Marcelo Rebelo de Sousa admite que “a capacidade de diálogo foi testada” entre os Açores e a República no caso da não suspensão dos voos da TAP e de não testar os reclusos

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que tem falado ao país mas que não tem dado entrevistas, concedeu uma em particular à Rádio Montanha, feita no âmbito do programa Especial Informação Covid-19, uma iniciativa da Câmara Municipal das Lajes do Pico, que realiza o programa em parceria com estação de Rádio, e que foi posteriormente transcrita para o jornal “O Dever”, que se publica na ilha montanha. 
Na ocasião, o chefe de Estado justifica ter aceitado dar a entrevista, depois de estar em silêncio, para dizer que Portugal é o mesmo quando está perto ou longe, quando é rico ou não. Quis dizer que “acompanho esta aventura da pandemia no meio do oceano, onde há gente muito boa que está longe do pensamento de muita gente, mas que não está longe da minha cabeça, nem do meu coração (…) Esta participação é uma homenagem às Lajes do Pico, é uma homenagem ao Pico e à Região Autónoma dos Açores, porque estão sempre no meu coração. Recordo com muito carinho e com muita saudade a minha ida em Junho 2017 a esse território e espero e voltar mal passe a pandemia, mas primeiro, e antes de mais temos de vencê-la.”
Na entrevista conduzida por Cátia Goulart, Marcelo Rebelo de Sousa explica que neste tempo em que regressamos à vida em comunidade há consequências sociais e económicas: “Muitas famílias tiveram de alterar a sua forma de vida porque a economia diminuiu a sua actividade. No que concerne ao reforço de verbas, temos de ir a montante, temos de olhar para a União Europeia que terá de ser rápida a decidir, mas também terá de olhar para a diversidade dos seus estados membros, sendo uma das realidades a da situação ultra-periférica e da diversidade de recursos. As desigualdades que existiam agravam-se nesta fase de pandemia. Daí terá de ser repensado o orçamento, pois o documento aprovado foi elaborado para outra situação económica e social. Assim, é fundamental haver um orçamento rectificativo ou suplementar muito brevemente. A reconstrução que vai ser preciso fazer deve ser o mais justa e simétrica possível”.
Questionado se na definição de um plano de reconstrução, não deve a União Europeia ter uma atenção especial para as zonas ultra-periféricas, como as dos Açores e Madeira, é entendimento do Presidente da República que “a União Europeia tem aqui um papel fundamental porque desta vez não é uma crise apenas de um Estado ou de um número pequeno de Estados. Esta é uma crise mundial e europeia. As economias mais fortes também vão sofrer. Cada mês que passa e o dinheiro não chega às pessoas, aos municípios e aos Estados, é mais um mês difícil para as famílias que têm de pagar as suas prestações. Esta situação preocupa o Governo e a mim, e por isso, a reunião do Conselho Europeu de Junho tem de ser rápido e aprovar valores significativos de apoio. Esta abertura da economia é uma segunda fase do ganho de confiança dos portugueses nesta fase da pandemia que estamos a passar”.
No que respeita à saúde, com Cátia Goulart a sublinhar que há diferentes velocidades na prestação dos cuidados de saúde no país, e também nos Açores, utentes que merecem o mesmo tratamento que outros em lugares diferentes do país da União Europeia, o Presidente da República não se escusa à questão e refere: “O Sistema Nacional de Saúde é um problema nacional. É preciso investir nesse Sistema e na Saúde porque há estruturas insuficientes e com debilidades. Uma das lições desta pandemia, que ainda não terminou, é que a Saúde é fundamental. Não há economia, educação ou confiança sem saúde. Acompanhei de perto toda esta situação e foi possível conter o stress e a pressão sobre o Sistema de Saúde, mas temos a noção que o desafio não acabou e que os investimentos futuros são importantes. No Pico é necessário ter sempre presente a capacidade de resposta das estruturas de saúde. No Pico, havendo segurança e estruturas básicas como as de Saúde será um factor fundamental para haver investimento”. 
Já o Presidente da Câmara Municipal das Lajes do Pico, na mesma entrevista, coloca a questão de que houve dois constrangimentos muito complicados entre os Açores e a República que foram a não suspensão dos voos da TAP e a não testagem dos reclusos antes de serem libertados. Sabendo que estava em causa a saúde dos açorianos e nunca por nunca o sentimento de pertença a Portugal, como se explica aquelas decisões que foram interpretadas como sinais do centralismo de Lisboa e da falta de entendimento sobre o que é a Autonomia dos Açores? Marcelo Rebelo de Sousa sublinha de que, neste contexto, “entramos numa altura sensível. Os resultados das próximas semanas serão esperançosos devido ao confinamento e isolamento social a que os portugueses têm estado sujeitos. A hora da verdade surgirá após meados de Maio e Junho, designadamente após a passagem do teletrabalho para o trabalho presencial. Aí veremos como o convívio social afectará os números. A realidade açoriana foi sendo acompanhada por mim. Falei por várias vezes com o Presidente do Governo Regional dos Açores. Os regressos dos portugueses, mesmo para o território continental, foram sensíveis e foram feitos apelos para que evitassem regressar. Claro que percebo as vossas preocupações, porque sendo ilhas têm uma defesa natural geográfica. A ideia do Governo da República era manter uma continuidade territorial. Admito que a capacidade de diálogo foi testada, só que ninguém estava muito preparado para esta realidade. Foi-se fazendo caminho e foi-se aprendendo fazendo esse caminho”. 
Questionado ainda sobre como vê a decisão do Governo dos Açores sobre o adiamento no regresso dos estudantes universitários aos Açores, à sua ilha de residência, o Presidente da República lembra que “este ano é um ano especial. Ninguém gosta destas medidas, e o Governo Regional terá tomado estas medidas de coração contrito, mas o regresso dos estudantes poderia trazer problemas que se eles os imaginassem não os quereriam causar”.

