Família: O amor que resistiu à falta de abraços e beijos

Isolamento social

 Quarenta dias sem sair, quarenta dias em que a vida adormeceu, passou-me ao lado e deixou-me num estado de dormência emocional, em que os pensamentos se atropelam com a realidade e me fazem sentir tão pequenina num mundo que sofre e que, por enquanto, me deixa espectadora… 
Estou habituada a construir, a tocar, a ensinar, a criar, a amar, sinto-me incompleta. Quero sair e quero ficar. Acordo e adormeço num turbilhão de emoções que me fazem questionar tudo. Construí duas casas e duas famílias e, como num sonho, estendo a mão e não consigo tocar em nenhuma. A minha casa, o meu refúgio, torna-se, por vezes, numa prisão, a minha escola tornou-se num local silencioso, assim como as cidades, as praças e os caminhos, sem crianças, sem gargalhadas, sem abraços, sem música, sem dança, sem emoção. 
O mundo está vazio, está em silêncio, mas a dor de muitos grita bem alto e eu não consigo desligar o som. Sim, existem as redes sociais, as aulas online, as publicações e os emails, mas… Onde estão os olhos que me olhavam com tanta expressão?! Onde estão os corpos que eu tocava com tanta emoção?! E os meus filhos tão longe, mas tão apertados no coração! Mas tenho sorte, sim, eu sei, tenho o meu marido que me embala, o meu companheiro de vida que aguenta o fio para que eu não caia.
Atormenta-me o futuro, saber que existe a fome, o desemprego, o medo, a solidão e a incerteza, de uma forma tão avassaladora por esse mundo fora. E, sim, tenho saudades da minha família, dos meus alunos, dos meus amigos, do ar fresco do campo e das ondas do mar, mas adoro a vida e sei que ela vai voltar, esperando eu apenas que seja de uma forma mais justa, mais solidária, mais humana e que nunca se perca a vontade de se abraçar…

29 de Abril de 2020
 Milagres Paz
(Professora de Dança)
 

Nestes dias tem sido quase tudo tão diferente

Fui desafiado pelo João Paz, através do jornal Correio dos Açores, para relatar o distanciamento social, os laços familiares e a saudade das relações próximas durante esta pandemia da Covid-19.
Não estava à espera, como provavelmente ninguém, que de repente fossemos sujeitos a romper costumes e hábitos diários. Confesso que no início não dei muita importância aos avisos que nos chegavam do estrangeiro, mas à medida que o vírus chegou à Europa e foi decretado como pandemia pela organização mundial de saúde, comecei a ficar preocupado. Com o passar dos dias, e com a situação a piorar em Portugal, e consequentemente nos Açores, fiquei deveras apreensivo. 
Como responsável autárquico tive que seguir à risca as recomendações emanadas pelas autoridades de saúde e começámos a encerrar todos os serviços públicos e, de um dia para o outro, implementar o teletrabalho numa estrutura que rapidamente se adaptou àquela nova situação.
Tudo isso trouxe implicações para o nosso dia-a-dia, em particular ao nível familiar. O mais difícil é explicar tudo isso aos nossos filhos. Sou casado e tenho dois filhos. A Ângela, que está no quarto ano de escolaridade, rapidamente apreendeu as recomendações que lhe chegavam pela escola e aqui por casa, mas o Francisco, que tem quatro anos e está no pré-escolar, foi mais difícil. Se nós adultos, que habitualmente cumprimentamos toda a gente de beijo e aperto de mão, é complicado deixar esse hábito, imagine-se numa criança com pouca experiência de vida. Mas, por incrível que pareça, logo no início das medidas de distanciamento social, disse-me que a partir daquele momento não podia dar mais beijos ou abraços e que tínhamos que nos cumprimentar com o cotovelo devido ao “conoravírus”, como ele diz. A verdade é que tudo isso mudou as nossas rotinas. 
Se antes era hábito os seus avós irem buscar os nossos filhos à escola e ficarem com eles várias vezes por semana, agora é tudo diferente. Os beijos deram lugar a vídeo-chamadas e as festas de aniversário são comemoradas à distância, com um sopro de velas virtual.
Sinceramente julgo que os mais novos adaptaram-se melhor a esta nova realidade e de uma forma quase natural, do que os adultos. Apesar de não ser fácil conciliar toda a vida profissional com o confinamento social a que estamos sujeitos, encaro esta nova etapa como um novo desafio às nossas capacidades. E ultrapassar esse desafio será mais fácil se soubermos ter a força e a energia necessárias para nos reinventar.   Afinal de contas ainda temos muito para dar, basta que nos deixem. Vai ficar tudo bem!

