15 de maio de 2020

Chá da Cesta - 29

Chá na Ilha do Faial - I

Como planta ornamental, entre uma miríade de outras espécies vegetais, o chá crescia em jardins da Horta, pelo menos em meados do século XIX. A existência de jardins de súbditos estrangeiros residentes na Ilha do Faial é contemporânea à dos jardins de estrangeiros da ilha de São Miguel.1 Charles Dabney, cônsul da América do Norte, estante na cidade da Horta, era sócio correspondente no Faial da Sociedade Promotora da Agricultura e, pelo menos, colaborou em 1844 no Agricultor Micaelense com artigos sobre a doença dos laranjais e o tabaco.2 Havia uma grande ligação entre alguns membros influentes da SPAM e a Ilha do Faial. O melhor exemplo é o de José do Canto. Administrava, da parte dos Brum da Silveira, propriedades no Faial e no Pico, tendo ido à Horta por diversas vezes. Tinha lá um feitor e representante. Outro terá sido, César Supico, que esteve colocado na Horta. Havia, igualmente, convém dizê-lo, uma ligação muito forte entre algumas pessoas influentes da Ribeira Grande e da Horta: Eduíno Rocha, Cristóvão Moniz e Caetano Moniz de Vasconcelos.
A ligação da Horta à História do Chá vem de muito longe. Primeiro, as elites locais, consumiam chá. No século XVIII, D. António Taveira da Neiva Brum da Silveira, Bispo de Goa, natural da Horta, mandava a familiares na Ilha do Faial, chá verde.3 Em outra ocasião, mandou um aparelho para chá.4
A Horta está ligada à primeira experiência bem-sucedida de cultivo e produção de chá fora da área da Ásia. Miguel de Arriaga Brum da Silveira, Ouvidor Geral de Macau, natural da Horta, da família do Bispo de Goa, D. António Taveira da Neiva Brum da Silveira, foi quem, em carta de 6 de Março de 1809, escreveu ao Príncipe D. João para o Rio de Janeiro, no sentido de, a exemplo do que os ingleses faziam, contratar chineses. A 20 de Março de 1811, Brum da Silveira mandava de Macau para o Brasil plantas de chá e dois chineses, Apao e Achune.5 Tanto Miguel de Arriaga Brum da Silveira como o Bispo de Goa, D. António Taveira da Neiva Brum da Silveira, eram antepassados directos de Guilhermina Brum da Silveira do Canto, esposa de José do Canto, o grande introdutor do chá na Ilha de São Miguel. José do Canto iria a partir da década de noventa do século XIX, colocar o seu chá à venda no Faial. Como se poderá ver, a História do chá no Faial, alimenta-se de diversas nascentes.
A partir deste ponto, o que fazer? Muito simples: juntar algumas peças de um quebra-cabeças que seguramente terá tido muitas mais. Portanto, o que aqui apresentamos será uma proposta provisória do chá no Faial. 
Já com intenção declarada de experimentar o cultivo e a produção do chá, temos uma missiva de finais do ano de 1879. Em Julho haviam regressado a casa em Macau Lau-a-Pan e Lau-Teng, que durante ano e meio ensaiaram com relativo sucesso a cultura e o fabrico de chá na Ilha de São Miguel. Numa carta de Tomás José Brum Terra, Presidente da Sociedade Humanitária de Literatura e de Agricultura da Horta, recém-criada, dirigida ao Dr. Ernesto do Canto, Presidente da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, em Ponta Delgada, este informa o seu congénere de São Miguel que se acabara de ‘(…) fundar-se nesta Ilha [do Faial] com grande acolhimento do público a Sociedade Humanitária de Literatura e de Agricultura e achando-se instalada a secção agrícola, vimos como membros dela, pedir o benevolente auxílio da Sociedade da Agricultura Micaelense.’ E a que objectivos se propunha a nova Sociedade da Horta? Na carta, Tomás Brum Terra esclarecia Ernesto do Canto: ‘Os nossos esforços têm de convergir para as necessidades essenciais desta localidade e por isso desejamos primeiramente que tudo contribuir para a introdução da cultura do chá, do algodão, da beterraba, plantas de forragem que mais cortes produzem e matas.’ E pedia esclarecimentos ao Dr. Ernesto do Canto: ‘Todos os esclarecimentos que Vossa Excelência nos puder fornecer a este respeito, serão bem-vindos.’ 6 
Terá tido ou não resposta? Não sabemos. O que sabemos é que, em 1880, Augusto César Supico, que ajudara a SPAM em Macau, a contratar Lau-a-Pan e Lau-a-Teng, fora colocado no Faial.7 Já lá estaria em 1879.8 Terá tido alguma influência junto da nova Sociedade do Faial? É provável.
Um indício claro do crescente interesse da Horta pelo chá, pode ser amplamente comprovado no facto de um seu representante no Parlamento nacional ter subscrito em 1881 uma proposta de protecção e incentivo ao cultivo e fabrico do chá apresentada pelo deputado de São Miguel Caetano de Andrade de Albuquerque, igualmente, subscrita pelos representantes do Minho, de Angra e da Madeira.9
