Sector quer medidas governamentais adequadas

Transportes públicos colectivos de São Miguel com quebras de receitas e passageiros de mais de 90% e sem apoios públicos

 O confinamento social fez com que houvesse menos população a circular seja em carros particulares seja nos transportes colectivos de passageiros. Uma redução que as empresas de transportes colectivos de passageiros inevitavelmente sentiram e que acompanham também as receitas. Apesar de terem recorrido ao lay-off, as empresas reivindicam apoios específicos para o sector que sofreu grandes quebras. 
Como o caso da Varela & Companhia, Lda, que de acordo com o gerente Luís Simas, registou uma  diminuição imediata do número de passageiros nos meses de Março e Abril. “Neste espaço temporal, o número de passageiros decresceu cerca de 90%. Para além disso, os alugueres turísticos foram todos cancelados estando sem qualquer facturação desde Fevereiro”, afirma. As receitas acompanharam o decréscimo de passageiros. E todas as rotas, de uma forma generalizada, “sofreram um drástico decréscimo de utentes. A título exemplificativo existiram carreiras que, em determinados dias, na totalidade do seu trajecto, não transportaram qualquer passageiro”, refere Luís Simas. 
Desta forma a empresa teve de recorrer “infelizmente” ao lay-off parcial no dia 15 de Abril ,esperando que, à medida que ocorra o desconfinamento, possa voltar à “normalidade” possível. Mas Luís Simas diz que as medidas que têm sido anunciadas pelo Governo Regional para ajudar as empresas em dificuldades, “nem sempre têm tido em consideração a importância do transporte terrestre público de passageiros numa Região como a nossa”. Alertando que a maioria dos operadores há muito que vêm sensibilizando as entidades oficiais para a situação que caracteriza esta actividade, “com a crise que estamos a viver voltamos novamente a alertar e a pedir apoios para o sector. Ainda não perdemos a esperança!”, desabafa. O gerente da Varela reconhece que o lay-off permite atenuar os custos com pessoal, mas a questão não é apenas de emprego. “Trata-se da sustentabilidade de um sector que está posta em causa”, alerta.
Relativamente a outras medidas, a actividade “não foi contemplada certamente por omissão. Se a situação, conforme referimos, já era pouco sustentável certamente imaginará como se encontra neste momento em que os passageiros desapareceram e continuamos a manter o serviço (embora mais reduzido) praticamente com os mesmos custos. Um autocarro que antes da pandemia, transportava por exemplo, 53 passageiro com os mesmos custos anda agora com um decréscimo de ocupação e com a condicionante de não ultrapassar os dois terços da sua lotação. Os alugueres, especialmente os ligados ao turismo, eram o “oxigénio” que ajudava os operadores a suprir as dificuldades sentidas nos transportes públicos, mas, infelizmente, também esse serviço desapareceu e não se vislumbra, a prazo, a sua retoma”, afirma.
E as exigências para que se contenha o contágio aumentaram. A empresa teve de preparar o seu Plano de Contingência, em que a todos os colaboradores foi dado conhecimento dos procedimentos que deverão aplicar para a sua protecção individual e de terceiros, bem como a abordagem aos clientes e as normas a cumprir pelos fornecedores nas instalações. “Foram dados os equipamentos de protecção individual e divulgadas, através de diversos suportes, as regras a observar em termos de etiqueta respiratória, de convivência social e de evidência de caso suspeito. Existe um responsável local contactável 24h/dia que, em articulação com os serviços de centrais de segurança e medicina do trabalho, procede aos esclarecimentos em caso de necessidade. Não menos relevante, foi reforçada a limpeza, higienização e desinfecção diária de todos os autocarros”, esclarece Luís Simas.
No entanto, a empresa Varela não verificou resistência de qualquer espécie por parte dos utilizadores dos transportes. “Todos nós nos adaptamos a viver com esta pandemia. Trata-se de uma aprendizagem quase diária, moldando comportamentos, quando necessário, e em função das orientações emanadas pela Autoridade Regional de Saúde (ARS). O comportamento tem sido exemplar e, felizmente, ainda não tivemos qualquer caso suspeito mesmo tendo em conta o serviço público de transporte terrestre e os riscos que o mesmo representa. Sinal de que as regras foram assimiladas e estão a ser cumpridas por todos”.
Mas agora vem outra parte, a preparação para o desconfinamento e para isso a empresa já está preparada também. “Temos motoristas e frota para prestar o serviço de transporte de passageiros como temos vindo a prestar ao longo da nossa existência. Apesar dos constrangimentos financeiros com que nos temos vindo a deparar prestaremos o serviço nos termos que forem indicados quer pela Secretaria Regional dos Transportes e Obras Públicas quer pela ARS e tudo faremos para dar a resposta adequada à procura. É essencial que os nossos clientes cumpram com o seu dever no que respeita à sua segurança e de terceiros para que, em conjunto, consigamos preservar a saúde pública” e essas medidas também serão as mesas a adoptar para a reabertura das aulas presenciais.