Ribeira Grande, 28 de abril de 2020.
Alexandre Gaudêncio (Autarca)

Saudosismo de um passado recente que parece tão distante  

Em pleno século XXI, nunca imaginamos viver uma pandemia, que nos obrigaria a um isolamento forçado, dominado pela angústia e incerteza no futuro.
As ruas estão desertas, as lojas fechadas, as escolas encerradas, os voos cancelados, os convívios de família e amigos a diados. 
Alguns estão em teletrabalho, outros sem poder trabalhar e há outros ainda para quem o trabalho não parou, mas disparou. 
Estamos sujeitos ao uso de máscaras, de luvas e de gel desinfetante. 
Diariamente, somos invadidos pelas notícias televisivas, dos jornais e redes sociais sobre a drástica contagem diária de infetados e de mortos.
O coronavírus está em todas as conversas!
Vivemos dias atípicos, confinados à nossa condição de isolamento. E que isolamento é este? Aparentemente um isolamento menor do que aquele que ocorreria numa pandemia do género há 100 anos atrás. As novas tecnologias ajudam a colmatar as saudades, a saber se estamos bem, a descortinar um simples “estamos bem” de um verdadeiro “estar bem”, dito apenas para não preocupar quem está do outro lado.
Mas o isolamento do século XXI e desta pandemia é o dos afectos; dos beijos e dos abraços, melhor dizendo, da sua ausência, e precisamente para segurança destes a quem nos apetece tanto amar com gestos de afectos.  Os meus avós já não estão vivos mas nos últimos dias, quantos netos deixaram de visitar e abraçar os avós equanto nem sequer chegaram ainda a conhecê-los? 
Quantos nascimentos estão por celebrar, num tempo em que a distância fere mais que a dor do próprio parto?
Nos últimos dias, foi-nos também proibida a despedida àqueles que morrem! 
Já não se beija quem se enterra e não se abraça quem cá fica!
Vivemos dias de ausência, dominados pelo saudosismo de um passado tão recente.
Cresci e vivi no meio de afectos, proporcionados pela família que sempre foi o meu grande pilar.
Há poucos dias foi a Páscoa. Falo da Páscoa porque traz-me recordações de cheiros, de sabores e de ambientes familiares. Se não fosse o vírus passaríamos a Páscoa junto da família, iríamos com a comunidade à missa, haveria um almoço festivo, com toda a família à mesa, a conversar e a rir.
Ser feliz é afinal tão simples! Dentro de casa ou junto da nossa comunidade há tantos abraços que precisam de ser recuperados, num tempo que vamos conseguir vencer.
Acredito que sairemos dessa pandemia com coragem e determinação para transformar este momento difícil num grande desafio. 
Um momento que ficará marcado na história, não só pela questão de saúde pública, mas sobretudo porque levou à reflexão do nosso papel no mundo e à consequente tomada de consciência de que fazemos parte de um todo, onde cada um tem uma responsabilidade individual e colectiva.
É certo que teremos que criar uma panóplia de respostas para relançar a economia e construir soluções de emergência no apoio a quem precisa.
Em breve, entraremos numa nova fase, que implica olhar em frente, olhar para a normalidade, mais humanos, mais solidários, mais humildes e mais unidos.


 Lagoa, 29 de Abril de 2020
 Cristina Calisto (Autarca)
 

