8 de abril de 2020

Covid 19 e a Coscuvilhice Proactiva

Frei Ventura, reconhecido teólogo e cidadão do mundo, mormente dos mais desfavorecidos das periferias, afirmava recentemente em entrevista ao Porto Canal que, olhando a História, as epidemias trouxeram sempre progressos.
As epidemias têm a vantagem de fazerem o homem aterrar e ser mais humano, com todas as suas fragilidades. Esfuma-se o super-homem e reaparece o homem real. 
O pós-covid-19 vai-nos trazer o desafio de reconstrução de uma sociedade diferente. Acreditamos que vamos ficar melhores, mas muitos não vão ficar bem, sobretudo os mais desfavorecidos. Que vão precisar da nossa especial atenção. Do nosso olhar fraterno, do nosso sorriso, da nossa ajuda, da nossa palavra.
Como dizia Frei Ventura vamos necessitar de uma “coscuvilhice proactiva” e interessar-se mais pela vida do outro. Pelas suas necessidades, pelos seus problemas. Vamos ter que nos responsabilizar pela vida e bem-estar do outro.
Acreditamos que  o mundo pós-covid-19 vai propiciar o reforço do nosso tecido social com mais consciência cívica. Temos todos a oportunidade de reconstruir um “património de relações redimidas e redes cobertas do outro” afirmava Frei Ventura.
Vamos descer das nuvens e aterrar na nossa sociedade. Vamos por “travões à alienação”. Vamos dar mais oportunidades aos outros. Vamos acabar com os “colecionadores de papel higiénico” que olham apenas para si, referia Frei Ventura.
O sofrimento, apesar de tudo, espiritualiza-nos, e é uma fonte de aprendizagem e de sabedoria. Pode promover a criação de relações e uma maior consciência do colectivo.
Frei Ventura dizia que vivemos na tribalização do eu, mas no pós-covid-19 vamos proceder à destribalização do eu, promovendo assim relações de libertação e de liberdade.
Pior que a virulência do SARS Cov2 é a virulência da solidão que afecta sobretudo os mais velhos, e 800.000 estão em lares espalhados por todo o país. Estes mesmos que foram os construtores deste mundo de bem-estar onde vivemos. Temos de ter gratidão pelo seu trabalho, pela sua vida de muito sacrifício para chegarmos a este estádio de desenvolvimento. Cada idoso que morre é uma “biblioteca que desaparece”, expressão de Frei Ventura.
A Páscoa que está a chegar terminará na ressurreição. E todos nós podemos ressuscitar para uma nova realidade recriada na esperança e na solidariedade.
Com refere frequentemente Frei Ventura, “não podemos mudar o mundo mas podemos sempre mudar o mundo de alguém”.
Votos de uma Santa Páscoa.

Luís Anselmo

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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