Caetano, Raposo & Pereiras
Na empresa Caetano, Raposo & Pereiras a situação é similar. Patrícia Oliveira descreve que o Plano de Contingência da empresa permitiu adoptar as medidas emanadas pela Direcção Regional da Saúde, nomeadamente, “foram afixadas informações com as recomendações para todos os funcionários e público em geral, foram também distribuídos kits contendo luvas, álcool 96%, gel e máscaras / viseiras aos funcionários, reforçada as medidas de higienização e desinfecção dos autocarros. Foi ainda criada uma sala de isolamento para onde poderão ser encaminhados funcionários com sintomas de Covid-19”.
No início, refere a responsável da empresa, houve alguma resistência por parte dos passageiros “em acatar as medidas que tiveram que ser tomadas, mas com o decorrer dos dias começaram a compreender que era para o bem de todos que as estávamos a tomar” e a convivência tornou-se mais tranquila.
Para a reabertura da economia, a Caetano, Raposo & Pereiras aguarda “orientações do Serviço Coordenador dos Transportes”, até mesmo quanto aos procedimentos quando reabrirem as escolas. “A única informação que temos é que a partir de 25 de Maio as escolas irão funcionar para os 11º e 12º anos. Estamos a aguardar pelas medidas que nos serão emanadas pelo Serviço Coordenador de Transportes”, afirma Patrícia Oliveira.
As quebras da empresa também foram “bastante significativas”, cerca de 90% assim como as quebras de receitas. Quebras acentuadas em todas as rotas que obrigaram a que se recorresse ao lay-off. “Devido à redução de carreiras diárias (por falta de passageiros), passamos a fazer de 2ª a 6ª feira o horário de Sábado, as escolas fecharam todas a 13/03/2020 e o turismo simplesmente parou”, explica a empresa.
As medidas de apoio anunciadas pelo Governo regional deverão atenuar um pouco os prejuízos causados por esta pandemia, mas no sector dos transportes colectivos de passageiros talvez não seja possível. A Caetano, Raposo & Pereiras diz que contava recorrer ao apoio a fundo perdido “que seria dado as empresas caso não tivessem recorrido às linhas de crédito nacionais, só que o nosso CAE (Classificação das Actividades Económicas) não consta da lista das empresas a serem apoiadas. Se nos fosse permitido a candidatura, e tendo por base o valor máximo de apoio a ser concedido, não seriam suficientes, mas ajudariam e muito a ultrapassar esta fase difícil que vivemos. Não sendo possível …”, deixa em aberto as possibilidades de futuro. 

Auto Viação Micaelense
A empresa Auto Viação Micaelense, que entende que se a Classificação das Actividades Económicas “estivesse integrada no Regulamento da medida extraordinária de apoio à manutenção do emprego para antecipação de liquidez nas empresas no mês de Abril de 2020 e dependendo no valor do apoio, poderia existir algum interesse” em recorrer a esta medida. Mas, afirma Samuel Mendonça Director do Departamento de Transportes
Auto Viação Micaelense, Lda,  dadas as circunstâncias actuais, “não é possível prever o futuro próximo. No entanto, contra nossa vontade própria e o desejável, estamos a trabalhar de uma forma muito limitada de recursos, o que nos preocupa em termos de manutenção dos postos de trabalho e de sustentabilidade do sector”. 
A empresa também teve de recorrer ao lay-off em virtude da redução de frequência e horários dos transportes regulares e colectivos de passageiros imposta pelo Governo Regional do Açores, bem como pelo encerramento dos estabelecimentos de ensino e a ausência de serviços ocasionais.
As quebras foram, por isso, na ordem dos 90%, “o que claramente fragilizou o sector e a sua própria sustentabilidade”. As quebras foram visíveis em todas as rotas e as receitas similares às quebras de utentes.
A eresa admite que teve de se adaptar às novas exigências, que encontraram alguma resistência por parte dos utentes nos primeiros dias, mas que depois foram ultrapassadas. De acordo com Samuel Mendonça, a empresa seguiu as directrizes da Direcção Regional da Saúde e disponibilizaram suportes informativos e operacionais; aquisição e disponibilização soluções desinfectantes de base alcoólica, tendo em conta os locais e postos de trabalho de maior risco; análise dos planos de higienização, reforçando a frequência das acções de higienização das áreas, zonas e dispositivos de contacto comuns; bem como a verificação da eficácia dos produtos de limpeza em uso relativamente às características do novo agente biológico. Além disso, houve necessidade do uso de máscara de nível 2 conforme estipulado pela Autoridade de Saúde; e delimitadores acrílicos no ponto de venda.
Agora, quando já se fala na abertura da economia, a Auto Viação Micaelense também ainda aguarda mais instruções do Serviço Coordenador dos Transportes Terrestres para que se consiga adaptar, até para o transporte de mais crianças e jovens com a reabertura das aulas presenciais para o 11º e 12º anos. 
Até lá as quebras devem manter-se acentuadas e sem que as empresas dos transportes colectivos de passageiros possam aceder a medidas de apoio direccionadas para o sector que ajuda muitos nas deslocações diárias na ilha. 
                                                                                               

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Autor: CA

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