8 de maio de 2020

O Correio dos Açores, os jornais e o percurso político da Autonomia

O segredo dum jornal está em três itens essenciais: boas notícias, o que pressupõe um quadro jornalístico formado e de qualidade; a opinião diversificada e de qualidade; e a publicidade. A informação de qualidade coloca o jornal no interesse da sociedade que o procura por essa segurança informativa; isso vai motivar a opinião, multiplicando-se as ramificações da qualidade do jornal, e as empresas que necessitam de espaço para a publicidade dos seus produtos vai procura-lo pela dimensão social que ele representa. Há outros elementos importantes num jornal, mas são estes três que fazem a diferença: falhando seriamente um destes três itens – e eis que o jornal entra em declínio, que é o que temos visto nos últimos anos nos Açores.
Já se vê que o Correio dos Açores – com os 100 anos de atividade que está a comemorar – continua a cumprir com êxito o antedito triângulo.
Por causa do meu irmão mais velho, já falecido, desde muito jovem tive acesso a muita banda desenhada e a muitos jornais que ele trazia do hotel onde trabalhou. Foi aí que tomei conhecimento direto, pela primeira vez, do Correio dos Açores. E sempre tive acesso a esse jornal sobretudo na antiga Biblioteca d’Angra; mas só desde há alguns anos que o leio todos os dias e não dispenso a secção das anedotas; e mantenho uma parte da minha escrita semanal.
Quero dizer, portanto, que, 1º, os jornais são um multiplicador de informação e, pois, de promoção da qualidade da literacia, da cidadania e da democracia; e, 2º, são a forma mais segura de manter uma informação de qualidade.Por regra essa qualidade pode depender exclusivamente dos jornais; por exemplo, isso acontece em Lisboa e Londres – porque a sociedade é suficientemente madura, com estruturas sociais desenvolvidas para alimentar esses jornais e jornalismo. Mas em meios mais pequenos ou em meios onde a literacia da cidadania é débil – isso não é suficiente, acontecendo que ou sobrevivem aqueles que vivem nalguma dimensão populacional, como é o caso de Ponta Delgada, ou se extinguem com facilidade por não possuírem tal dimensão, é o caso de todos os restantes concelhos dos Açores.
Nestes casos,mais pequenos e de menor densidade política e cidadã pois, está em causa, não apenas a metodologia dos jornais, o antedito triângulo funcional, mas também as fraquezas da sociedade, uma forte iliteracia, uma cidadania passiva e sem interesse, problemas estruturais de distribuição de riqueza e desenvolvimento, e poucas acessibilidades. É aqui nestas situações que entram os governos: têm de saber reconhecer onde é faltoso o investimento público na comunicação social escrita. Aqui, portanto, já não está em causa a manutenção de postos de trabalho, a formação jornalista e toda uma panóplia de dificuldades próprias desse sector. Está já em causa formar as populações, a democracia participativa, motivando-as à leitura, à critica, ajudando a criar hábitos de leitura a partir da juventude para a formação de uma cidadania proactiva e critica – no fundo promovendo o progresso civilizacional e da pessoa humana.
Esta é uma falha colossal da Região Autónoma dos Açores com quarenta e quatro anos, pois o Governo Regional aposta mal e precariamente na comunicação social escrita sem se importar que as pessoas não estão motivadas para a sua leitura ou sobretudo que não têm condições para lhes aceder. E é esse paradigma que tem de se repensar: continuar a investir no sector económico, mas pensar mais largo – até chegar ao ponto onde o sector sobrevive por si próprio porque os jornais são lidos –e a sociedade é moderna, isto é, quer e tem acesso e poder de compra de jornais.
É impensável e muito triste que não exista um jornal na maioria dos municípios das ilhas. O Governo Regional tem de aprender que os cidadãos que só tenham estudos sem terem hábitos de análise e critica social e sobretudo política – são sempre e toda a vida pobres de cidadania. A vetustez dos governos é sinal claríssimo dessa realidade açoriana: da perspetiva formal, por via de falta de um correto sistema de governo; da perspetiva material, porque existe na generalidade uma enorme iliteracia, falta de pensamento próprio e critico, em suma, uma sociedade encolhida e amordaçada.
O cidadão necessita da notícia e informação de qualidade, e da opinião de qualidade, para saber que a democracia está sã ou doente; mas sem possuir condições de explosão cidadã para criar a consciência desse défice é mais difícil. E os governos têm a obrigação política de governar para o bem comum.
A Autonomia, pela sua natureza de choque (duplicidade de parlamentos, governos e leis) oferece à imprensa escrita um valor político específico, tanto como o interesse específico das leis da Região Autónoma. Quanto mais diferente for a política regional e, portanto, em conjunto ou em duplicação e em comparação com a política nacional, maior é a necessidade dos jornais – porque as democracias a duas velocidades exigem maiores cuidados com os direitos fundamentais. Se a Região Autónoma não compreender esta realidade cidadã é porque não compreende a autonomia. A Região, portanto, não necessita de um simples regulamento de investimento público para a comunicação social. Necessita muito mais: 1º, de uma lei regional discutida pelos deputados no parlamento, como aliás o Estatuto Político dos Açores exige; 2º, que esse regime parlamentar seja amplo, na sua dimensão temporal e material; 3º, que englobe o apoio aos jornais, mas também as acessibilidades dos cidadãos, e jovens em particular, acessibilidades aos livros numa vertente social e de investigação. A sociedade açoriana ainda necessita de ajudas especiais para a literacia; tem a escola pública, mas são ainda necessários os jornais e os livros numa dimensão pública.
Nasci e vivo em Angra, por isso é doloroso viver com um único jornal diário. De uma ilha historicamente de jornais, de uma cidade património mundial, de um Castelo do Monte Brasil onde se imprimiu a primeira folha de papel nos Açores – com este património histórico é muito triste verificar a diferença de informação de opinião e de qualidade entre Angra do Heroísmo e Ponta Delgada que possui três jornais diários. E a diferença duma ilha e as outras não é apenas da dimensão populacional e económica, pois o Correio dos Açores tem 100 anos, o Diário dos Açores 150 anos e o Açoriano Oriental 185 anos. Tem que ver com a cultura cívica, com a falta de unidade regional: num caso, tem que ver com a qualidade dos jornais naquele triângulo que acima dissemos; no outro caso tem que ver sobretudo com as dinâmicas sociais que conviviam com muitos jornais depois do liberalismo até às duas primeiras dezenas de anos da Autonomia Política e que agora se apagaram.
 

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Categorias: Opinião

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