Segundo psicólogas do Centro de Desenvolvimento Infanto-Juvenil dos Açores

Problemas emocionais são mais evidentes devido ao isolamento social nos Açores

 Face a todas as imposições que decorreram durante o estado de emergência, obrigando famílias a permanecerem afastadas e outras a unirem-se mais do que nunca, desde cedo que se começaram a discutir os impactos físicos mas, sobretudo, psicológicos que estas alterações viriam a ter tanto nos adultos como nas crianças.
Conforme explica Vanessa Pereira, psicóloga no Centro de Desenvolvimento Infanto-Juvenil dos Açores (CDIJA),“o sentimento de privação de liberdade acaba por ter um papel muito avassalador na vida das pessoas, associado ainda a essa grande mudança na rotina e na manutenção das relações sociais”, tendo também “um grande impacto na saúde das pessoas”.
Assim sendo, e de acordo com aquelas que têm vindo a ser as reuniões que existem entre as psicólogas e os pais ou cuidadores, “sejam avós ou tios”, é que “ao existir alguma vulnerabilidade psicológica antes do surto, esta torna-se ainda mais evidente nesta altura”, tornando assim mais saliente os casos onde há ansiedade e depressão, sem esquecer as perturbações mentais que também aumentam neste período.
Isto porque, apesar de ser possível fazer videochamadas com a família ou com amigos, há uma parte do convívio que ficou impossível de concretizar, nomeadamente o afecto e o contacto físico, que passaram a existir “apenas dentro da própria família que está confinada num espaço e por demasiado tempo”, salientou.
“Acreditamos que quanto maior for o tempo de privação de liberdade e de manutenção das relações sociais, maior poderá ser também o impacto que o isolamento poderá ter na saúde mental das pessoas, até porque poderá haver um maior número de perturbações emocionais.
Também não nos podemos esquecer de que há pessoas que são mais vulneráveis do que outras, então pessoas com uma maior vulnerabilidade psicológica e com perturbações mentais poderão ser mais afectadas por este isolamento”, explica ainda.
Por outro lado, acrescentar filhos a esta situação significa também aumentar o nível de responsabilidade necessária ao longo dos últimos meses, uma vez que o isolamento tem vindo a ser “um desafio bastante grande para quem tem filhos”, indica Kelly Soares, psicóloga no CDIJA.
Para além dos desafios inerentes à parentalidade, acresce que “cada criança é uma criança, e como tal cada uma lida de forma diferente com determinadas situações, com a sua própria frustração, com as regras”. 
Por outro lado, também os pais ou os encarregados de educação “têm dias em que se sentem mais cansados, mais irritados e menos pacientes”, acabando assim por ter menos capacidade para “encontrar o equilíbrio nas práticas parentais”.
Assim, em tempos de maior vulnerabilidade, conforme explicam as psicólogas, as próprias práticas parentais “chegam muitas vezes a ser incoerentes”, e é aqui que reside um dos maiores desafios das famílias com crianças, porque há “reflexões constantes” que têm que ser feitas e “um auto-conhecimento” que deve existir para promover relações saudáveis entre pais e filhos.
No entanto, entre os factores que vêm a dificultar esta ligação mais coerente entre pais e filhos, estão aspectos como o teletrabalho e a telescola, que obrigam a que os pais dividam a atenção que dão aos filhos com aquelas que são as suas obrigações diárias, e que se desdobram entre o apoio à educação das crianças e, também, à exigência do trabalho.
Por outro lado, com a questão da telescola surgem também outros problemas relacionados com a índole tecnológica, uma vez que, “existem ainda pessoas que não têm tanta facilidade em plataformas online”, o que por si só dificulta o acompanhamento de que necessitam as crianças, visto que os próprios pais estão em maior stress, diz Kelly Soares.
“Há ainda quem não tenha internet ou computador para aceder a essas plataformas, porque muitos têm apenas o telemóvel ou os dados móveis para fazer esses acessos, e quando começou a telescola este foi um dos aspectos que os pais mais partilharam e em relação ao qual se mostraram mais ansiosos e preocupados”, salienta.
Ainda no que à parentalidade diz respeito, entre as principais dificuldades que têm sido encontradas pelos pais, ao longo deste período de confinamento que obrigou a que milhares de famílias permanecessem juntas, no mesmo espaço, 24 horas por dia e sete dias por semana, estão ainda as dificuldades em gerir o tempo, a dificuldade em manter o auto-controlo e também no manter certas rotinas básicas do quotidiano, relacionadas com o horário das refeições, por exemplo.
Por outro lado, também a gestão do comportamento dos filhos e a colocação de regras aos mesmos tem vindo a ser apresentado como um dos grandes desafios estendidos às famílias durante as reuniões entre pais e cuidadores e os elementos da equipa do Centro de Desenvolvimento Infanto-Juvenil dos Açores.
Estas dificuldades, conforme explicam Kelly Soares e Vanessa Pereira, eram já sentidas no período anterior ao confinamento e ao isolamento social, mas devido a estes mesmos factores “acabaram por ser muito mais sentidas”, levando a que as famílias se tivessem visto obrigadas a “redescobrir novas formas de se relacionar, de conviver e de se auto-regular”, o que de acordo com as próprias tem vindo a ser “uma descoberta quer pelos pais, quer pelos próprios filhos”.
Em acréscimo, comportamentos que antes poderiam ser contornados com passeios, actividades diversas ou com visitas a familiares foram interrompidos durante dois meses, deixando os pais sem tempo para descontrair como antes poderia acontecer e os filhos a revelarem comportamentos que, até então, eram desconhecidos.
Por esse motivo, adiantam as psicólogas, o alívio das medidas de restrição impostas pelos planos de contingência que vigoraram durante o estado de emergência “também acabam por permitir que os pais sintam eles próprios algum alívio”, depois de vários meses com diferentes medidas de segurança necessárias.
“Não nos podemos esquecer que nestes últimos meses houve inúmeras mudanças imprevisíveis e que os pais tiveram que se adaptar. Durante o mês de Março foi a aceitação do desconhecido, durante o mês de Abril adaptação e ajuste da família a esta situação e durante o mês de Maio, provavelmente, alguns pais já vão recomeçar a trabalhar e já há aqui uma nova mudança”, explicam as psicólogas.
Contudo, os problemas ao nível familiar não surgem apenas entre pais e filhos, chegando também a afectar os casais, uma vez que também a dinâmica que existia antes da pandemia em muitos casos foi também alterada com as novas imposições, incluindo medidas mais extremas como o lay-off, ou mesmo os despedimentos, que trouxeram alguma tensão às relações.
“Não é só na relação com os filhos que surge alguma tensão, mas também na relação enquanto casal. Nesta altura há muitas pessoas  que estão em lay-off, por exemplo, há casais que estão desencontrados e há famílias que antes tinham uma vida estável e relativamente equilibrada e que, neste momento, esta imprevisibilidade em relação ao dia de amanhã pode criar alguns conflitos”, explicam ainda.
Já as crianças, apesar de terem que lidar com alguns dos problemas com que lidam também os adultos, “reagem ao stress de maneiras diferentes. Por exemplo, podem fazer mais birras, podem ficar mais ansiosas e mais dependentes”, sendo este o reflexo do “medo” que sentem face a esta “ameaça”.
“É natural que todos nós sintamos esse medo e as crianças reagem de acordo com o comportamento dos pais. É como se fosse um espelho, se os pais estão mais ansiosos, mais irritados e mais preocupados, as respostas das crianças também não vão ser diferentes, também elas vão sentir isso”.
O que pode acontecer, e nós temos sentido isso, é existir uma maior dificuldade dos pais em entender as necessidades e as vontades dos filhos por não conseguirem compreender determinados comportamentos”, explica Kelly Soares. 
                                           

CDIJA cria plataforma 
para incentivar parentalidade positiva

 Entretanto, para fazer face a todos estes desafios experienciados pelas famílias nos últimos dois meses e não só, as psicólogas do CDIJA comprometem-se a, a partir da próxima semana, acompanhar mais de perto os pais e cuidadores que necessitarem de um acompanhamento mais próximo.
Isto é, a partir da próxima semana, será possível encontrar no Facebook um novo grupo privado, intitulado “Quando a sirene toca, a parentalidade no seu limite”, que tem como objectivo chegar “ao maior número de pais possível” e funcionar como “um espaço de partilha de estratégias, dicas, trocas de experiências e de conhecimentos”, todos eles baseados nos princípios da parentalidade positiva.
Prevê-se ainda que, à medida que a página for crescendo e que se torne mais óbvio quais as grandes dificuldades dos seus participantes, que haja também espaço para trazer alguns convidados para a página, de modo a que estes deixem orientações ou partilhem experiências e estratégias mediante os problemas existentes. 
A ideia, conforme explicam Kelly Soares e Vanessa Pereira, é através “do dinamismo, da interacção e do humor” conseguir que este grupo “permita alguma descontração para abordar temas que possam suscitar maior preocupação aos pais”, ao mesmo tempo que desmistificam esses receios.
“Se os pais falarem abertamente sobre tudo o que estão a sentir, é muito mais fácil também para nós psicólogas podermos dar ferramentas a esses pais para que eles também no seu dia-a-dia possam aplicar com os filhos e até com eles próprios, porque estas não são apenas estratégias para lidar com os filhos mas também para lidarem com as suas próprias emoções”, dizem as psicólogas especialistas em desenvolvimento infantil.
Isto é, os comportamentos dos filhos acabam por ser um espelho daquilo que lhes é reflectido pelos pais, e por isso é muito importante que os pais sejam capazes de compreender as suas emoções e comportamentos para que possam, assim, compreender e ajudar os seus próprios filhos.
“Para eu compreender o comportamento do meu filho eu tenho também que compreender as minhas emoções e os meus comportamentos. Se falar alto, gritar e mostrar irritabilidade o meu filho também irá mostrar (…), por isso se eu conseguir gerir isso a minha abordagem com a criança vai ser diferente, e este é um espaço onde os pais também poderão sentir algum apoio”, explica Kelly Soares.
Apesar de o nome do grupo poder indicar pânico ou sinais de alerta, o propósito deste grupo é o de acalmar o “estado de emergência” de algumas relações parentais, e “promover uma parentalidade mais positiva neste tempoque estamos a atravessar actualmente”.
Já no que diz respeito aos participantes do grupo, Vanessa Pereira e Kelly Soares adiantam que estes serãopais e cuidadoresde crianças com idades compreendidas entre os três e os dez anos de idade, onde se irá sobretudo procurar “promover uma relação saudável baseada em respeito mútuo”, conforme se prevê no conceito de parentalidade positiva.
“Existindo esse respeito temos uma ligação mais construtiva e mais equilibrada. As crianças são seres vulneráveis e em crescimento, necessitam de muito apoio e de orientação por parte dos pais, principalmente neste contexto actual. 
Por isso precisamos de pais cada vez mais capazes para que as crianças também o possam ser, e assim pais felizes resultam em crianças felizes”, concluem as psicólogas que estarão à frente deste novo projecto do CDIJA.
                          

Print

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima