Crónica da Madeira

O sonho que se tornou realidade: ajudar as instituições através das maratonas

Conheço a Ana Gonçalves há mais de trinta anos, porque do seu marido, Emídio, sou amigo há mais de cinquenta anos. Ele era um adolescente quando, no Hotel Lido Sol trabalhou comigo. A Ana fixou-se, com a família, em Jersey, tinha 10 anos de idade. Era, como hoje, linda e tinha, como hoje, o sorriso mais bonito do mundo. É mãe de duas jovens, a Stefanie e a Kelly, que bem poderiam ser duas modelos, pela sua beleza e elegância. A Ana trabalha num banco e o seu marido, que foi um competente diretor hoteleiro, trabalha, agora, no aeroporto de Jersey. É um dos meus melhores amigos. O hobby deste casal simpático e generoso é viajar pelo mundo. E, assim, de quando em quando, recebo notícias suas dos lugares mais longínquos da terra.
Há vinte anos a Ana teve um sonho: ajudar algumas instituições através da sua participação nas diferentes maratonas, que se realizam nos muitos países do mundo. Tinha, naquela altura, 34 anos. Começou, então, pela Inglaterra e, a partir daí, com treinos intensos, fez Nova Iorque (3 vezes), Chicago, Berlim, Paris, London Maraton (20 vezes), Amazónia (7 dias de maratona), Grand Kénia (6 dias de maratona, 275 quilómetros). Fez, ainda, em Jersey, uma maratona de 30 dias, correndo 1.266 quilómetros. Está, agora, na Madeira a treinar para a grande maratona nas montanhas do Hawai, Manua-Manua, que se inicia a 8 de maio próximo e durará 6 dias - 250 quilómetros. Fez, anteontem, correndo sem parar, Poiso - Arieiro - Pico Ruivo. Subiu ao teto da Madeira, a 1.800 metros de altitude.
Domingo à noite tive a grande alegria de jantar com esta atleta de fundo, como sempre, simpática e bem-disposta. Apesar dos seus 54 anos, não perdeu nem a sua elegância, nem aquele sorriso que encanta: enérgica e perspicaz, ela animou o jantar, que decorreu no ambiente único e requintado do restaurante Hemingway. Perguntei-lhe, até hoje, quanto tinha arrecadado, em meios materiais, para ajudar as instituições. Respondeu-me que não era fácil quantificar a verba certa, mas nos 20 anos que corre, reuniu já centenas de milhares de libras.
- Ana, o que te faz correr e treinar tantas horas?
- Penso que ajudando os outros, realizo-me como ser humano. Isto é: sou mais eu própria nas busca de uma tranquilidade tão necessária para a vida.
- O que sentes quando corres e enfrentas tantos obstáculos?
- Sinto uma força extraordinária, inexplicável, que me faz não desistir nunca. Talvez porque tenho um objetivo: ajudar os outros.
- Quais são as instituições que ajudas?
- As do cancro e as das doenças cerebrais.
- Qual foi, até hoje, a maratona mais difícil, a que tinha mais obstáculos?
- A do Grand Kénia, e depois, a da Amazónia. Foram dias não muito fáceis, mas superei-as sempre com alegria. 
A Ana é considerada Ultra Maratona e Corredora de Fundo. é Embaixadora da Red Way. Foi eleita a Mulher do Ano 2019, em Jersey. É a “madeirense-jersiana” que mais maratonas e quilómetros realizou até hoje. É apontada como um exemplo, pela sua força e tenacidade. O seu nome é conhecido no mundo do desporto como uma maratonista de grande persistência. As suas fotografias andam nos escaparates dos jornais, como exemplo a seguir. Uma atleta que encontra nos outros uma razão e força para viver.
Nesta semana tem um horário rigoroso de treinos nas montanhas da Madeira. Vai percorrê-las, a correr, de fio a pavio. Uma preparação física que lhe permitirá enfrentar a dificílima maratona das montanhas do Hawai.
O seu grande suporte é o marido que a estimula e a acompanha em algumas destas digressões.
Ana Gonçalves diz-me que vai correr até ao fim, mesmo quando a idade for mais avançada...
Despedi-me do casal com a promessa de que na quarta-feira estaríamos, de novo, juntos, na minha casa, para celebrarmos uma vez mais a amizade que nos une e tanto bem faz às nossas almas. Enriquece-as humanamente.
A Ana regressa a Jersey no domingo, dia 15, e ali continuará a sua preparação física para a grande maratona do Hawai.
Quando se despediu de mim, disse-me: 
- Sabes, querido amigo, a propósito de sonhos, recordo um adágio (não me recordo o autor), que diz:

Duas vidas todos temos
Muitas Vezes sem saber
A vida que nós vivemos
E a que sonhamos viver.

E eu, felizmente, sonhei vivê-la, correndo pelo mundo para ajudar aqueles que tanto necessitam.
 

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Categorias: Opinião

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