Covid-19 fez disparar negócio

Conserveira Santa Catarina quadruplicou vendas de conversas de atum em Março para cadeia de distribuição nacional

Com os portugueses em confinamento social, e em tempos que se avizinham de crise, são as conservas que estão a ocupar grande parte das despensas nacionais e regionais. O sector regista uma tendência de subida em tempo de crise e a Conserveira Santa Catarina, em São Jorge, não foge a esta tendência. 
Aliás, de acordo com o Presidente do Conselho de Administração da Conserveira, Rogério Veiros, o mês de Março registou uma “procura excepcional” pelos produtos comercializados pela indústria de São Jorge. “Os Açores produzem mais de 25% das conservas de atum consumidas em Portugal e obviamente que as conserveiras açorianas tiveram e registaram um aumento da procura sobretudo no mês de Março”, explica Rogério Veiros , que dá o exemplo das encomendas realizadas por uma cadeia de grande distribuição. “Ao longo do ano de 2019 costumávamos fornecer, em média, 57 paletes mensais. Nesse período do mês de Março nós quadruplicamos as vendas nessa grande empresa. No geral, a Santa Catarina no mês de Março, face ao mês de Fevereiro, duplicou as vendas”, explicou. 
Além disso, a procura a nível internacional também aumentou e este mês de Abril a Conserveira conta colocar no mercado inglês “o dobro daquilo que é o normal em relação às vendas mensais. Os nossos clientes para Inglaterra estão a comprar de uma forma muito mais acelerada”. 
Também outros mercados seguem esta tendência e a empresa regista assim um aumento nas exportações. “Ou seja, no mês de Março a reacção foi imediata no mercado nacional e neste momento estamos a repor os stocks dos nossos clientes de exportação. Em Portugal é imediato, e temos clientes no estrangeiro que têm os seus próprios stocks, que tiveram uma quebra no mês passado, e agora estamos a repor os stocks dos nossos clientes no mercado inglês, no mercado alemão, no mercado dinamarquês, no mercado americano, no mercado francês, no mercado suíço, no mercado austríaco, no mercado italiano. Para esses mercados, este mês vamos aumentar as nossas exportações”, explica.

Riscos na exportação
No entanto, apesar da vontade de repor produto ser muita, há sempre a possibilidade de não ser fácil chegar a esses mercados dado os condicionalismos na circulação que se vive actualmente. Rogério Veiros reconhece esses constrangimentos e diz que “é sempre um desafio”. As reuniões de planeamento são constantes e “é um desafio diário constante. Porque num dia falta-nos barco, no outro dia falta-nos contentor, no outro dia falta-nos camionista e no outro dia é uma determinada fábrica que não tem o produto. Porque os stocks de produção da indústria hoje em dia não estão concentrados numa única fábrica. Nós dependemos de outras fábricas para o fabrico das latas, para o fabrico dos rótulos, para o fabrico das cartonetes, para o azeite, e para uma série de componentes que estão espalhados por diferentes fabricantes e também temos as contingências de algumas fábricas que neste momento começam a ter dificuldades em nos servir para nós conseguirmos manter a nossa cadeia de abastecimento normal”. 
Por isso há sempre o risco de não conseguirem responder às solicitações, não apenas por si mas por fornecedores que neste momento também estão com condicionalismos. 

Podia ser melhor
Apesar dos constrangimentos na circulação, considera que a procura pelas conservas da fábrica de São Jorge até podia ter sido melhor. Agora, as vendas já estão estabilizadas, e “a indústria regional e a indústria nacional conseguiram responder a essa procura e conseguimos, junto com a grande distribuição, dar essa resposta que os portugueses precisavam”. Até porque as conservas “são um produto que nestas alturas de crise têm uma procura maior porque é um produto de longa duração em termos do seu prazo de validade e que se pode, obviamente, ter em casa para a eventualidade de termos de ter algum período sem podermos executar determinado tipo de compras”.
O Presidente do Conselho de Administração da Conserveira Santa Catarina, acrescenta que apesar de terem conseguido dar resposta à procura, “ainda podia ter sido melhor”. Isto porque “podíamos ter dado uma resposta mais eficiente e mais eficaz, se não tivéssemos tido os condicionalismos da greve do porto de Lisboa”.
Uma greve que deixou a conserveira sem grande margem de manobra e que até necessitou da intervenção do Governo da República, através da requisição civil, para que não fosse posto em causa do abastecimento dos Açores, e da Madeira. Mas Rogério Veiros acrescentou que a Santa Catarina adquiriu em 2015 um armazém em Alverca, Lisboa, e foi através do stock que tinham nesse armazém que conseguiram dar uma resposta inicial às solicitações. “A primeira resposta foi dada com o produto que tínhamos em stock em Alverca e depois tivemos de reforçar os stocks do nosso armazém para conseguir responder ao apelo. Atingiu-se o pico de procura na primeira quinzena de Março”, explicou.
E não faltou matéria-prima para dar resposta a este acréscimo de solicitações? O Presidente do Conselho de Administração da Santa Catarina refere que uma fábrica de conservas “deve ter sempre matéria-prima em inventário para um determinado período de laboração e isso só fez com que tivéssemos de reforçar as compras mais à frente”. Além disso, “uma empresa que factura em média 700 mil euros por mês, tem de ter algum produto acabado em casa e isso fez com que conseguíssemos, através do nosso stock de produto acabado, dar resposta”. 
Mas perante o cenário de pandemia, também a Santa Catarina teve de aplicar o seu Plano de Contingência e não houve possibilidade de aumentar a capacidade produtiva “de um dia para o outro” já que a empresa labora com “linhas de produção mecânicas que recorrem muito à utilização de mão-de-obra, e a mão-de-obra não se forma de um dia para o outro”. 
O pessoal teve de ser dividido em dois turnos, estando por isso a fábrica a trabalhar com capacidade reduzida. “Nós temos de ajudar a alimentar Portugal e ao mesmo tempo temos de proteger a saúde dos nossos trabalhadores e isso obrigou-nos a dividir a fábrica em dois turnos. Essa divisão condiciona a nossa laboração e neste momento estamos com uma capacidade produtiva reduzida em relação àquilo que é o normal funcionamento da nossa fábrica”, explicou.
Apesar de tudo, o Presidente do Conselho de Administração da fábrica Santa Catarina, a maior entidade empregadora de São Jorge, com 140 funcionários na sua maioria mulheres, diz que deve haver orgulho da parte dos açorianos por “ajudarem a alimentar Portugal”, principalmente neste momento de dificuldade. 
“Os Açores produzem 33% do leite a nível nacional, 25% das conservas de atum que se consomem a nível nacional são produzidas nos Açores e neste momento de crise que todos nós estamos a viver, às vezes esquecemo-nos, ou não sabemos, ou não damos a devida importância a isto. E é com grande orgulho que os açorianos devem olhar para isto porque estão a ajudar a alimentar Portugal”, concluiu em jeito de “alerta”.
 

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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