“A situação actual mostrou-nos que não podemos viver só do turismo”, diz Russel Sousa

Pandemia veio demonstrar que os Açores têm de diversificar mais a sua base económica

A vida dos estudantes ficou em suspenso nestes últimos dois meses quando as escolas e universidades encerraram portas. Mas enquanto uns podem regressar à escola e universidade quando tudo isto terminar e voltar a ver colegas e professores, para os alunos finalistas, do secundário e principalmente os do ensino superior, tal pode não acontecer. Assim como a cerimónia que todos os estudantes universitários anseiam, a bênção das pastas e queima das fitas, provavelmente não se vai realizar este ano. 
Um desses estudantes finalistas da Universidade dos Açores é Russell Sousa. Tem 23 anos e está no 3º ano do curso de Estudos Euro Atlânticos na academia açoriana, onde diz que a sua vida de estudante deu uma volta de 180 graus, com todas as mudanças necessárias para enfrentar os novos métodos de estudo impostos pela pandemia da Covid-19. 
Russell Sousa nasceu em Lowell, Massachusetts, nos Estados Unidos e regressou a São Miguel com dois anos. Quando chegou a hora de ingressar no ensino superior, optou por ficar nos Açores e escolheu o curso de Estudos Euro-Atlânticos onde está actualmente no 3º ano e com muitas incertezas. 
O curso “dedica-se basicamente ao panorama internacional, à importância da nossa Região nas relações internacionais, juntando História, Direito. É um curso muito abrangente”. E foi essa a principal razão que levou o jovem a enveredar por este curso cujo plano de estudos abarca cinco pontos: “História, Ciência Política, Direito, Filosofia e Línguas”. Russell Sousa destaca principalmente as línguas “porque numa fase de globalização é essencial falar pelo menos mais uma língua além da língua nativa. O nosso curso permite isso, aprender Inglês que é obrigatório e depois escolher Francês ou Espanhol”. 
O curso estava a correr bem e as perspectivas antes de se iniciar o último semestre eram boas. Após as férias de Natal e com um novo ano civil em perspectiva “começamos a fazer os nossos planos, organizamos o nosso tempo para poder gerir o nosso tempo da melhor forma, fazendo os trabalhos, estudar para as frequências”, explica o jovem. 
No entanto, a partir de Março toda essa intenção dos alunos foi alterada e as aulas passaram a ser feitas através de plataformas digitais e com novos modelos de avaliação. “Muito dos professores optaram por não fazer frequência, estamos só a fazer trabalhos e muitos trabalhos. Mas sabemos que é a única maneira de ser avaliados. Fazer uma frequência em casa não seria o mesmo que avaliar presencialmente numa aula”, explica o estudante.
E os trabalhos têm sido muitos porque “não estamos sem fazer nada em casa” e há cursos que podem ter mais dificuldades do que outros. Como os cursos de economia ou gestão, que “têm cadeiras mais práticas, são cursos que têm tido muito trabalho porque os professores procuram ao máximo transmitir os seus conhecimentos através de trabalhos, porque aprender matemática através de um computador não é a mesma coisa que através de uma aula em que os professores podem tirar dúvidas, fazer o cálculo necessário e dar a explicação”. Já os cursos mais teóricos, como o de Estudos Euro-Atlânticos, “permite-nos ter uma base e ter mais tempo para fazer o nosos trabalho”. A única dificuldade, sente Russell Sousa, é “a falta de material de investigação, porque a internet não tem tudo. Porque os alunos precisam de ajuda para fazer os trabalhos, de ter as bases de investigação”, refere.
 Mas tudo se consegue, com esforço e dedicação. No entanto, há coisas que estes meses em isolamento poderão não trazer de novo. É que “as pessoas tinham expectativas, principalmente os alunos finalistas de viver os últimos três ou quatro meses de Universidade, e ter uma experiência rica de conviver com os colegas que podem não ver mais depois, porque muitos são de outras ilhas e outros do continente, ou alunos de Erasmus. Perde-se um bocadinho isso, aquela verdadeira experiência de aluno finalista”, explica.
E o sentimento, acredita, deve ser geral. “A única amargura, principalmente dos finalistas, é não poderem fazer a queima das fitas e a bênção das pastas. É aquele momento que marca o fim de uma etapa de vida”, lamenta Russell Sousa que reconhece no entanto que os tempos excepcionais que correm assim o obrigam. “Com esta situação, sabemos que temos de respeitar e não podemos juntar pessoas e nem pode haver ajuntamentos. Toda a gente reconhece, não há muito a fazer. Vamos fazer para o ano, talvez. Temos de esperar que a situação melhore para a vida voltar ao normal”, explicou com alguma desilusão o estudante. 
 Apesar de não poder haver festas de despedida dos colegas, o certo é que a vida vai continuar e após terminar a licenciatura há que seguir para a etapa seguinte. “Tenho como objectivo pessoal, ingressar num mestrado após o final da licenciatura. Hoje em dia embora seja muito bom ter uma licenciatura, é sempre bom ter mais. Por isso o objectivo é ingressar num mestrado, na Universidade dos Açores”, refere Russell Sousa que pretendia conciliar os estudos com o mundo do trabalho embora reconheça que “como a situação não está muito favorável, mas não sei como vai ser”.
No entanto, daqui a 10 anos o jovem finalista gostava de já ter ingressado no mercado de trabalho e ter “um trabalho estável na minha área, principalmente no âmbito das relações internacionais, num emprego em que fosse possível olhar para o mundo e avaliar que passos podemos tomar enquanto empresa ou instituição. Mas principalmente gostava de ter uma vida estável”, diz entre sorrisos. Se possível, nos Açores. “Porque a qualidade de vida que temos aqui não existe em mais nenhum lado. Temos muita qualidade de vida, uma vida calma, os açorianos são pessoas boas, já conhecemos bem a nossa ilha. Mas se o mercado de trabalho não permitir não há outra hipótese que não aventurar-me”, confidencia. E os Estados Unidos da América poderão ser a opção mais lógica. Não só porque Russell Sousa nasceu naquele país mas porque “honestamente, a Europa como projecto europeu já não é tão apelativa como era há uns 5 ou 10 anos. Toda a gente podia dizer que era europeu e que podia ir para Alemanha e podia ter trabalho. Mas hoje em dia, com as divergências actuais, os problemas que estamos a ter entre países, diria que a ponte no Atlântico, com os Estados Unidos é mais apelativa”.

