Padre Hélio Soares, Pároco de São Vicente e Capelas

“Temos de alimentar a esperança e a solidariedade nas comunidades”

Nesta entrevista, confessa-se ansioso pelo levantamento da suspensão das missas, porque diz “é muito triste celebrar sem a comunidade ou somente com uma ou duas pessoas”.
Também comenta que, seguindo as orientações previstas, choca-lhe ter de celebrar cerimónias fúnebres “com dois ou três familiares. Sem abraços de consolo e numa frieza que a chuva acentua, em alguns casos”.
Questionado se a fé dos homens está a ser testada, confere que “todas as crises são momentos de crescimento”, 
Hélio Nuno Santos Soares, de 35 anos de idade é natural da ilha de São Jorge e é o Pároco de São Vicente e Capelas.

Ansioso pelo levantamento da suspensão das missas?
“Sem dúvida, é muito triste celebrar sem a comunidade ou somente com uma ou duas pessoas”.

Como tem convivido com esta situação de Pandemia?
“Tenho-me habituado à situação. Com muito recato social. Tento manter a minha rotina diária, com os respectivos horários para não cair no comodismo, entre a vida espiritual, as aulas, as leituras e o cuidado do quintal. Sobretudo, tenho exercido o ministério da escuta a muitas pessoas que telefonam para mim ou por iniciativa pessoal”.

Missas sem fiéis. Também aderiu às tecnologias para transmitir a palavra do Senhor?
“Sim, mas de forma comedida. Transmitimos na Semana Santa e no Domingo do Bom Pastor, que correspondeu ao Dia da Mãe. Penso que é um tempo de introspecção e reflexão. Não há necessidade de demasiada oferta de celebrações Online, porque gera confusão e dispersão espiritual. Há que haver condições técnicas e algum decoro litúrgico, pois a Eucaristia é alimento espiritual para os cristãos, porque actualiza a presença de Jesus na sociedade. Não é uma mera oração”.

Funerais com limitação de pessoas. São tempos difíceis, até nestas cerimónias. Tempos nunca vistos. Quer comentar?
“Neste período de confinamento ocorreram vários funerais. Segui as orientações previstas. Perante alguma situação irregular face ao estabelecido, usei de pedagogia e sensibilização, porque são momentos difíceis para as famílias e amigos. Chocou-me celebrar com dois ou três familiares. Sem abraços de consolo e numa frieza que a chuva acentua, em alguns casos”.

As Festas do Senhor Santo Cristo não realizam este ano. Foi a primeira vez que tal aconteceu?
“Não tenho conhecimento suficiente para confirmar. Segundo o que tenho investigado nos arquivos, sobretudo em jornais, houve outras excepções, umas mais conhecidas do que outras. Devido a uma seca prolongada, no dia 20 de Julho de 1890, realizou-se uma procissão para pedir chuva. No Verão de 1901, o Rei D. Carlos e a Rainha D. Amélia visitaram os Açores, as festas decorrem em Julho desse ano. Em 1919, devido à copiosa chuva, a procissão reduziu-se ao Campo de São Francisco. Nos pós II Guerra Mundial, no Domingo 2 de Junho, a Imagem saiu para dar cumprimento a um voto particular. Do conhecimento geral, a 11 de Maio de 1991, João Paulo II visitou os Açores e ajoelhou-se diante da Imagem do Ecce Homo”.

Sente a população mais esperançada ou nem por isso?
“Sinto que há vários sentimentos: esperança, medo, incerteza, desvalorização. Mas, estejamos cientes que esta é uma situação que irá prolongar-se. Contudo, temos de alimentar a esperança e a solidariedade nas comunidades”.

Devemos estar à porta de uma nova crise. A igreja está preparada para ajudar naquilo que for preciso?
“A Igreja está sempre preparada para ajudar. Falar de Igreja é falar de pessoas. Cada cristão é uma resposta, em ambientes sociais e lugares concretos. Ao nível institucional há muitas respostas sociais e parcerias. As paróquias podem estar organizadas ou não, conforme as suas capacidades. No meu entender, a melhor ajuda de uma paróquia é espiritual, as situações de ordem material devem ser reencaminhadas e acompanhadas. Podemos necessitar de ajuda para encontrar o sentido no que está a acontecer. Uma conversa pode ajudar a encontrar o bem de cada situação ou a luz que não reconhecemos ao olhar à nossa volta. Os meios digitais ou um telefonema são meios para contornar a impossibilidade da presença física. Tenho essa experiência nestas semanas”.

Devemos pensar que em tempos de Covid-19, a fé dos homens está a ser testada?
“Todas as crises são momentos de crescimento. É compreensível que nos sintamos desanimados e até frustrados com os sacrifícios que nos são pedidos, tal como os discípulos se sentiram naqueles cinquenta dias até serem fortalecidos com o dom do Espírito, e ganharem forças para sair do Cenáculo e anunciar a todos os povos as maravilhas de Deus. Saibamos aproveitar este momento extraordinário para crescermos na qualidade da nossa fé. Há pessoas que poderão ficar pelo caminho, outras vão avançar”.

Como serão as missas no futuro. Com menos gente?
“Sinceramente, não sei. Atravessamos um tempo diferente de todos os outros que já vivemos. Será mais um desafio.

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