Associação Agrícola ao lado da produção não apoia manifestação junto da UNILEITE

 O Presidente da Associação Agrícola de São Miguel, reafirmou ontem ao Correio dos Açores que a descida do preço do leite decidida pela UNILEITE “está a gerar uma situação dramática nos lavradores seus associados” e poderá “arrastar” as outras indústrias para uma descida no preço do leite.
Jorge Rita discorda, igualmente, da forma como a actual Direcção da UNILEITE decidiu baixar o preço do leite, entendendo que deveria ter encontrado uma forma de ouvir e discutir com os seus produtores as razões que estiveram na base da descida do preço, embora compreenda que não se pudesse fazer uma Assembleia Geral nos moldes tradicionais devido à situação provocada pela pandemia da Covid-19.
Neste contexto, o Presidente da Associação Agrícola de São Miguel diz que compreende as razões que levaram um grupo de lavradores, associados da UNILEITE, a manifestarem-se contra a descida do preço do leite e a forma como foi feita.
Contudo, dizendo que as pessoas “são livres de se manifestarem”, realçou que, enquanto Presidente da Associação Agrícola de São Miguel e da Federação Agrícola, “ninguém me arrastará para uma manifestação contra a fábrica da produção”.
“Não estou a dizer que as pessoas não devam manifestar-se. Agora, eu como presidente da Federação Agrícola é que não promovo nem vou fazer manifestações contra a UNILEITE”, afirmou. 
E quando inquirido sobre se não receava que o criticassem por estar contra a manifestação, Jorge Rita emendou de imediato o jornalista: “Não disse que estava contra a manifestação. Que fique bem claro, eu não estou contra a manifestação. Eu não vou é dar a cara ou apoiar a manifestação, o que é uma situação totalmente diferente”.
“As pessoas têm o direito de manifestar a sua indignação. Agora, eu, como Presidente da Associação Agrícola de São Miguel, não posso é apoiar um grupo de lavradores que foi fazer uma manifestação contra a Direcção da UNILEITE porque entendo que não faz qualquer tipo de sentido. Na nossa opinião, independentemente de se gostar mais ou menos das pessoas e estar de acordo ou não com elas, é fundamental promover o diálogo. E se alguém tem manifestado o desacordo contra algumas posições da UNILEITE, ninguém até hoje o fez mais do que o Presidente da Associação Agrícola de São Miguel. Mesmo ninguém, e se há alguém que me aponte, quando e onde”.
“Eu sou aquele”, prosseguiu Jorge Rita, que “mais tem demonstrado o desagrado com algumas posições. Mas obviamente que isto também não me dá azo a que o Presidente da Associação vá apoiar manifestações contra a Direcção da UNILEITE porque isto é dividir ainda mais a lavoura que, neste momento, está a viver momentos difíceis e o que precisamos é de união, independentemente de algumas pessoas entenderem ou não manifestar-se”.
Aliás, completou Jorge Rita, “toda a gente conhece como foram feitas manifestações no passado. Fazer manifestações para fazer de conta nunca contem com o Jorge Rita. Já surgiu em assembleias gerais da Associação Agrícola de São Miguel a possibilidade de fazermos manifestação e estas propostas foram sempre reprovadas”.
Agora, face às actuais circunstâncias, “numa Assembleia Geral que a Associação Agrícola de São Miguel faça , e se for aprovado pela grande maioria dos nossos associados, que é preciso fazer uma manifestação, claro que o Jorge Rita vai estar na primeira linha da frente como já o demonstrei quando se viviam outras situações até mais complicadas que esta”.

“Devemos obrigá-los 
a sentar à mesa…”

