8 de maio de 2020

Chá da Cesta - 28

Franceses

No caso da França, o consumo de chá andou sempre muito longe do da Grã-Bretanha, da Holanda e da Rússia. Ainda assim, os franceses acabaram por cultivar e produzir chá. Em trabalho publicado em 1895, o açoriano Cristóvão Moniz descreve algumas das tentativas francesas ocorridas em finais do século XVIII na Ilha de Córsega (Mediterrâneo) e na Carolina do Sul (América do Norte): “No intuito, pois, de provar a cobiçada indústria, mandou o governo de Luíz XVI [1774-1792] transportar alguns pés de chá para a Córsega e Charlestown, na Carolina, dotada pela França com seu Jardim de aclimação, sem que, todavia, por mal acolhido dos corsos e dos vizinhos da cidade americana, surtisse o tentâmen o efeito desejado.”1
Já em 1818, para a área do Atlântico, de acordo com o correspondente de um jornal brasileiro em Paris, a França demonstrara evidente interesse em introduzir chá em Caiena, capital da Guiana Francesa, a norte do Brasil. A expedição a que alude a notícia de 1818, consistiu no envio de “(…) duas embarcações destinadas para a China (…),” cujo objectivo era o de tentar “transportar alguns naturais daquele país para Cayenna, para cultivar o chá.”2 Em 12 de março de 1819, outro periódico brasileiro, citando A Gazeta de Paris, sem referir o resultado concreto da expedição de 1818, assegura que a expedição se realizara, considerando que “O Rei de França tinha mandado à China buscar alguns naturais para fazer plantações de chá em Cayena (…).”3
Para a história da introdução do chá no Brasil português, na década 1810, são conhecidas duas versões que atravessam a história do chá francês. João Conrado Niemeyer Lavôr é de opinião de que o chá brasileiro, apesar de ter sido forçadamente plantado nas Maurícias, veio originalmente de Macau. Foi “(…) um português, Luís de Abreu Vieira e Silva, a quem o senador de Macau, Rafael Botado de Almeida, havia oferecido diversas plantas orientais, entre elas o chá (…).”4 Seja como for, tendo aproveitado o chá de Macau ou não, as Maurícias acabariam por ter chá. Além do mais, realce-se a ligação das experiências portuguesa e francesa no Índico e no Atlântico.
Ligado à experiência nas ilhas Maurícia e da Reunião (antiga Ilha de Bourbon), no Oceano Índico, P. L. Simmonds, em 1854, atesta o sucesso do chá nas Maurícias: “(…) Mr. Boyer, Director of the Museum at Port Louis, has succeeded in rearing 40,000 tea-trees (...).” E adianta que Mr. Boyer era de opinião “that if the Island of Bourbon [It is situated east of Madagascar and about 175 kilometres southwest of Mauritius, the nearest island] would give itself up to the cultivation, it might easily supply France with all the tea she requires. (…).”5
Continuando a referir as Maurícias, P. L. Simmonds avança com algumas das razões que, segundo crê, explicam o sucesso do chá naquelas paragens. Primeiro, “the plant grows in every soil, even the most ungrateful, resists the hurricanes and requires little care (...);” depois, “the picking of the leaves, like the pods of cotton, is performed by women, children, and the infirm without much expense.”6 Havia lá ainda outra forte razão para investir na cultura do chá - a mão-de-obra chinesa disponível: “The preparation is known to the greater part of the Chinese, of whom there are so many in Mauritius (...).” Além do mais, a finalizar, a preparação “is not difficult.” Sabe que um tal “Mr. Duprat has, I have informed, planted a certain extent of land in the neighbourhood of Cernipe, in that Island (...).” Todavia, não está a par do resultado: “but I have not yet learnt with what success.”7 Seja como for, o chá prospera. Já que por volta de 1874, uma notícia adianta que na Ilha Reunião, vizinha da Maurícia: “(…) a cultura também tem prosperado, e o produto que aí se fabrica, o chá preto, é considerado de boa qualidade.”8
Pela mesma altura em que se experimenta o chá na Guiana Francesa e talvez nas Maurícias, volta-se a experimentar no território continental europeu francês, desta vez por via dos russos. O correspondente brasileiro de A Gazeta do Rio de Janeiro, em 1819, refere que o chá teria sido levado em 1814 para a França por um russo e que “(…) já aqui existem de 200 a 300 pés, de maneira que se pode propagar com grande facilidade. Este chá foi aprovado pelos médicos do Rei, e pelos primeiros naturalistas da França. (…).” Resultado: “O chá vende-se por subscrição, mas não se entrega antes do mês de Março. As plantas mais fortes hão-de ser dadas aos primeiros subscritores.”9 Fala-se, no entanto, de plantas de chá, não de chá feito.
Segundo escreveu, em 1895, Cristóvão Moniz, por volta de 1838, com o Brasil já independente de Portugal, seguindo de novo a ligação Brasil e França, a França voltou a apostar na introdução do chá tanto no seu território continental europeu como em algumas das suas possessões na área do Mediterrâneo. O autor começa por referir o interesse dos Europeus pelo caso brasileiro: “A prática genuína da cultura da planta e os processos legítimos da manipulação (p.30) da folha atraíam agora ao Novo Mundo a vista dos estadistas mais conspícuos da Europa (…).”10 De seguida, comenta o interesse particular do rei francês: “(…) no propósito agronómico e industrial de promover em França a aclimação do decantado arbusto, chegou em 1838 ao Rio de Janeiro M. Guillemin, como enviado do Governo (…).” O resultado não foi brilhante: “das 1 500 plantas escapadas à viagem, das 3 000 que o sábio naturalista obteve nas plantações brasileiras, só restam hoje pouquíssimas no Jardim de Angers (…).”11 Não obstante o esforço, a aposta fracassou: (…) apesar do interesse com que a planta foi recebida em França e do benemérito comissionado se não ter esquecido de indicar, para eficácia da cultura, os terrenos argilo-ferruginosos da Córsega e da Argélia.”12
Cristóvão Moniz, em jeito de balanço, comparando franceses, britânicos, holandeses, americanos e russos, escreveu ainda naquele mesmo ano: 

