7 de abril de 2020

Páscoa amarga

Está sendo tão diferente o tempo da Páscoa este ano... Vivemos todos sob a ameaça de uma pandemia, que mal se sabe como surgiu tão impetuosamente, alastra agora ao Mundo inteiro ceifando vidas inocentes, e ninguém parece saber ainda quando vai terminar. Os nossos modos de vida estão por isso profundamente alterados e mesmo as sociedades livres e democráticas parecem enfraquecer, perante a invocação da necessidade imperiosa de encerramentos, confinamentos, quarentenas e até cercas sanitárias.
Anteriormente, estes eram dias de distensão e convívio entre familiares e amigos. Para os crentes, o tempo era de encher as igrejas e participar nas celebrações evocativas da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Desta vez, nem nos podemos deslocar para fora de casa, excepto se sob a invocação comprovada de necessidades urgentes. E as igrejas estão, quando não de todo encerradas, vazias, decorrendo as liturgias sem a presença dos fiéis, com transmissão assegurada pela rádio e pela televisão, ou através da Internet, pelas redes sociais.
Assistir às cerimónias da Semana Santa de longe, comodamente instalados no sofá da sala, promete ser, apesar de tudo, uma experiência amarga. Já nos impressionou bastante a figura fragilizada do Papa Francisco, subindo sozinho os degraus do adro da Basílica de São Pedro, debaixo de impertinente chuva miudinha, para exortar e abençoar o Mundo inteiro a partir de uma praça deserta. A Missa do Domingo de Ramos, no imponente interior do grande templo, também ele sem gente, deu o mote para o que se vai seguir. Dessa visão escorre uma metáfora dos nossos tempos, de debandada e até apostasia, evidenciando agora as alternativas buscadas, multidinàriamente, serem becos sem esperança e sem saída a não ser o abismo...
 A evocação da primeira Páscoa Cristã inclui sempre um conteúdo de dor e sangrento martírio, outrora especialmente vincado no cerimonial barroco. Mas como já se conhece antecipadamente o desfecho glorioso dos acontecimentos de há vinte séculos, tudo se aproveitava, já então, como preparação para as alegrias pascais. Porque este é deveras o tom próprio destas festas, nimbadas pela vitória de Cristo sobre a morte e a garantia da nossa própria libertação. Com razão se dava também a este tempo a designação de Triunfo; e até em Santa Cruz das Flores, na Matriz de esmagadoras proporções que ocupa o centro da Vila, há um conjunto de belas imagens, que costumavam sair em procissão assim designada, ao abeirar-se o final da Quaresma, evocando os episódios narrados pelos Evangelhos até à Cruz e à Ressurreição.
Recordo neste momento a Procissão do Enterro do Senhor, numa Sexta-feira Santa, ao cair da noite, numa das freguesias mais pequenas e isoladas da nossa Ilha de São Miguel, há muitos  anos. Toda a população comparecia, os mais pequenos devidamente indumentados de Apóstolos, Santas Mulheres ou soldados romanos. Íamos desde a igreja, subindo pelos caminhos velhos, com paragens regulares para descanso dos portadores do esquife e do andor de Nossa Senhora da Soledade. Em lugares previamente determinados, a Verónica cantava ao megafone o” O vos omnes”, mostrando o véu com a Santa Face. Lá bem no alto, no termo da freguesia, numa pequena ermida, estava armado o sepulcro, onde o esquife era depositado, enquanto a banda de música executava, conforme determinação do Pároco, um frade franciscano com alma de poeta, a marcha mais fúnebre do seu repertório. Voltávamos todos para casa enregelados mas enriquecidos e com disposições de melhor vida.
Desta vez não vai ser assim! Aliás, já a Quaresma foi diferente e não se ouviu, senão nas duas primeiras semanas, pelas estradas e pelos povoados da nossa ilha, o apelo plangente da Avé Maria dos Romeiros. Não houve Passos na Ribeira Grande, nem vai haver tantas outras procissões da Semana Santa e da Páscoa, que marcam a vida das nossas pequenas comunidades locais. Até as festas religiosas e populares dos próximos meses já foram todas canceladas, incluindo o Senhor Santo Cristo, os Impérios do Espírito Santo, as Sanjoaninas de Angra e de Vila Franca, as Cavalhadas de São Pedro e nem sei que mais...Abate-se sobre nós, e sobre o Mundo todo, um angustiante manto de tensão e de incerteza. Para o ano, estaremos vivos e com saúde para partilharmos essas festas, com entusiasmo e sabor renovados? Oxalá! O que, traduzido do árabe, como sabe, quer dizer: “ Assim Deus permita”! 


(Por convicção pessoal, o Autor 
não respeita o assim chamado 
Acordo Ortográfico.)  
       
 

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Categorias: Opinião

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