Guia turístico recebeu apoio de 73 euros para viver durante um mês e diz que há colegas a viver em pior situação

 Bruno Romeu Resendes, que este mês recebeu um apoio da Segurança Social equivalente a 73 euros, afirma que os guias turísticos que trabalham em regime de freelance estão indignados com a demora que o Governo Regional tem tido para lhes “estender a mão” e reconhecer quer o seu mérito enquanto promotores do destino Açores, quer os elevados impostos que pagam ao Estado. No entanto, quando a poeira começar a assentar, acredita que muitos deixarão de exercer a profissão, uma vez que “estas pessoas irão sentir que esta é uma área em que não podem acreditar”.
Para os que trabalham na área do turismo há alguns anos, tal como os empresários de uma forma geral, torna-se evidente que há anos onde os rendimentos são superiores quando em comparação com outros. No entanto, e como tem vindo a ser comprovado ao longo dos últimos dois meses, é a completa ausência de vendas ou de clientes que mais assusta aqueles que têm os seus serviços ao dispor da comunidade.
Entre as várias actividades profissionais que poderiam ser aqui enumeradas e que se encontram actualmente a passar por grandes dificuldades, estão os guias turísticos que trabalham de forma independente, e que estão registados na Autoridade Tributária na categoria de “outros prestadores de serviços”.
Isto é, para além de verem a sua agenda completamente em branco até ao final deste ano, como acontece com Bruno Romeu Resendes, acresce o facto de os apoios provirem essencialmente da Segurança Social – depois de paga a mensalidade exigida por lei actualmente – e que, na prática, renderam ao guia um total de 73 euros com os quais terá de viver ao longo de um mês.
A par de esta ser uma profissão complicada que exige muitas horas de trabalho consecutivas, e de não servir para acumular riqueza, conforme conta, estes guias turísticos freelancers têm “impostos altíssimos” para pagar mensalmente e anualmente, que não são agora reconhecidos pelo Governo Regional dos Açores numa altura de crise, facto que angustia aqueles que se vêem agora sem rendimentos.
“Pensava que o Governo Regional ia criar um pacote só para o turismo, uma vez que esta é uma actividade que gera muito dinheiro e nós temos consciência disso porque vemos as coisas a funcionar. Estava à espera que o Governo protegesse as pessoas que trabalham nesta área mas isso não aconteceu.
No primeiro trimestre deste ano facturei perto de 200 euros e da Segurança Social recebi 93 euros, dos quais ainda tive que pagar 20 euros. É surreal e ainda estou a tentar perceber o que é que aconteceu neste processo”, desabafa.
Tendo em conta a sazonalidade, que faz com que nos meses de Inverno o turismo funcione a um ritmo muito mais lento, não é incomum que muitos destes trabalhadores acumulem algum dinheiro extra para sobreviverem durante os meses mais frios do ano. Contudo, o mês de Março era já tido como o mês em que se iria retomar a actividade neste sector.
“Quando comecei a trabalhar já sabia que este tipo de situação poderia acontecer por conta do trabalho sazonal. Com os cruzeiros começamos a trabalhar no mês de Março e acabamos no mês de Outubro, e de Outubro até Março vivemos com os rendimentos que fazemos nos meses de Verão (…), de Outubro até agora o dinheiro que eu tinha foi ganho no ano passado, dinheiro este que já acabou, por isso estou completamente desesperado e não sei como vai ser”, diz.
Ao partilhar o desespero com quem de direito, o guia turístico foi informado de que haveria “um pacote com 50 medidas de apoio” que, porém, não se adequam ao seu caso nem ao caso dos colegas que se encontram na mesma situação, havendo também alguma confusão no que diz respeito às categorias de “empresários em nome individual” e “outros prestadores de serviço”, uma vez que estes não são iguais.
“Candidatei-me na altura e segui todo o procedimento que o Governo indicou para receber o apoio da segurança social, entretanto transmitiram-me que havia um apoio para quem está na minha situação, o que não é verdade e que depois me foi confirmado. Entretanto sei que o Governo Regional já está a tomar medidas para quem trabalha como eu e é independente, mas não sei de nada”, acrescenta.
No entanto, aquilo que mais choca Bruno Romeu Resendes e todos aqueles com quem mantém contacto e que se encontram na mesma situação é a demora para conseguir apoiar e satisfazer as necessidades destes trabalhadores que não sentem o seu mérito reconhecido neste momento.
“Não sei como é que é possível tudo isto ter começado em Março, estarmos já em Maio e não termos recebido nada. O Governo Regional não nos deu a mão e ainda ninguém nos disse nada. Estávamos à espera que fosse tudo mais rápido, porque estamos sem facturar desde o mês de Outubro e penso que em duas ou três semanas já deveria haver um apoio mínimo para quem está na mesma situação que eu”, adianta.
Para além do impacto imediato que esta demora está a ter na vida das pessoas, o guia turístico explica que o mais provável é que o sector do turismo venha a perder muitos dos seus trabalhadores, uma vez que estas mesmas pessoas irão sentir que esta é uma área em que não podem acreditar.
Olhando para o seu caso em particular, Bruno Romeu Resendes sente-se até um pouco “sortudo” no meio deste grande problema, tendo em conta que não tem dependentes ou dívidas para pagar.
“No meu caso, quando me ponho a pensar, até tenho alguma sorte porque sou solteiro e a casa onde eu vivo é minha, mas imagine-se uma pessoa que tenha filhos e que viva do turismo… Faz-me confusão como é que o Governo não fez nada até agora, e como eu há muitas pessoas, porque muita gente vem falar comigo e diz-me que está desesperada, e com razão, porque não há uma perspectiva ou uma ajuda do Governo nesse sentido”, conta.
Aliás, esclarece, mais do que uma ajuda, o apoio do Governo Regional seria visto como “uma retribuição” por tudo aquilo que os guias turísticos – independentes ou não – têm vindo a fazer pelo nome da Região.
“Nem olho para isso como uma ajuda, olho para isso como uma retribuição por tudo aquilo que temos feito. Temos feito uma promoção brutal dos Açores e, na minha opinião, penso que os Açores estão como estão neste momento graças ao excelente trabalho que as pessoas de cá estão a fazer”, referindo ainda que muitos dos turistas estrangeiros consideram os açorianos como “os melhores guias que já tiveram”.

