Passado o décimo quinto dia da morte de Victor Manuel Caetano, o Açoriano que não conhecia fronteiras, o homem que nos deixou uma enorme lição de vida: transformar os sonhos, por mais impossíveis que possam parecer, em objectivos de vida!
Victor Caetano nasceu em Ponta Delgada, no dia 4 de Setembro de 1924 e casou em 25 de Dezembro de 1944 com Alexandrina Tavares. Nesta época, a pobreza era uma triste realidade, as condições de vida muito difíceis, o trabalho escasso, mal pago, e na ânsia de melhorar o rendimento para garantir o sustento da sua família vai aventurar-se entre S. Miguel, Santa Maria e Terceira.
Em Outubro de 1950, chega a Ponta Delgada um pequeno veículo anfíbio tripulado pelo Major Australiano Bem Carlin que realizava a volta ao mundo! Junto com o seu inseparável amigo Evaristo da Silva Gaspar ficam abismados com o que viam. Foi o “clique” para o passo seguinte: o velho sonho Americano!
Ambos carpinteiros, iniciam, em Março de 1951, em Santa Clara, a construção de um barco à vela com seis metros de comprimento. Após cerca de quatro meses de trabalho, o barco é lançado à água em Junho; no entanto, não passa na vistoria efectuada pelo Capitão do Porto de Ponta Delgada, por falta de condições de navegabilidade. A pedido, têm uma autorização muito especial para navegar junto à costa por trás do molho da doca na faina piscatória. Em finais de Julho, aproveitam esta autorização, juntam mantimentos a bordo, um fogão a petróleo, uma bússola, a bandeira Portuguesa e uma estampa do senhor Santo Cristo dos Milagres. Pela calada da noite iniciam a viagem a caminho da América.
Após vinte e oito dias de viagem, depois de vários temporais, já sem água e alimentos e quase a naufragar, são recolhidos pelo cargueiro norte americano “Oscar Chappell” a noroeste das Bermudas a 2 de Setembro. É esta “boleia” que os leva ao porto de Galveston no Texas. Estava cumprido o sonho Americano, a chegada à América a 4 de Setembro!
São notícia na imprensa Americana e colhidos como heróis! O então senador John F. Kennedy, seu irmão Edward Kennedy e o próprio Presidente Truman prometem ajuda na sua legalização. O seu amigo Evaristo, solteiro, casa com uma cidadã Americana Evelina Massa, descendente de S. Miguel - Arrifes, fica legalizado e vinga na vida!
Victor vê o seu processo de legalização a arrastar-se e parte para o Brasil, o cruzeiro desvaloriza, a vida complica-se, e em 1954 ruma ao Canadá. Ano e meio depois, na companhia de um amigo de Água Retorta, volta ao Brasil numa viagem de carro, atravessando a América do Norte e parte da América do Sul. Catorze países, uma viagem de três meses e quarenta e sete mil milhas.
Passados dezoito anos, em 1969 junta-se à sua família em Ponta Delgada, e para além de reencontrar as suas duas filhas, vê pela primeira vez o filho que nasceu em Outubro de 1951, ano da partida para a América. Tratam dos “papéis” e leva consigo a família para a América. Regressam em 1983 a S. Miguel, à sua terra natal, onde veio a falecer com a bonita idade de 95 anos, no Hospital Divino Espírito Santo em 31 de Março de 2020.
A história destes dois heróis Micaelenses, no fundo, representa a história de muitos e muitos Açorianos que abalaram um dia para melhorar as suas condições de vida e que vingaram, nas mais diversas áreas, quer culturais, quer sociais, em muitos pontos deste mundo, enobrecendo os Açores.
O feito destes dois heróis serviu de base ao livro “O Barco e o Sonho” da autoria do saudoso escritor Comendador Manuel Ferreira, com um êxito de venda enorme, com três edições e uma especial comemorando os trinta anos da primeira edição. Foi, também, inspiração para a série televisiva com o mesmo nome, produzida por Zeca Medeiros para a RTP Açores, também, com enorme êxito.
No dia 9 de Setembro de 2009, a Câmara Municipal de Ponta Delgada, no Coliseu Micaelense, aproveita o lançamento da edição especial, comemorando os trinta anos da primeira edição do livro “O Barco e o Sonho” e promove uma homenagem ao Comendador Manuel Ferreira e entrega a Victor Caetano e, a título póstumo, a Evaristo Gaspar o Diploma de Reconhecimento Municipal.
Nesta altura, Manuel Ferreira aproveita a oportunidade para lançar o desafio à Presidente da Câmara para se homenagear a enorme proeza destes “dois navegadores Micaelenses”, perpetuando a sua história que, na realidade, é a História dos Açores, e apresenta uma maquete do monumento que propõe implantar em Santa Clara, da autoria do escultor Ricardo Lalanda, que mereceu a concordância e o elogio do Mestre Tomaz Vieira, como se pode verificar no livro referido. Da parte da Câmara houve acolhimento à ideia!
Nesta altura, em que estes dois heroicos “navegadores Micaelenses” já não estão entre nós, relembro o desafio do Comendador Manuel Ferreira, vamos honrar e perpetuar estes Micaelenses que muito honraram S. Miguel e os Açores?
Termino com um pequeno texto da autoria do Comendador Manuel Ferreira tirado da edição especial “O Barco e o Sonho”:
“Ao emigrante Açoriano, nas sete partidas do Mundo:
- a todos os que um dia fugiram à força do Destino e se libertaram da Ilha-Prisão e do seu cativeiro de séculos, de mãos vazias e de lágrimas nos olhos, levando nos ouvidos o cachão do Mar e na alma as alvoradas da vida;”