Jornalismo feito a partir de casa ao lado dos avós

Confesso que mesmo tendo escolhido o jornalismo como área profissional, nunca pensei que algum dia o jornalismo me escolhesse a mim, o que veio a acontecer há cerca de dois anos com um dos telefonemas mais inesperados que poderia receber.
Apesar das dificuldades por que passa o sector actualmente, que não são desconhecidas pela maior parte do público, e apesar de se discutir se o papel irá sempre conseguir sobrepor-se a outros meios de comunicação da era digital, a verdade é que me orgulho de fazer parte da equipa do “Correio dos Açores” no momento em que este atinge os seus 100 anos de existência.
No entanto, mesmo querendo ser jornalista desde pequena – o que me traz à memória a gargalhada da minha bisavó que não acreditava que fosse possível – nunca pensei também que este momento fosse passado à distância dos meus demais colegas e em teletrabalho, ou ver a grande celebração que se esperava deste marco suspensa e adiada.
A realidade é que, para este jornal ter chegado até este momento da sua história secular teve que ser bem cuidado e estimado, da mesma forma que se quisermos manter aqueles que mais amamos por perto, temos também que cuidar bem deles e estimá-los.
Por esse motivo foi para mim uma preocupação, desde o início desta pandemia, o facto de pertencer a um dos grupos de profissionais que se encontram na linha da frente, uma vez que para além de jornalista acabo também por assumir a função de cuidadora informal dos meus avós a partir do momento que chego a casa.
Felizmente, o jornalismo como hoje o conhecemos permite também que muita da “luta” (embora, confesso, pareça menos nobre) seja feita também ela à distância, o que me permite continuar a trabalhar para que a informação chegue até às pessoas e até para que, sempre que possível, se distraiam daquele tema que enche hoje os noticiários.
Não é fácil, no entanto, conciliar as duas coisas, sendo por vezes necessário fazer algumas pausas mais demoradas para assegurar que nada falta aos meus idosos, que um dia cuidaram de mim como se fosse filha deles, e que por isso hoje cuido deles como se fossem meus pais.
Sou sortuda por não ter todo o peso desta responsabilidade em cima de mim, e por também compreenderem que mesmo estando perto deles tenho outras responsabilidades entre mãos, neste caso, alimentar diariamente parte das páginas deste jornal que hoje chega até vós, e ao qual agradeço a oportunidade de fazer parte da história da Imprensa açoriana.
                         
30 de Abril de 2020                            
Joana Medeiros 
(Jornalista)   
 


“Tenho saudades de dar e receber abraços”

 Desde que nascemos, aprendemos a usar o abraço para mostrar afecto, amor. A comunicação não verbal é uma forma poderosa para falar sobre sentimentos.
Tenho saudades…daquele abraço, de vibrar, de tocar, de ser tocada, da troca de energia humana, que nos dá vida e oxigénio para continuar a viver, com prazer de viver.
O abraço é mágico e terapêutico. Há no abraço um lugar de conforto, onde não é necessário verbalizar nada, apenas existe o sentir dos corações.
Todos os dias, sinto saudades, dos afectos, dos abraços dos meus pais, saudades dos abraços intensos.
Cresci…vivi…sempre, com esse privilégio desta troca constante de afecto e de amor.
Esta mania dos abraços é um hábito que tenho instituído ao longo dos anos com amigos e pessoas de quem gosto muito. Fechar os olhos e, por breves instantes, somos só um ser e sentirmos como se estivéssemos a carregar a pilha de felicidade.
E, de repente, o mundo mudou, e os abraços tornaram-se num dos bens mais preciosos da Humanidade para sempre. E vamos passar a dar total valor: Ao tempo do afecto, à amizade, à solidariedade e ao AMOR.
Amor por nós mesmos, pelo próximo, pela família, pelos amigos de sempre e pelos novos amigos que a vida nos traz.
Tenho saudade de abraçar.

30 de Abril de 2020
Isabel Roque (Designer de Moda)
 

Avós em tempo de confinamento!