“enquanto na França as tentativas se frustraram umas após outras, os ingleses lá iam, com o espírito prático de que são dotados, prosseguindo nas vastas plantações de suas colónias indiáticas, especialmente nas do Hymalaya, de onde actualmente estão colhendo grande parte do chá que consomem, assim como a Rússia e as Províncias do Sul nos Estados Unidos da América (…) Deixando agora Java, onde a cultura industrial do chá remonta a 1835, e as plantações, sempre crescentes, das altas montanhas de Ceilão (…).”13 

Opinião contrária, relativamente a França, é veiculada por Deuss. Afirma ele que, nos finais do século XIX e inícios do XX, no próprio território da Metrópole, em França, foi tentado, com sucesso, plantar chá: (p.241) (…) Enfin, il faut citer une petite plantation de thé en France, qui semble avoir une trentaine d”années: elle se trouve dans l”Anjou.”14
Porém, a França desenvolve o chá na Indochina Francesa (Sudeste Asiático), onde havia chá a crescer.15 A situação mudaria no início do século XX, porquanto o governo Francês investiu no chá: “(…) to improve the quality of the native crop; a research station as set up at Phu Tho (Tonkin) in 1917 for the experimental cultivation of selected plants imported from Assam and Ceylon.” Atente-se: plantas do Assam e de Ceilão, ou seja, chá de folha larga do Assam, não de folha estreita de Darjeeling ou da China.”16
Seria, no entanto, apenas a partir de 1924 que “have large tea plantation been established under French management. (…).” Em 1937/38, a produção nas plantações dos europeus foi apenas de 812 toneladas.17 A maior parte é exportada para a França.18 Portanto, além do chá da Indochina, a França produzia em outros territórios: Maurícias e Reunião.19

Lugar Areias, Rabo de Peixe, 1 de Maio de 2020

1  Moniz, Ob. Cit., p. 28.
2  Gazeta do Rio de Janeiro, 13 de Janeiro de 1819: 3.
3  Idade do Ouro, 12 de Março de 1819: 1.
4  Lavôr, Ob. Cit, 1983, p. 82.
5  Smmonds, Ob. Cit., p. 94.
6  Ibidem.
7  Ibidem.
8  Chá (nota), Ob. Cit., pp. 723-724.
9 Gazeta do Rio de Janeiro, 10 de Fevereiro de 1819: 2.
10  Moniz, Ob. Cit., pp. 29-30.
11  Idem, pp.29-31.
12  Idem, pp. 30-31.
13  Moniz, Ob. Cit., p. 31.
14  Deuss, Ob. Cit., p. 229.
15  Indo-China Geographical Handbook, Geographical Handbook Series, Naval Intelligence Division, Kegan Paul International, USA, Canada, 2006, p. 300: : “(…) the tea plant had been cultivated by native farmers long before the European occupation of the country.” Todavia, “even after the French conquest, for a long time little attempt was made to establish modern plantations owing to lack of capital.”
16 Antigos responsáveis pelas fábricas da Barrosa, Mafoma e Canto, na Ribeira Grande, referem o chá Francês, de folha larga. Já o usavam, pelo menos, nas décadas de quarenta e de cinquenta do século XIX.
17 Ibidem.
18 Ibidem.
19 E para finalizar esta longa digressão pelo chá, refira-se que até mesmo a Espanha, apesar de preferir o cacau e o café ao chá, em finais do século XIX, tentou: “(…) on the east coast of Spain, and particularly in the province of Valencia, as well as in California, much attention is at present being paid to the systematic cultivation of this importante plant.” (Walker, Walter Frederick, The Azores: or the western Islands, a political, comercial and geographical account, Trubner & CO., London, 1886, p. 3.)Não por sua influência, mas num país de língua castelhana da América do Sul, a Argentina, é um grande produtor e exportador de chá. (http://www.taringa.net/posts/apuntes-y-monografias/4980618/El-Te-produccion-nacional.html) Ou na Itália, que tentou desde o início do século XIX e tem hoje uma pequena plantação (Tea Cultivation in Italy, New York Times, 25 Abril de 1885).

Mário Moura

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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