Marcelo agradece à Igreja
No que respeita às celebrações religiosas do 13 de Maio em Fátima, que hoje se comemoram, o Presidente da República disse: “Desde já tenho de agradecer à Igreja Católica e todas as igrejas cristãs, e todas as confissões religiosas presentes no nosso país que cancelaram todas as práticas religiosas comunitárias até 31 de Maio. Eu sou católico e sinto falta dessas celebrações. Mas esses sacrifícios são feitos em nome de um direito maior que é o direito à vida e à saúde. (...) Mas as medidas sanitárias impostas nesta fase são muito importantes e não se coadunam com a ideia de peregrinação. Assim, esteve bem o Cardeal Patriarca de Lisboa, o Bispo de Leira-Fátima, o Senhor Reitor do Santuário de Fátima na tomada desta decisão para evitar consequências”. 
Mais, disse, que “este debate misturou-se com a questão do 1º de maio, muito embora sejam distintas. A primeira questão teve a ver com a dúvida sobre a celebração da data. Eu considerei que devia ser celebrado, porque as dúvidas sobre a manutenção da democracia no Estado de Emergência tinham de ser esclarecidas e tinha de ser claro que se mantinha a democracia e os direitos dos trabalhadores o que me levou a decidir pela existência de comemorações simbólicas, tive uma interpretação mais restritiva. A interpretação das autoridades sanitárias foi mais alargada. Por outro lado, os dirigentes sindicais tinham liberdade de circulação e as forças de segurança consideraram como tal as pessoas que vieram a Lisboa. (...) O mais que posso dizer é que a minha ideia era mais simbólica e restritiva”. Para o Presidente da República, a nível pessoal, a questão mais difícil foi a de ter “entrado em confinamento antes de todos os portugueses, numa altura em que ninguém percebia ou estava preparado para tal. Politicamente, a decisão mais difícil foi a declaração do Estado de Emergência, e explicar que não era um devaneio, que era um sinal. A segunda foi a renovação do Estado de Emergência porque já houve deputados que se opuseram. As coisas estavam já a correr melhor, mas foi necessário acompanhar o funcionamento das empresas, controlar a especulação. Na segunda renovação, as coisas ainda foram mais difíceis, porque como os resultados estavam a melhorar já houve mais dúvidas sobre se seria necessário essa medida, senão seria um sacrifício exagerado. A passagem para o Estado de Calamidade foi mais simples, porque não deveria haver uma banalização do Estado de Emergência. No entanto, os portugueses não podem descuidar-se, não podem facilitar. Os jovens, por exemplo, devem pensar nos seus familiares mais velhos para evitar que as coisas corram menos bem. Tudo tem de ser pensado sem descuidar os cuidados sanitários até haver medicamentos ou a vacina para combater este vírus”.                                                    

N.C. 
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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