10 de abril de 2020

Chá da Cesta - 24

O Mundo Britânico e as suas áreas de Influência

Vamos explicar o que sucedeu na Índia e no Nepal. Primeiro, em 1788, encontrara-se chá a crescer espontaneamente nas colinas do Nepal. A partir de então, em ocasiões seguidas, mas distintas, Sir Joseph Banks e o Coronel Kids divulgaram a descoberta. O primeiro propôs à Companhia Inglesa das Índias Orientais a importação de plantas de chá da China para Bengala, na Índia. Argumentou que “a cultura do chá seria bastante adequada à maneira de ser dos Hindus por serem pacientes, dispondo de dedos ágeis.” Nos anos seguintes, foram feitas repetidamente diversas propostas nesse sentido, sem que se tenha obtido qualquer resultado.1
Sarah Rose fala-nos de uma outra iniciativa: “Dr. John Forbes Royle (…) foi para a Índia em 1819 (...). Os conhecimentos de Royle a propósito das potencialidades da cadeia dos Himalaias não eram superadas por nenhum outro botânico do mundo. Ele acreditava, juntamente com Hardinge, que o chá poderia desenvolver-se bem ali.”2 K. C. Wilson, em 1992, ao narrar as circunstâncias da descoberta do chá indigenado no Assam pelos Britânicos, dá-nos conta ainda de outra iniciativa: “In 1823, a Major Robert Bruce, who was then residing in the province of Assam, was told of the existence of tea plants by Sindpho chiefs. The exact location was at a place near Sadiya in north-east Assam, adjacent to Burma.”3 Wilson continua, dizendo que esse escocês, “later, while being shown the wild tea trees, he learnt that natives were in the habit of drinking an infusion of dried leaves from the plants they found growing wild in the forests.”4 
Contudo, esta descoberta esteve longe de ser reconhecida e não foi objecto de qualquer acção oficial.5 A exploração do chá no Assam foi antecedida pela concessão deste território aos Britânicos em 1826, na sequência das guerras anglo-birmanesas.6 No entanto, como a região não fosse segura por ser alvo constante de incursões das tribos das montanhas vizinhas de Naga e Mishmi, tornava-se difícil apostar na exploração agrícola.7
Henry Hobhouse conta que em 1820 David Scott, comissário britânico para o Assam, enviou folhas de Cooch-Bihar e Ranpu aos seus superiores em Calcutá. Reconhecendo tartar-se de folhas de uma das muitas espécies de camellia, foram enviadas para Londres, onde foram examinadas pelo herbalista da Linnaem Society, que declarou serem folhas de chá.8 Por esta altura, segundo Hobhouse, praticamente todo o chá vinha da China, excepção feita a uma pequena quantidade do Japão e a uma ainda menor da Formosa.9 Depois de 1823, K. C. Wilson fala-nos de uma nova revelação para 1832. Diz ele: “We next hear of a lieutenant Charlton of the Assam Light Infantry at Sadiya who, being interest in the flora of the district, found in 1832, similar wild tea plants growing in the jungle next to his garrison.”  Também enviou folhas de chá para o Jardim Botânico de Calcutá: “It was his report that finally set the wheels in motion within the East India Company. Once started things moved quickly.”10
Apesar de os responsáveis da Companhia estarem a par da importância das revelações, “due to earlier reports from botanists and others, fully alive to the possibilities of growing tea in India,”11 demoraram nove anos a avançar para o projecto do chá na Índia, o que se explicaria pelo facto de a Companhia deter o monopólio do comércio do chá da China. Esta só terá sentido necessidade de avançar a partir da abolição deste monopólio pelo Parlamento, em 1833, e então estaria “ready to take some positive action with regard to replacing that trade in some way.”12
Sarah Rose, aceitando as razões apontadas para a demora na aceitação do projecto do chá, adianta que “the Governor-General of India created a committee in Calcutta to further investigate the possibility of growing tea in the British dominions there. Walich was conservative (…) His caution may have delayed the development of the tea industry in India by ten years but its eventual imprimatur, however belated, would allow tea to become the commodity which might save the Company from its growing financial burdens.”13 
A partir do momento em que a Companhia aceitou o chá, foram rapidamente tomadas medidas: logo em Janeiro de 1834, Lord William Bentinck propôs ao Conselho da Companhia a criação de um Comité do Chá, com a incumbência de estudar e recomendar as áreas mais propícias ao cultivo da planta.14 Talvez pelo facto de o consumidor inglês preferir o paladar do chá chinês, este Comité não quis arriscar apenas no chá indígena do Assam, apostando também no chá chinês e “decided to send their secretary G. J. Gordon to China in order to acquire tea seeds, as well as tea makers and those familiar with the cultivation of the tea plant.”15 Dito e feito! Gordon deixou Calcutá em Junho de 1834, no navio Water Witch.
A iniciativa seguinte do Comité foi de preparar “suitable sites at chosen places in India where it was thought the imported China plants would flourish, with the idea that, if successful, these experimental tea lands could later be handed over to private enterprise for future development.”16 O Governo contratara Charles Bruce, que dera conta do chá indígena no Assam, em Fevereiro de 1835.”17 Não era tarefa fácil porque na China o cultivo do chá já se fazia havia séculos e era uma indústria importante, em crescimento e os seus segredos tinham sido bem guardados pelos chineses. Para os britânicos, entrar em concorrência com aquele país, representava um esforço significativo e, por isso, Gordon foi incumbido de trazer artesãos juntamente com as sementes.18 O Comité havia enviado Gordon à China, porque, além de o consumidor preferir o chá chinês, ainda não fora obtida prova segura do valor das plantas de chá do Assam, algo que se viria a confirmar pouco depois: “in December 1834, that proof had been received that the so-called tea-plant found in near Sadiya, was indigenous, and it was the true tea camellia of commerce.”19
Haviam investido fortemente e era tarde para mandar regressar Gordon, já que um carregamento de 80 000 sementes rumava à Índia, chegando a Calcutá em Janeiro de 1835.20 O sucesso, porém, acabaria por ser bastante limitado. Enquanto Gordon deambulava pela China, tentava-se apurar o valor real do chá indígena do Assam e, em Março de 1835, segundo Wilson “the Tea Committee recommended to government that Scientific Deputation be sent to Upper Assam to investigate the region in which the wild tea plants grew.”21

Lugar Areias, Rabo de Peixe, 5 de Abril de 2020


1 Wilson, Ob. Cit., p. 6.
2 Rose, Ob. Cit., p. 48.Original: “went out to India in 1819 (…) Royle’s knowledge of the growing capacities of the Himalayan range was unmatched by any other botanist on earth. He believed, along with Hardinge, that tea could very profitably be grown there.” 
3 Wilson, Ob. Cit., p. 6.
4  Ibidem. 
5  Wilson, Ob. Cit., p.6.
6 Idem, p. 9.
7 Ibidem.
8 Hobhouse, Ob. Cit., p. 130.
9 Ibidem.
10 Wilson, Ob. Cit., pp. 6-7. 
11 Idem, pp. 6-8.
12 Ibidem.
13 Rose, Ob. Cit., pp. 133-134.
14 Wilson, Ob. Cit., pp. 6-8.
15 Ibidem.
16 Ibidem.
17 Idem, pp. 6-7.
18 Idem, pp. 7-8.
19 Idem, p. 8.
20 Ibidem.
21 Wilson, Ob. Cit., p. 9.

Mário Moura

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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