Viagens não vão estar nas 
prioridades dos turistas
No que diz respeito ao eventual regresso à normalidade, que se espera que vá acontecendo de forma gradual, adianta que as viagens não serão, pelo menos para já, a prioridade das famílias, independentemente da sua nacionalidade.
“As pessoas nos seus próprios países já não vão ter o dinheiro que tinham antes, porque toda a gente está a ser afectada, por isso não me parece que a primeira preocupação das pessoas seja a de vir fazer férias e muito menos aos Açores porque é um destino que não é muito conhecido”, sugere.
Apesar de, neste momento, não ter perspectivas de futuro no que diz respeito à profissão que exerce, a realidade é que para este guia turístico independente o seu regresso não será dos mais difíceis: “No meu caso penso que ainda vou ter algum trabalho quando tudo isto acabar porque já tenho uma relação de muitos anos com algumas agências locais, conheço muitos operadores de outros países e, se tudo correr bem, espero que daqui a um ano e meio ou dois anos estar novamente a trabalhar como antes”.
Porém, alerta para a possibilidade de o turismo tal como era conhecido na Região poder não existir durante algum tempo, levando a que – até lá – “muitas pessoas tenham que reinventar o seu trabalho”, tendo também em conta que são vários os sectores que dependem do sucesso que o turismo tem.
“A nossa economia vai ser muito afectada, vai haver um desemprego muito grande porque muitas pessoas não estão a ter uma visão real daquilo que se está a passar (…), as pessoas estão a esquecer-se de que na nossa economia o turismo corresponde a uma fatia muito grande, e que este é transversal a muitas actividades da nossa economia como a construção civil, como a hotelaria, os restaurantes, entre outros.
Infelizmente não me admirava nada que muitos hotéis e restaurantes fechassem, e que o alojamento local seja transformado noutro tipo de facilidades porque é impossível ter todo o alojamento local que existe em funcionamento”, explica, salientando que, em suma, haverá “um caminho que teremos que refazer”.
Bruno Romeu Resendes começou a trabalhar na área do turismo quando tinha cerca de 20 anos de idade, sendo que hoje tem perto de 40. De início encarou a profissão de guia turístico com “curiosidade em saber como funcionava o processo”, optando em primeiro lugar por trabalhar com o turismo francês, na Bélgica, onde teve também a oportunidade de estudar a língua daquele país.
“Percebi que o turismo francês tinha bastante potencial e por isso fui para a Bélgica para aperfeiçoar o meu francês e quando voltei tive sorte de conhecer algumas pessoas que me deram a mão para começar a trabalhar e cresci muito a nível profissional devido a isso”, salienta.
No que diz respeito àqueles que escolheram abraçar esta profissão em São Miguel, independentemente do tempo em que a exercem, adianta que estas “são pessoas que se aperceberam do potencial que temos cá, porque entre os maiores prazeres que qualquer guia pode ter está o de falar sobre a terra onde nasceu, da sua história, da emigração, da botânica, da geologia ou da gastronomia”.
Por outro lado, no que diz respeito aos turistas que nos visitam, salienta que é frequente que estes fiquem surpreendidos “com a beleza, com a riqueza, variedade e principalmente com a humildade das pessoas, da vontade de receberem e de mostrarem aquilo que fazem e as suas tradições”, indica.
Porém, apesar de considerar que o turismo teve um carácter “um pouco rudimentar” até ao momento, algo que começou a alterar-se ao longo dos últimos anos, considera que antes de declarada a pandemia “este já estava a tomar um caminho que não é o melhor, nomeadamente o turismo de massas, e estávamos – na minha opinião – a vender os Açores com pacotes muito baratos, onde as pessoas aproveitavam a terra linda e pagavam muito pouco”, algo que não acontece com facilidade ao visitar outros países.
É por esse motivo que o guia turístico refere ainda que se deveria apostar de verdade num turismo sustentável, “num turismo que fosse realmente de natureza, porque aí teríamos um turismo de maior qualidade, onde as pessoas não teriam de trabalhar tantas horas e onde poderiam fazer mais dinheiro”, conclui.

                                     

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