Sem que sejam garantidas condições de segurança

Pais de Santa Maria contra abertura das escolas a partir de Segunda-feira

 A Escola Básica e Secundária de Santa Maria elaborou um Plano de Regresso às Aulas Presenciais, conforme determinação das medidas de flexibilização de restrições anunciadas pelo Governo Regional para que as aulas nos três ciclos do Ensino Básico e no ensino Secundário tenham início já na próxima Segunda-feira, mas os pais estão contra esta reabertura das escolas. 
A Escola pediu contributos a todos para a elaboração deste Plano, mas a Associação de Encarregados de Educação e Amigos da Escola Básica e Secundária de Santa Maria mostrou-se desagradada com esta abertura e deixa muitas questões à Escola, à Direcção Regional da Educação e à Direcção Regional da Saúde, informando que “80% dos encarregados de educação que se manifestaram, mostraram-se contra a reabertura das aulas presenciais e os restantes 20% embora aceitem a decisão, apresentam elevadas reservas e questões que devem ser tidas em conta no plano de contingência para o regresso às aulas”. 
No documento, a que o Correio dos Açores teve acesso, a maioria dos encarregados de educação “julga uma decisão precipitada, orientada por interesses económicos e não pela saúde pública”, já que a população mariense cumpriu à risca as medidas de confinamento impostas. Além disso, destacam que muitas famílias partilham o lar com idosos e a escola a funcionar com aulas presenciais será um foco de contágio “caso se venha a registar algum caso aqui na ilha”. 
Os encarregados de educação alertam também para o facto de a escola ter “espaços limitados e recursos humanos insuficientes” para fazer cumprir o distanciamento social entre crianças e adolescentes. A Associação de Pais refere ainda que “incutir às crianças a responsabilidade de estarem um dia inteiro usando máscaras e se desinfectando consecutivamente durante 5 horas ou mais, não consideramos produtivo para o rendimento escolar, pois alguns terão isso em mente como uma brincadeira e outros como pressão, levando assim à insegurança de muitas crianças na nossa sociedade e consequentemente desequilíbrio pessoal, social, escolar, isto tudo por causa de um mês na escola”. 
O documento aponta ainda o esforço que foi pedido às escolas e aos professores para que se arranjassem soluções para o ensino à distância, com reformulação de planificações, adaptação de materiais à nova modalidade de ensino e até a distribuição de computadores portáteis pelos alunos mais necessitados. “Tanto tempo a fechar os miúdos para protegê-los por ordem do Sistema de Saúde e agora querem aglomerá-los a todos?”, questionam os pais alegando não ver justificações para “se expor as crianças da nossa ilha a algo que não é impossível de aparecer e propagar-se como a Covid-19”.
E quando falta praticamente a um mês para o final das aulas, que estava previsto para 14 de Junho, os pais acreditam que abrir as escolas “não é uma medida de todo coerente com as medidas tomadas até então. As crianças não são embalagens para empacotar conteúdos. Elas valem mais que isso”. Por isso entendem que nesta situação excepcional, exigem-se medidas excepcionais já que o vírus “vai estar entre nós durante muito tempo”. Porque o regresso à normalidade de outros tempos não será possível, há que regressar a uma nova realidade e para isso são necessários “novos hábitos, novas rotinas, novas formas de agir e de estar socialmente, para tal é preciso planear atempadamente, e passar à prática educando os nossos jovens para esta nova realidade, de forma consciente e não num espaço temporal de uma semana”. Não é que os pais não desejem o regresso das aulas, mas porque “ficamos com a impressão de que a partir do próximo dia 11 tudo volta a ser como era dantes e que nada de anormal se passa”. 
O regresso às aulas, segundo alguns encarregados de educação, deve ser planificando tendo em conta muitas das questões que inquietam os pais, considerando que uma semana é um tempo muito curto para “criar condições e educar para o espaço escolar para evitar contágios, num cenário actual, de stocks limitados”. 
Defendem os pais que o recomeço das aulas deveria ser gradual por anos lectivos, regressando pelos anos com alunos com maior autonomia e que vão fazer exames, sugerindo que numa fase inicial fosse apenas para dar formação de todas a regras de segurança e em horários desfasados de modo a evitar concentrações menores nos espaços. E “só depois de todos informados e esclarecidos se avançaria para as aulas propriamente ditas com a aplicação das regras, todavia o espaço é tão curto se não estiverem reunidas todas as condições de segurança e de igualdade de oportunidades escolares e pedagógicas não faz sentido insistir na reabertura da escola, até porque o ensino à distância estava a decorrer de forma muito satisfatória, com alguns problemas é certo, mas sem dúvida em menor número e de mais fácil resolução do que os que se levantam agora com este regresso abrupto e inesperado de todos os anos lectivos às aulas presenciais”.

Capacidade da ilha para o recomeço
O documento a que o Correio dos Açores teve acesso dá ainda conta da preocupação dos pais quanto às máscaras que cada aluno terá de usar, no mínimo duas com duração de 4 horas cada. “Duas máscaras por dia para cada aluno, cada professor e cada funcionária exigem pelo menos cerca de 2.000 mil máscaras por dia. E os transportes dos alunos implica aumentar o número de autocarros e ajustar os horários de chegada e saída da escola. As logísticas na sala de aula. Para manter a distância de segurança as turmas, pelo menos as maiores, teriam que ser desdobradas, com todas as consequências que isso acarreta como seja o desdobramento de professores, de salas e de horários e que é muito difícil conseguir numa semana”, alertam os encarregados de educação.
No entanto, acredita que uma solução viável seria ter no máximo 10-12 alunos por turma, que deveria ocupar apenas uma sala de aula, “cada aluno com a sua mesa para evitar a necessidade de contínuas higienizações e seriam os professores a mudar de sala e nunca os alunos”. Quanto às aulas em que poderá haver maior partilha de materiais, como educação física ou educação musical, os pais entendem que será muito difícil garantir a higienização destes materiais entre cada utilização. 
“Nesta fase considerar não ter estas aulas presenciais, manter estas disciplinas no ensino à distância e utilizar estas horas do horário para desdobrar a turma e utilizar os professores destas disciplinas coadjuvar os outros professores em termos de organização e regras de segurança”, apresentam como solução. 
Os pais preocupam-se também com os professores que ainda estão ausentes da ilha e que após regressarem a Santa Maria “terão que fazer quarentena pelo que será impossível estarem cá a partir do dia 11. Sugerimos o levantamento para que os mesmos continuem os trabalhos como vem sendo feito, e ajustando o horário, isto no caso de disciplinas nucleares”.
A biblioteca deveria continuar encerrada, acreditam os pais, que entendem que deve haver alternativas às máquinas que se encontram na cafetaria “para evitar que toda a população escolar as manuseasse, de considerar retirar as mesas e as cadeiras porque evitava o aglomerado de pessoas e assim não seria necessário proceder à sua higienização”.
Os pais alertam que têm de ser encontradas “soluções viáveis”, questionando se na parte educativa/avaliativa “vai ser igual ou diferenciada em relação às outras ilhas e resto do país”, entendendo que ninguém deve ser prejudicado ou beneficiado por ter ou não aulas presenciais. 

Autoridade de Saúde mantém abertura
Questionada pelos jornalistas no ponto de situação diário, a Autoridade de Saúde Regional disse ser “normal” a população de Santa Maria ter algum receio do regresso à normalidade lembrando, no entanto, que a ilha não registou até ao momento qualquer caso de Covid-19. 
“Pese embora possamos dizer que nada há a temer, a verdade é que há sempre algum receio associado a esse regresso à normalidade, é perfeitamente natural que assim aconteça”, lembrando Tiago Lopes que estão a ser tomadas “todas as providências dentro daquele que é o conhecimento actual que nós temos da evolução do surto na Região, de toda a situação epidemiológica ao nível regional e local e nada aponta para que não possa acontecer esse regresso à actividade lectiva tal como está previsto”. Tiago Lopes reforça a necessidade de se manter uma vigilância e monitorização da situação epidemiológica a nível local “que possa levar a esse recuo na decisão que foi tomada” mas, não havendo qualquer alteração do surto na ilha “nada aponta para que não possa ocorrer reabertura”, concluiu.    
 

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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