Eu e minha mulher Conceição casamos em Novembro de 1973, ela com 20 anos e eu com 21. Por opção nossa, um ano depois, nascia a nossa filha e quatro anos depois o nosso filho, estávamos realizados, tínhamos a nossa família constituída!
A partir desta data sempre mantivemos a família unida. É na família que a sociedade tem os seus alicerces! Os filhos cresceram, casaram, constituíram as suas famílias, o filho, por opção, vive no Pico. Presentearam-nos com quatro lindos netos: Gonçalo, Gabriel, Laura e Pedro. É a nossa sobremesa da vida! Tentamos ser avós presentes e úteis na sua educação e no seu crescimento! Os netos são amorosos e há um relacionamento com muita cumplicidade entre nós!
Inesperadamente, toda esta convivência foi posta em causa pelo confinamento imposto, por razões sanitárias, devido à pandemia provocada pelo Covid-19, que nos arranca dos braços os nossos netos, a nossa família!
Cumprindo o determinado, alteramos o nosso dia a dia, ficamos em casa, saímos, respeitando as distâncias impostas para o indispensável: farmácia, padaria, super-mercado e mercado da Graça, em horas e dias diferentes dos habituais, para evitar, quanto possível, o maior número de pessoas. O gel desinfetante, os cuidados com a higienização das mãos, do que trazemos para casa, etc… passou a ser uma constante! 
Passar nas ruas desertas da cidade em dias em que deviam de estar repletas de gente, é assustador, é deprimente, é ficção científica! Nunca dei tanto uso ao pijama como tenho dado. Até à missa vou de pijama!  
Tudo isto foi aceite e interiorizado, sabemos que é para nosso bem e da comunidade onde estamos inseridos. Pior ou mesmo horrível, foi retirar-nos dos braços os nossos netos. Sentimos a falta deles, o contacto físico, o beijo, a carícia, a brincadeira que leva o avô a ir ao oculista endireitar os óculos! 
A avó tenta minimizar a situação, eles pedem uma comidinha saborosa da avó, lá vai o avô levar, fica à porta, eles no lado de dentro. Um dia destes a Laura vem em corrida de braços abertos para dar um abraço, grito “não! Cuidado, pára!” Ela responde: “avô, tenho tantas saudades de te dar um abraço!” Eu também minha neta, retiro-me para que ela não me veja chorar! Vamos vendo os nossos netos no Pico, pelas novas tecnologias. Pedro com um lindo sorriso, de mão fechada polegar esticado manifesta o seu sentimento com um “fixe”, Gabriel, carinhosamente, diz-nos: “vocês são os melhores avós do mundo!” O Gonçalo, o mais velho, que está muito ligado a nós, olha-nos desconcertado sem saber como proceder!
Em 68 anos de vida nunca passei a festa da Ressurreição de Cristo, a Páscoa como a passamos, este era um dia de reunir a família, festejar a vida! Sozinhos, olhávamos um para o outro e víamos nos nossos olhos o brilho da saudade e da tristeza!  
      

Carlos A. C. César
Avô
 

A avó Maria  
 Maria Luísa Pacheco Simas é funcionária na Câmara Municipal de Vila Franca do Campo, e reside na Freguesia de São Pedro, em cuja paróquia colabora, desde há muitos anos, no canto e na catequese. Mãe de dois filhos, agora também vive os momentos de confinamento e deseja a passagem gradual para a normalidade da vida. Tem um filho que também é funcionário da mesma Câmara e diz que “eu e meu filho estamos em casa desde 17 de março. Tanto eu como ele temos ido ao serviço em situações pontuais. Ele mais do que eu. Estamos a trabalhar em teletrabalho. Quanto ao confinamento, meu filho nora e netinho, de 5 anos, vêm cá a casa mas de forma muito reduzida.
Quanto aos outros dois netos, da minha filha nunca mais saíram de casa, como ela é enfermeira e o marido militar, têm feito turnos alternados, no entanto entre o tempo que medeia a saída de um e a entrada do outro, tenho ido lá a casa e estou com eles, cá fora no quintal e jardim, com distanciamento. Ele tem 4 e ela 2 anos, estão dentro do que está acontecendo, principalmente ele, que é um “discretão”. Aqui em casa tenho-me dedicado a tantas coisas que em tempo normal não conseguia. Meu filho tem feito um lindo trabalho no meu quintal. Tenho tentado estar sempre ocupada para que o tédio não se instale. E para além disso, confessa, na cozinha há sempre algo diferente para fazer e quem com o trabalho e outras responsabilidades, não era fácil.
E como a necessidade de contacto sempre existe, Luísa Simas diz que “graças às novas tecnologias todos os dias falamos em video chamadas. Eles ficam tão contentes” e à falta de melhor também é uma forma de presença.
 

