relativamente pouco conhecidos, o que demonstra mais uma vez a especial atenção que o jornal de José Bruno dedicava ao tema da aviação civil emergente na altura.
No Correio dos Açores de 12 de agosto de 1927, “O futuro da aviação transatlântica” é uma reprodução do jornal Derniéreheure de Bruxelas, que prevê que Lisboa seja o aeroporto de entrada na Europa, em relação aos voos transatlânticos, sendo a Madeira e os Açores escalas obrigatórias. O articulista elenca os ensaios feitos, as limitações das aeronaves para transportar carga útil, os inconvenientes das plataformas flutuantes idealizadas por americanos e franceses e as condições meteorológicas, frequentemente severas, no Atlântico Norte. Tudo ponderado, parecia ser de concluir que as travessias entre América e a Europa, de New York para Lisboa com escala na Bermuda e nos Açores, e as este-oeste, com paragem na Madeira e na Bermuda, seriam a opção mais razoável.
Sarmento de Beires escreveu sobre o feito pioneiro de Sacadura Cabral e Gago Coutinho no Atlântico Sul e divulgou, em 1927, na prestigiada Revista Seara Nova, o que escreveu ao Presidente do Ministério das suas apreciações sobre a posição de Portugal face ao domínio aéreo do Atlântico. Os aviadores não limitavam o seu entusiasmo à realização dos ‘raids’: - alguns não enjeitavam o palco da imprensa para procurar influenciar a opinião pública e o poder político para que Portugal não se deixasse ficar para trás e as suas Ilhas não deixassem de tirar partido da sua posição estratégica para serem parte ativa do desenvolvimento acelerado da aviação. 
No dia 18 de Agosto de 1927, foi publicado o n.º 104 de Seara Nova. Nessa Revista consta o texto Portugal e o domínio aério do Atlântico, escrito por Sarmento de Beires, no qual é divulgado o conteúdo da exposição que havia dirigido ao Presidente do Governo em 3 de fevereiro. Apercebemo-nos de que o trabalho para a Seara Nova é feito uns meses depois de ter entregue a referida exposição, não só pelo tempo decorrido – de fevereiro a agosto, altura da publicação da Revista, mas sobretudo porque o autor já faz referência às travessias do Atlântico Norte realizadas por Lindbergh, Chamberlin e Byrd. Enquanto se preparava para tentar a viagem aérea de circunavegação que ambicionava realizar, o aviador dirigiu-se ao Presidente do Ministério com a seguinte avaliação do contexto nacional e internacional em que se desenvolvia a aviação: - Neste momento em que a aviação revoluciona tão profundamente a vida dos povos e deixa antever tão largas possibilidades de futuro (...). (...) Portugal, até hoje, tem-se mantido alheio à política aeronáutica internacional (...). (...) O desenvolvimento das carreiras aéreas comerciais constitui hoje uma das grandes preocupações de todos os países estrangeiros. Entre eles, o estabelecimento de carreiras transatlânticas representa o objectivo supremo para o qual tendem todos os esforços (...). (...) Ora a República Portuguesa, pela sua situação geográfica e dadas as suas possessões no Atlântico, está na posse de quási todos os pontos de apoio indispensáveis ao estabelecimento das referidas linhas transatlânticas (...). (...) Os pontos de apoio existentes em território português representam, portanto, o elemento sem o qual nenhuma empresa poderá abalançar-se ao estabelecimento das carreiras (...). (...) Os benefícios morais e materiais para quem as estabeleça (...) são de incalculável importância, sendo, simultaneamente, para o país, um dos mais importantes, sendo o mais importante factor de ressurgimento nacional. 


1 Correio dos Açores de 30.9.1937

José Adriano Ávila

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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