UNILEITE afirma que “está em causa a sua sobrevivência” para justificar baixa de 1.45 cêntimos no preço do leite à produção

 A UNILEITE baixou o preço do leite à produção em 1.45 cêntimos o litro no dia 1 de Maio sem realizar a tradicional Assembleia Geral, o que não acontecia há vários anos. Antes de qualquer alteração do preço do leite, a UNILEITE, enquanto união de cooperativas de produtores, reunia sempre a Assembleia Geral para informar os seus cooperantes da situação que justificava a alteração de preço, criando-se espaço de debate entre todos. Desta vez, a pretexto das medidas restritivas provocadas pela Covid-19, a maioria esmagadora dos produtores foram confrontados já com o anúncio da descida do preço do leite à produção.
A UNILEITE vive uma situação financeira “extremamente difícil” e uma das razões foi ser a indústria que, durante muito tempo, não impôs limites de produção – aquando as outras indústrias impuseram limites e penalizações – acabando por ficar com excedentes antes mesmo do impacto da pandemia da Covid-19.
Mesmo quando a Associação Agrícola de São Miguel propôs o abate de vacas em produção, mediante o pagamento de um apoio governamental, para diminuir a quantidade de leite produzida numa altura em que se vivia uma crise de falta de alimentos, por um lado o Executivo açoriano preferiu desembolsar cerca de três milhões de euros para apoiar a compra, no exterior, de alimentos para as vacas numa operação em que os lavradores gastaram cerca de 10,5 milhões de euros; e, por outro lado, a UNILEITE continuava a aceitar os excedentes de leite, admitindo novos produtores quando as outras indústrias reduziam a entrada de leite nas fábricas.
Nestas circunstâncias, a UNILEITE, enquanto fábrica de lacticínios de produtores de leite, passou de uma situação em que regulava, por cima, o preço do leite à produção; para a situação que agora se vive de regular o preço por baixo baixando-o em 1.45 cêntimos por litro.
Por sua vez, o Governo dos Açores, não aceitando no passado pagar um apoio por abate de vaca em produção (para controlar a produção de leite), agora vê-se confrontado com uma crise na fileira do leite em que deverá intervir financeiramente para que não aconteça o colapso de muitas explorações agrícolas que vêem o cheque do leite cada vez mais minguado.
Neste contexto, a situação em que se encontra actualmente a fileira do leite da Região deve-se, antes de mais, a não se ter tomado algumas decisões no tempo certo, realidade que agora é agravada pela situação gerada pela pandemia da Covid-19.

Produção de leite a aumentar

Com toda a indústria de lacticínios, incluindo também agora a UNILEITE, a pedir aos seus produtores para conterem na produção do leite, a verdade é que não há forma de o fazer de um momento para o outro. E as estatísticas falam por si: Nos primeiros três meses deste ano, foram produzidos nos Açores mais 5,4 milhões de litros de leite do que em igual período do ano passado. E, só na ilha de São Miguel foram produzidos no mesmo período deste ano (Janeiro a Março) mais quatro milhões de litros de leite do que em igual período de 2019.
Obviamente que hoje está provado que, a adoptar-se a medida da Associação Agrícola de São Miguel de, até numa altura de seca, se abater vacas em produção (para além das vacas de refugo que normalmente se abatem), hoje a fileira do leite não estaria na situação crítica em que se encontra.  
Por isso o “lamento” e a manifestação de profundo desagrado do Presidente da Associação Agrícola de São Miguel, Jorge Rita que assiste à primeira baixa do preço do leite por parte da indústria de lacticínios, pertença dos produtores, que era a primeira a subir e a última a descer o preço do leite à produção.
Perante o momento “extremamente difícil” em que vivem os produtores de leite, o Governo dos Açores, a pedido da Federação Agrícola dos Açores e da Associação Agrícola de São Miguel, chegou a solicitar que as indústrias suportassem a quota parte das quebras de preços provocadas pela pandemia da Covid-19 e a UNILEITE foi a primeira indústria a descer o preço.
No comunicado entregue aos seus produtores, a UNILEITE traça um cenário negro da produção do leite “provocado” pelo coronavírus. “Assiste-se, por todo o lado, que o sector do leite está a ser penalizado, nomeadamente, em alguns países recusa-se a recolha de leite”, assiste-se a situações de “leite derramado pelo chão e outras situações altamente prejudiciais para quem produz leite”.

UNILEITE: em causa a sobrevivência

“Importa agir com responsabilidade, sob pena de não conseguirmos sobreviver a este tempo difícil e de imprevisibilidade económicas”, escreve a UNILEITE no comunicado para justificar que “somos assim forçados a assumir um conjunto de medidas para minimizar os impactos económicos da recessão, sendo uma delas, tomada a muito custo, a baixa do preço do leite”.
A mesma deixa claro que a baixa de 1,45 cêntimos representa um valor “comum a todos os produtores, independentemente dos modos como procedem à produção e entrega do leite”. 
Realça, igualmente, que “os custos com a recolha do leite ao longo dos anos não foi devidamente aflorado, apresentando uma dispersão por toda a ilha, com variáveis condições de acessibilidades, tendo aumentado drasticamente os seus custos nos últimos tempos e que se torna insustentável os seus custos nos últimos tempos e que se torna insustentável e agora impõe-se atender”.
A União de Cooperativas acaba por salientar que “o caminho a percorrer com a actual situação é exigente, imprevisível, indeterminável e depende do esforço, do desempenho de cada um de nós. O exercício da nossa actividade é imprescindível para garantir a alimentação da população e da nossa sobrevivência”, lê-se no comunicado.
O comunicado, assinado pelo Conselho de Administração da UNILEITE, acaba por “apelar à melhor compreensão” dos produtores “para as difíceis decisões que formos forçados a tomar em virtude da situação de recessão que vivemos. Mas depositamos a esperança que melhores tempos virão”.

                                             

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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