A invisibilidade!Resultado de um teste psicotécnico, aspetos a realçar:
A) Cores favoritas: Amarelo e Preto
B) Estilo de comunicação: Táctil
C) Da personalidade: “Não faz teatro”
Como relacionar com isolamento social? Ou a dita maldita quarentena?
Sou muito táctil, cresci num ambiente onde toque é privilégio, toque é cheiro, é ativar sentidos quase que de sobrevivência. Fosse num acariciar da mão calejada do papá Totona, ou na rabada que nunca dói da mamã Lina, fosse no pentear a sua carapinha, ou no toque de deus que sempre quis!
Filho e sobrinhos marcados pela côr do meu batom, sempre a prova de que a tia Vânia chegou e agora parece que nunca mais chego...nem posso gastar as cores dos meus lábios no MEU filho!
Algo que eu não vejo tirou-me isto!
Pois...não faço teatro, canto! E no entanto, impôs-se-me uma atmosfera ainda mais virtual, teatral. Redes “prenhadas” de fotos antigas, ou montadas, ou de quem fechada em casa está bem maquilhada...tipo eu…este tal invisível deu-me isto!
Então, amarelo e preto. A distância destas cores prende-me à sabedoria de apóstolo, de um certo Saulo que foi Paulo e que disse “Sei viver no muito e no pouco”; também eu no amarelo recolho do sol tanto, a cada telefonema dos manos e manas, da gargalhada do caçula simba, da mamã, das amigas tais. Pois bem no negro de uma grande lição para cada nação o tal invisível ensinou-me isto, depois de me dar aquilo, quando me tirou todo o outro! Só não me roubou de mim e da fé num Outro invisível que é prova impreterível de que estamos a voltar a chegar, está quase no fim!

 19 de Abril de 2020  
 Vânia Dilac, (Cantora)

 

Tempos de contenção de afectos
Tem-me ocorrido que tendemos a pouco valorizar o que nos é dado todos os dias, aquilo de que dispomos e com que sempre podemos contar. Pelo avesso, é-nos particularmente querido aquilo que não nos é próximo nem simples de alcançar, aquilo que temos de conquistar ou com que sonhamos, aquilo que nos surge como desejo. Quem valoriza o café que todos os dias bebe num snack-bar?Quem dá realmente importância ao sorriso dos pais e avós ou ao seu abraço? Quem considera tão bom o cumprimento dum colega?Quem se alegra com levantar-se cedo e ir para o trabalho?
Hoje, no próprio dia em que estou a escrever, à hora em que pressiono as teclas do computador, muita gente haverá que a esses pequenosgestos do que era o quotidiano dê o valor que nunca lhes deu, muita gente haverá que queira tanto o café tomado ao balcão, o sorriso dos pais e avós, o seu abraço, o bom-dia dos colegas, até o levantar-se cedo para enfrentar um dia de trabalho. E tudo isso foi (re)descoberto por estarmos assim tão isolados, tão condicionados a um único espaço, o da nossa casa, tão afastados do que era próximo, simples, óbvio – mas já não é.
Quanto tudo era bulício e agitação nas cidades, quando o dia começava cedo e acabava tarde, cada um entregue a compromissos laborais e sociais, quando o fum-de-semana parecia tão exíguo, todos desejavam o remanso do lar e o tempo disponível. Agora que o lar é o único espaço que temos, já não parece ter a magia que sonhado tinha, até porque o tempo continua a não estar disponível. E, por estes dias, o que mais falta faz é o afecto dos que, mesmo próximos, tão longe estão. E também, por acréscimo, me faz falta o afecto de outras eras.
E recordo o avô, a sua altivez do cimo dos seus dois metros, a sua pacatez no repouso depois do almoço, em que nos deitávamos quatro netas ao seu redor, duas dum lado, duas de outro, e o ouvíamos cantarolar cantigas de outros tempos ainda. Por vezes, o avô dava-nos cinco escudos, nós corríamos rua abaixo, até à mercearia, e comprávamos bolachas forradas de chocolate, que vinham num cartucho de papel pardo, e havia entretenimento para toda a tarde. E o avô tinha um prédio, ao cimo da rua, onde entrávamos com o deslumbramento de quem descobre um espaço interdito e depois fazíamos bolinhos de terra amassada com água, que eram atirados aos muros.
Tudo isto foi há tantos anos, mas o que é bom enraíza-se na memória, dela não se desata. E agora, que os tempos são de contenção de afectos, só queremos voltar a tomar um cafezinho num balcão repleto de outas pessoas, ouvir-lhes claramente a voz, ir a casa dos pais ou dos avós, ver-lhes de perto o sorriso, abraçá-los.

 29 de Abril de 2020
 Paula Sousa Lima
 (Escritora)
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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