Nas suas declarações ao Correio dos Açores, o Presidente da Associação Agrícola de São Miguel começou por considerar que a situação que se está a viver na UNILEITE “não está devidamente esclarecida nem nós sabemos, já há alguns anos a esta parte, absolutamente nada em relação à gestão da UNILEITE. Nunca nos foi comunicado se a UNILEITE está bem ou se está mal. Só sabemos se estão numa situação melhor ou pior pelas contas que são públicas. E, ultimamente, pelas comunicações da Direcção da UNILEITE, o que todos sabem é que a situação financeira é complicada e difícil”. 
Agora, a baixa do preço do leite para os lavradores, “é uma situação dramática. Quem é produtor e sente na pele uma baixa de preço com esta dimensão, obviamente que não pode ficar satisfeito. Ninguém pode ficar satisfeito e indiferente a uma situação destas. O ano passado já houve uma descida do preço do leite e este ano mais uma descida. E a UNILEITE está já a arrastar as outras indústrias para que descem também o preço do leite”.
“Esta é uma situação muito complexa para os produtores. Não estávamos habituados, nos últimos anos, a que a UNILEITE tivesse este tipo de comportamento. Ora, o comportamento da UNILEITE, durante muitos anos, foi a de liderar a baixa do preço do leite. E, agora, não sabemos as razões que levam a ser a primeira indústria a baixar o preço do leite. Isto não tem a ver só com a situação do mercado. Uma situação é a do mercado e a outra é a da situação económica da UNILEITE que nós não conhecemos e que nunca nos foi explicada”, palavras de Jorge Rita. 
Os produtores têm razões para estar insatisfeitos. Fizeram uma manifestação à volta desta situação dramática que todos nós estamos a viver. Em o direito a fazê-lo. Agora, insisto, eu, como Presidente da Associação Agrícola de São Miguel e Presidente da Federação, não vou apoiar nenhuma manifestação contra uma indústria que é da produção. Isto é óbvio. Ninguém me vai arrastar para uma manifestação que é contra a indústria da própria produção de leite. Isto não faz qualquer tipo de sentido. Devemos dialogar, devemos discutir, obrigá-los a sentar à mesa, obrigá-los a fazer assembleias-gerais, tudo o que for possível, mas não fazer manifestações”.
“O que eu defendo”, disse Jorge Rita, “é que a Direcção da UNILEITE devia ser, de há muito tempo a esta parte, mais transparente. A situação actual é a que se vive. A situação, nos últimos tempos, foi a de que  a UNILEITE deixou de discutir com as associações o preço do leite. E só anunciava subidas ou descidas do preço do leite aos seus cooperantes, exclusivamente, só aos seus produtores”. 
“Quer a Associação Agrícola de São Miguel, quer a Associação de Jovens Agricultores deixaram de ter assento naquilo que era a decisão da UNILEITE. Foi assim nos últimos anos e foi assim neste momento”, completou.
“Agora, o que eu entendo é que se este é que era o procedimento, é este que tem de ser o procedimento. Mas há aqui uma situação anormal que é a situação do Covid que não permite que as pessoas reúnam. Ora, mesmo que não se fizesse uma Assembleia Geral, havia outras formas de comunicar com os cooperantes e com os produtores. Se isto foi feito ou não, não sei. Não sou produtor da UNILEITE”, considerou. 
“Que fique bem claro e ninguém tenha dúvidas que estou sempre do lado da produção porque os produtores de leite é que estão a sentir na pele o acumular dos anos que levou à situação dramática que estão a viver.
“As indústrias, quando houve uma situação de subida de preço, não acompanharam os mercados internacionais. Isto deixou até a lavoura descapitalizada. Agora, percebo a reacção dos produtores nesta matéria mas a questão da manifestação diz respeito exclusivamente aos sócios e cooperantes da UNILEITE”, concluiu.

As razões da manifestação

A manifestação contra a baixa do preço do leite e a forma como a Direcção da União de Cooperativa o fez está na base da manifestação que reuniu cerca de 100 lavradores em frente às instalações da UNILEITE.
Agentes da PSP tiveram que intervir para manter os manifestantes às distâncias necessárias e, pelo que disseram alguns dos presentes, esta intervenção policial “decorreu de forma simpática”.
A Direcção da UNILEITE recusou-se em ir dialogar com os manifestantes e, como alternativa, propôs que cinco dos manifestantes entrassem para serem recebidos com a Direcção, o que não foi aceite.
Alguns dos manifestantes admitiram a possibilidade de invadir as instalações da UNILEITE mas os agentes da PSP presentes não permitiram, acabando todos por se entender ordeiramente.
 Como disse um dos manifestantes, a UNILEITE “é o cérebro da fileira do leite nos Açores. E a actual direcção da União de Cooperativas “já devia ter feito uma auditoria para se saber o que se passou. Andam-se a encobrir. Foi feito tudo de porta fechada”, referiu.
“A UNILEITE tem de ser analisada e se ver a causa da actual situação. Temos de apurar responsabilidades. Vamos a caminho de uma falência técnica. Que disparate é esse?”, questionou.
Um dos promotores da manifestação,  Américo Oliveira, acusou a direcção da UNILEITE de “falta de inteligência e de falta de capacidade de diálogo com os lavradores”, tendo optado por uma descida do preço do leite sem comunicação aos delegados, cooperativas e associados. 
“A nossa revolta foi a descida do leite sem se ter tomado decisões com os cooperantes”, afirmou.
“Há lavradores que estão a perder 1.45 cêntimos e outros a perder dois cêntimos. E aqueles que têm frio e vão todos os dias buscar o leite, a descida vai passar no final do ano para 2.45 cêntimos. No fundo, querem que os lavradores descarreguem o leite de dois em dois dias e quem não o fizer, vai ser penalizado em 50 cêntimos”.
Com o preço do leite da maneira que está, eles acabam por afundar a lavoura”, afirmou Américo Oliveira.
“A gestão da UNILEITE nos últimos tempos, tem sido um desastre”, concluiu. 
                                                     

Print
Autor: João Paz

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima