Presidente da Associação de Alojamento Local dos Açores

“Para um problema novo não vale a pena utilizarmos soluções antigas”, diz o empresário Rui Correia

 Quando se começaram a sentir os efeitos do coronavírus no alojamento local açoriano?
Nos Açores estes efeitos começaram-se a notar-se logo no início de Março. Nesta altura as reservas foram travadas a fundo mas ainda não sentíamos os cancelamentos, apenas alguns esporádicos, que passaram depois a estar focados essencialmente nos finais de Março e Abril. Agora já temos cancelamentos até Junho e infelizmente começaram a aparecer já alguns cancelamentos em Julho.

A pandemia levou  Governo a criar algumas medidas e apoios. Como é que a ALA vê essas medidas?
A perspectiva do Governo, e desde início fomos consultados e tivemos a oportunidade de conversar com o Governo Regional, é que as primeiras medidas são claramente para o apoio ao emprego. 
No entanto, e como a crise tem tendência para se arrastar, vemos com muita preocupação o não existirem medidas para os empresários em nome individual, para os trabalhadores independentes mas que têm uma dependência muito grande deste sector, em particular quem está em auto-emprego ou mesmo aqueles cujo o rendimento por via do alojamento local possa ser superior àquele que eventualmente tenham noutro emprego.
Esta é uma preocupação que temos tido desde a primeira hora, temos usado sempre esta linha de pensamento e esta preocupação junto do Governo, pedindo claramente para que não se esqueçam dos mais pequenos.
Entendemos as políticas, respeitamo-las e aceitamo-las, até porque dentro do alojamento local já há empresas e há gente que emprega muitas pessoas. 
Ao contrário do que se pensava, se no início deste fenómeno do alojamento local este poderia ser um rendimento extra, a realidade é que há muitas pessoas a fazer investimentos, a empregar e a profissionalizar.
Aliás, um dos grandes problemas desta crise não será o presente, mas também o futuro que está tão próximo, que era a tendência da profissionalização do sector que traria uma grande vantagem para todos, inclusive para todas aquelas empresas que também dependem do sector.
Ou seja, gestores de alojamento local, lavandarias, empresas de limpezas, uma panóplia de prestadores de serviços que também empregam pessoas, mas que muitos são empresários em nome individual ou trabalhadores independentes e que neste momento estão com as mãos na cabeça e sem saber o que fazer porque não há hóspedes nos alojamentos locais, e estas pessoas devem ser devidamente acauteladas.
Reconhecemos que inicialmente as políticas devam ser redirecionadas para o emprego, até porque se não houver emprego toda a economia pára, mas temos que olhar para todos aqueles que estão em auto-emprego e para todos os que dependem deste sector para além dos seus ordenados, que têm vencimentos mais baixos mas que complementam o seu orçamento familiar por via do alojamento local.

Como ficam aqueles que recorreram à banca para montar o seu próprio projecto de alojamento local?
Aqui temos que separar um pouco as coisas e temos que ser honestos em relação a isso. Há riscos que uns cometeram mais do que outros. Se nós sempre defendemos que o mercado deve ser livre, também sabemos que as pessoas tinham consciência de que estavam a correr alguns riscos. O problema está sobretudo naqueles que só dependem do alojamento local.
Para aqueles que recorreram à banca, a verdade é que podem passar por uma fase muito difícil, mas também a nossa concorrência recorreu à banca para criar os seus hotéis, por exemplo, tem que cumprir com as suas obrigações e também vai receber apoios.
Os apoios foram bem direccionados para a manutenção do emprego, mas em tempos de uma crise nunca vista e nunca vivida nós não podemos ter soluções antigas para um problema novo.

Que estratégias deveriam ser aplicadas?
As estratégias deveriam passar uma mensagem de esperança. Não vale a pena atirar o dinheiro para cima das pessoas, porque para um problema completamente novo não vale a pena usarmos soluções antigas, como linhas de crédito em que as pessoas depois voltam a estar fortemente endividadas e acho que não é isso que as pessoas querem.
São soluções que podem ajudar, mas achamos que outros apoios ao nível base podem também ajudar. O que pedimos, e aquilo que nos preocupa, é que para manter as nossas unidades abertas e depois de passar a crise possamos voltar a receber os nossos hóspedes, e para isso queremos ter algum tipo de apoio na base.
Ou seja, nas despesas correntes que não podemos deixar de ter. Temos toda uma economia que está parada, a zero, mas no entanto parece que o Estado não está a zero. O Estado acaba por fazer uma prorrogação do prazo do pagamento de algumas obrigações, mas isto é apenas adiar.
O que achamos é que, numa situação completamente nova, porque não o Estado apenas dizer que não se paga? Até porque o Estado ingere o nosso dinheiro e há coisas que estão na base das despesas que temos. Deviam arranjar-nos mecanismos ou isentar-nos pura e simplesmente de as pagar.

De que tipo de despesas fala?
Por que não aplicar já um desagravamento fiscal com base nos rendimentos de 2019? Isso dar-nos-ia uma ligeira almofada e ficaríamos com mais algum dinheiro em caixa para fazermos face às nossas preocupações do dia-a-dia, que seriam ainda mais aliviadas se não tivéssemos que pagar durante algum tempo algumas despesas às quais não podemos fugir.
A título de exemplo, em alguns municípios dos Açores aumentaram-nos as taxas de resíduos porque nos consideravam empresas e com uma actividade comercial. Se temos os nossos AL’s fechados por que motivo temos que pagar uma taxa de resíduos? Porque é que temos que pagar uma taxa de disponibilidade de energia eléctrica ou uma taxa de disponibilidade de água se está tudo fechado?
Mesmo que quiséssemos abrir não tínhamos ninguém, por isso porque não isentar-nos destas taxas? (…) Mesmo ao nível do IVA há coisas que poderiam ser feitas. A ideia é, para podermos manter a cabeça fora de água, não nos obriguem a ter que pagar taxas durante algum tempo. Se nos isentarem aí já ajudava imenso.
Estou em crer que o Governo Regional terá a preocupação em entender que há mais gente para além da que está empregada nas empresas, e que há muita gente que depende do auto-emprego e desses rendimentos também para fazer movimentar o resto da economia.
 Se nós não conseguirmos sobreviver a isto, tudo o resto que está à nossa volta, como as empresas que necessitam do alojamento local, também irá sofrer essas consequências, e isso tanto é válido para as empresas como para os empresários a nível individual e para os trabalhadores independentes, porque esses também pagam lavandarias, empresas de limpeza e aos web designers, etc. 
Estamos todos interligados.
                              

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