O futuro dos Açores
O jovem finalista em Estudos Euro-Atlântico afirma que o mundo não mais vai voltar a ser o mesmo e acredita que “as pessoas irão aprender com a situação actual. Espero que sim”. No entanto, há lições a tirar desta situação que colocou o mundo a menos de meio gás. Em concreto nos Açores, “a situação actual mostrou-nos que não podemos viver só do turismo. Temos que manter a nossa economia diversificada de forma a que situações como esta não obriguem a nossa economia a parar”. Russell Sousa lembra que o turismo está parado, com alojamentos locais fechados e que tanto cresceram quando o turismo aumentou, sem hotéis e sem viagens aéreas. Por isso reforça que os Açores, “como Região Ultraperiférica, temos como objectivo aprender com essa situação e diversificar mais a nossa economia. Tornarmo-nos mais fortes. Somos uma Região forte e diversa e é essa a responsabilidade, sermos mais diversos”. Dá como exemplo a aposta na tecnologia “como tem sido feito” e relembra a estação espacial em Santa Maria, que deve ser vista como uma oportunidade de diferenciar a Região. “Temos de procurar essa diversificação e diferenciação, e evoluir ainda mais”, remata. 
Mas enquanto a pandemia não passar e a economia não voltar a entrar na engrenagem, há que pensar no futuro mais próximo e continuar a trabalhar para ter boas notas no final do curso. 

 

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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