Reabertura da hotelaria é “boa notícia” mas há que assegurar os empregos e rendimentos em primeiro lugar


Face à possibilidade de alguns hotéis recomeçarem a abrir as suas portas ao público durante o mês de Junho e Julho com respectivos selos sanitários, o que é visto como “uma boa notícia” pelo Sindicato dos Profissionais dos Transportes, Turismo e Outros Serviços de São Miguel e Santa Maria, Pedro Cabral salienta que uma das grandes preocupações passa por assegurar empregos e rendimentos dos funcionários do sector hoteleiro.
Nesse sentido, o Sindicato afirma ter enviado um documento para a Câmara do Comércio e Indústria sugerindo algumas medidas que poderão ser implementadas com o objectivo de garantir que aqueles que retomem os seus postos de trabalho a partir do próximo mês estejam de alguma forma protegidos daí em diante.
Conforme explica Pedro Cabral, estas medidas incluem assim “a proibição de despedimentos, a suspensão e a caducidade de todos os contratos, a garantia do cumprimento dos direitos dos trabalhadores, onde se inclui o pagamento do total da retribuição, e a contratação sem termo dos trabalhadores que estão a reforçar as funções sociais do Estado”, refere.
Esta preocupação principal, acrescenta, advém do facto de o Sindicato ter conhecimento de “muitos termos de contratos que não foram renovados”, uma vez que “apesar do ‘forcing’ do Estado para que não fossem feitas essas extinções de trabalho, as empresas precaveram-se ao não renovarem muitos contratos a termo” por não terem capacidade para assegurar esses mesmos postos de trabalho nos meses em que viram a sua actividade encerrada.
Apesar de o Governo Regional dos Açores se encontrar a criar cada vez mais medidas extraordinárias dirigidas a trabalhadores e a empresários, a realidade, aponta, é que “sem a ajuda do Estado as empresas não irão conseguir manter postos de trabalho, muito menos se houver uma segunda vaga do coronavírus, porque se tivermos isso em consideração será ainda muito pior e, muito sinceramente, não sei se muitas das empresas conseguirão abrir portas”.
Em acréscimo, Pedro Cabral adianta ainda que os apoios concedidos pelo Governo “não são de modo algum aquilo que os empresários esperavam”, e que embora não haja registo de associados do sindicato que não conseguiram assegurar o ordenado dos seus funcionários durante o mês de Abril, a realidade é “que os valores que estão a ser implementados só aumentam a precariedade” e que, caso os lay-off se mantenham, “o Governo vai ter que reforçar o seu papel”.
“Até à data não temos queixas dos associados, os salários foram processados dentro dos valores que o estado prometeu. Os valores são abaixo do que esperávamos, mas o Governo e as empresas, pelo menos nestas duas ilhas, respeitaram os valores acordados”, referiu.
Entretanto, e embora saliente que não se trata de uma empresa associada a este sindicato que representa, há registo de pelo menos uma empresa dedicada à vertente de passeios turísticos que, com os impactos da pandemia e por se encontrar em início de actividade, acabou por pedir insolvência.

Situação pode ser pior nas 
restantes ilhas do arquipélago
De acordo com Pedro Cabral, este momento por que passa o mundo e as dificuldades por que têm passado os empresários permite-lhe concluir que “a hotelaria e a restauração nunca passaram por momentos tão difíceis como agora neste momento”, chegando mesmo a afirmar que “os próximos dois ou três meses serão muito maus”, sendo esta apenas “a ponta do icebergue”, conforme descreve.
Apesar de o sindicato representar apenas os associados que mantêm actividade no Grupo Oriental, Pedro Cabral vai mais longe ao referir que a situação nas restantes sete ilhas do arquipélago “será ainda pior”, já que estas “irão naturalmente sofrer mais do que a ilha de São Miguel, por exemplo”.
Isto é, “por serem ilhas mais pequenas, com menos população e por certas ilhas estarem já preparadas para a época alta que estava a chegar, e também pelo facto de todos termos sido apanhados de surpresa com isto, normalmente, são os mais pequenos que sofrem mais quando há pontos negativos”, explica o sindicalista.

Pagamento de taxas municipais 
“fora de questão”
Dado o cenário actual, outra hipótese que este sindicato colocará em cima da mesa está relacionada com a cessação do pagamento de taxas turísticas em todos os municípios da ilha de São Miguel, aspecto este que ficou decidido no passado mês de Novembro, conforme anunciado pela Associação de Municípios da Ilha de São Miguel (ASISM).
“Penso que o pagamento da taxa turística está fora de questão porque o que se pretende agora é aumentar o turismo e para isso serão tomadas certas medidas e uma delas será esta, a retirada desta taxa. O que não quer dizer que mais tarde não venha a ser implementada, mas penso que numa fase inicial não faz muito sentido”, indica Pedro Cabral.
Neste sentido, esta é uma proposta que irá ser feita, refere o sindicalista, salientando que embora esta possa não ser a opinião dos restantes sindicatos ligados ao sector, acaba “também por ser a opinião das empresas e não faz sentido, pelo menos para já, implementar esta taxa”.
No que diz respeito ao crescimento que poderá existir no sector do turismo nos Açores, Pedro Cabral adianta que este, naquela que é a perspectiva do sindicato, deverá ocorrer de forma gradual nas ilhas de São Miguel e de Santa Maria, embora “nunca seja como no ano anterior, nem tão pouco, mas gradualmente irá aumentar o turismo nestas duas ilhas”, embora não coloque de parte a certeza de “existir muitos despedimentos e muita precariedade” até ao início do próximo ano.
“Pensamos que só a partir de 2021 as pessoas voltarão a sentir confiança para viajar, e apesar de uma melhoria que poderá surgir dentro de dois ou três meses, em termos comparativos nada será como no ano passado”, diz.
Até lá, refere, a evolução do turismo e o crescimento da economia em todas as ilhas dos Açores irá, “nesta fase inicial”, depender muito “do consumo e do produto interno, uma vez que as viagens, neste momento, ainda não estão em vigor e por isso vamos depender muito do consumo interno dos nossos habitantes”, adianta.
No que diz respeito a novos investimentos, Pedro Cabral adianta que, tendo em conta o estado da economia, “tudo o que será investimento virado para a área do turismo poderá ficar em standby”, salientando que esta é a sua opinião pessoal e não a opinião formalizada pelo Sindicato dos Profissionais dos Transportes, Turismo e Outros Serviços de São Miguel e Santa Maria.
No entanto, afirma que – por vezes – os tempos de crise podem também proporcionar “grandes ideias e grandes negócios, porque há sempre um lado positivo” na crise.
Ao nível dos transportes, o representante do sindicato refere que as principais dificuldades têm ocorrido no que diz respeito à implementação de regras de distanciamento, sobretudo pela parte da população que, “muitas vezes, não respeitam as ordens dos próprios condutores”.
Nesse sentido, para melhorar este aspecto, seria necessário que as “empresas colocassem mais funcionários para que essas próprias regras sejam impostas, o que naturalmente implica mais gastos, mais mão-de-obra, mais horas de trabalho e não sei se as empresas neste momento têm possibilidade para isso, mas as regras têm que ser impostas”, salientou.


                                      

Print

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima