7 de abril de 2020

Este ano, o xaile, o lenço, a saca e o bordão ficaram em cima da mesa

Como o mundo está diferente, até cá na ilha estamos todos confinados aos nossos Concelhos e às nossas moradias. Numa situação normal, o rancho de romeiros da minha terra estaria a rezar por todos e, precisamente neste dia, a percorrer a cidade de Ponta Delgada para pernoitar na Covoada e arredores. Infelizmente, como todos os outros romeiros, ficaram retidos em suas casas, cumprindo os veementes alertas lançados pelas autoridades sanitárias desta Região.
Escurece a alma constatar que nesta Quaresma apenas nas duas primeiras semanas encontráramos pelas estradas de São Miguel, aqueles grupos de homens peregrinos, caminhando e rezando em voz alta, reafirmando a sua fé e a agradecer a Deus as graças concedidas.
O COVID-19 obrigou a todos os outros a calaram-se, deixando de entoar dolentemente as Avê-Marias, o que tem provocado uma tristeza indizível e profunda naqueles que não tiveram oportunidade de pôr-se a caminho e percorrer a nossa ilha, para cumprir uma promessa que terá de esperar para o ano.
Enquanto isto, esta maldita peste continua a avançar e já infetou mais de um milhão pessoas em todos os recantos da Terra. Felizmente entre esses casos, pelo menos perto dos 200 mil são considerados curados pelas autoridades de saúde.
É penoso constatar que esta semana ficará para a história local, pois o maior rancho da ilha não será acolhido na próxima quinta-feira pela população da vila, pois deixavam os seus afazeres para saudar os seus romeiros, congregando-se pelas ruas para com emoção vê-los passar, de bordão de madeira na mão e os seus trajes tradicionais carregados de simbolismo que muitos já conhecem de cor e salteado o seu significado. 
O rancho de Rabo de Peixe reveste-se de particularidades ancestrais e intrinsecamente possuem uma mística difícil de explicar. Sei do que falo, porque também calcorreei as estradas de S. Miguel e apercebi-me das vivências profundas que se registam durante a peregrinação.Por isso, era pesaroso para muitos terem de ter ficar atrás, mas ficavam a fazer, durante toda a semana a romaria em espírito, pois sabem em pensamento e em qualquer hora do dia por onde andaria o rancho e quantas das vezes iam ao seu encontro, onde quer que se encontrassem, para rezarem em conjunto.
Porque é um rancho muito numeroso, alguns, por vezes, teriam de pernoitar em salões de igrejas e instituições que se oferecem para receber os peregrinos, mas nem por isso eram menos bem acolhidos. A religiosidade do povo micaelense traduz-se também nestes pequenos grandes gestos de fé de acolher com todo o carinho os romeiros de Rabo de Peixe, quer no cumprimento de promessas, quer como forma de agradecimento de graças recebidas.
Este ano, o xaile que representa o manto com que cobriram Jesus, o lenço que representa a coroa de espinhos, a saca que transportam às costas representando a cruz e o terço uma dedicação à sempre presente Virgem Maria, ficaram em cima da mesa do quarto de dormir, sempre na expectativa de que a situação da pandemia melhorasse e pudessem cumprir a ancestral tradição de correr a ilha.
Quem já alguma vez fez uma romaria, sabe avaliar o quão pesaroso é ficar em casa e deixar de caminhar por atalhos e caminhos secundários menos movimentados, orando à volta da ilha, cumprindo promessas, por montes e vales, arrostando vento, frio e copiosas chuvas intempestivas, durante uma longa semana invernosa, mas cheia de calor humano, partilha e grande generosidade e cordialidade, porque o espírito das romarias soa sempre mais forte e os micaelenses mostram que têm uma alma grande, do tamanho do céu.
Mesmo em casa, os romeiros estão a rezar desveladas Avê-Marias, a implorar a proteção divina para o flagelo que toda a Humanidade está a viver e para que Deus acabe com este poderoso vírus, que trás consigo desolação de tantas famílias despedaçadas pela dor.
A esperança em dias melhores ditadas pela fé dos crentes foi ampliada pelo convite que fez o Pe. José Cláudio, Pároco de Rabo de Peixe, para que cada romeiro colocar o respetivo lenço ao pescoço e o bordão junto a um pequeno altar, e todos juntos se unirem virtualmente e rezarem à mesma hora, através das redes sociais, pelas 19H30, num momento de oração até à próxima quinta-feira, que seria o dia da chegada do rancho à vila.
Esta situação pandémica mostra que, afinal, o ser humano continua a ser ser frágil, falível, que necessita de estar em permanente ligação e comunhão com os outros. 
A todos uma Santa Páscoa.
 

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Categorias: Opinião

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