E havia chá por esta altura no Faial? Um testemunho estrangeiro, de 1882, assegura-nos da sua existência em jardins do Faial. Trata-se do testemunho de Charlotte Alice Baker, uma viajante americana: ‘(…) In them I have seen growing (...) the tea-plant (...).’10 Seria ainda chá ornamental.
Por volta de 1887, após César Supico e por alturas em que Caetano de Moniz esteve na Horta, também lá andou Cristóvão Moniz, republicano, natural da Ribeira Grande que se interessava pelo chá. Foi como agrónomo ‘subalterno’ que foi colocado, em 1887, na cidade da Horta. Dois anos depois, em 1889, viajou da Horta para Santarém. Que poderia ter tido algo a ver com o chá naquela Ilha.11 Diga-se que Cristóvão defendeu tese de licenciatura sobre o chá em 1888, que viria a conhecera a forma de um livro, em 1895. Assim sendo, Cristóvão não se livra facilmente da suspeita de ter tido algo a ver com o chá do Faial.
Nos anos seguintes, a julgar pelas notícias veiculadas nos seus jornais, o Faial manteve aceso o seu interesse pelo chá de S. Miguel. Em 1891, na segunda e decisiva arrancada de José do Canto, a 15 de Dezembro, ainda antes da notícia de A Persuasão, a ilha do Faial fica a saber pelo seu jornal Açor, de que ‘vieram de Londres, dois chins, de nome Chongsinp e Longonson Tonsing, que seguem viagem para S. Miguel, onde vão ensinar o preparo do chá que naquela Ilha se cultiva.’12 
O Dr. Eduíno Rocha (Matriz, Horta, 16 de Outubro de 1866 – Ribeira Grande, 10 de Setembro de 1910), médico e republicano, com nome de rua na Ribeira Grande, que exerceu a sua actividade na Ribeira Grande e que ia passar férias ao Faial, provavelmente, influenciado pelo que via na Ribeira Grande, ‘Na sua propriedade “Vila Rocha”, localizada na Fajã da Praia do Norte, freguesia da Praia do Norte, ilha do Faial, introduziu a cultura do chá e chegou, juntamente com seu cunhado, João Pereira Gabriel, numa estufa, que aí construíram, a experimentar o cultivo do ananás naquela ilha.’13 Que me conste, porém, por qualquer razão que desconheço, terá ficado por aí mesmo.
Ao invés, que se saiba, chá cultivado para a produzir chá comercializável, só surge na década de noventa. De onde retirámos esta ideia? Conforme O Telégrafo, da cidade da Horta, de 28 de Setembro de 1903, Caetano Moniz de Vasconcelos, oriundo do Concelho da Ribeira Grande, envia chá da Ilha do Faial para a Exposição do Porto de 1903 da sua colheita de 1902. Vejamos. No mínimo, para obter chá pronto a produzir em 1902, sendo cultivado no Faial, deve-se recuar uns três a quatro anos, o que apontará para os anos de 1898 ou de 1899: ‘na presente viagem do Funchal são remetidos para a exposição agrícola do Porto, alguns productos desta Ilha, entre os quis figura uma amostra de chá preto, manipulado pelo Sr. Caetano Moniz de Vasconcelos, e proveniente da colheita de 1902. O Sr. Moniz tem dado grande desenvolvimento a esta cultura, na sua propriedade da Lombega [Freguesia de Castelo Branco].’14. 
Ora, dando força ao nosso argumento, valemo-nos de uma nota de jornal. Trata-se de uma peça publicada em 1941, em um jornal da Horta, que diz: ‘Foi estabelecida na Lombega há cerca de 40 anos [o que dá crédito à nossa hipótese] pelo Sr. Caetano Moniz de Vasconcelos.’15 Ou seja, por outras palavras, o chá de Caetano terá iniciado o cultivo na década de noventa.
É provável que Caetano tenha dado início à sua plantação de chá, algures a partir da sua fixação definitiva no Faial em 1888. Havendo estado a trabalhar uma primeira vez em 1876, só em 1888 se fixa na Horta.16 Caetano já levaria o ‘bichinho do chá consigo’, pois, em 1883, sendo director do jornal A República Federal, como em outra passagem deste trabalho o referimos, desabafara: ‘(...) era de todo o ponto utilíssimo que se promovesse e activasse a criação dessa indústria, que poderia, no futuro, as desastrosas consequências da nossa miséria actual, se algum monopolista a não empolgasse em proveito exclusivamente seu.17’ 
Tratar-se-á, salvo prova em contrário, a única fábrica/oficina Açoriana de chá fora da Ilha de São Miguel. Ou talvez, para sermos mais corretos, uma das três fábricas/oficinas, como tentaremos demonstrar, que terão existido na Ilha do Faial. As provas, diga-se para já, não são concludentes. São até confusas. Ou talvez ainda de uma pequena produção que existiu (ou terá existido) na Ilha de Santa Maria na década de sessenta do século XX (1964-1965).18
Caetano, seria bom conhecedor do chá de São Miguel. Ele, ou o filho, era dono de terrenos junto à Fábrica/oficina do chá da Barrosa, na altura chamado de Raposo do Amaral, na Ribeira Grande. Os seus terrenos confinavam com os de Frederico Augusto Serpa, um dos pioneiros do chá na ilha de São Miguel: ‘(…) confrontando pelo Norte Frederico Augusto Serpa (…) Sul servidão (…) e Herdeiros de Frederico Augusto Serpa (…) e poente Herdeiros de Caetano Moniz (…).’19
Diga-se ainda que João Borges Cordeiro, a quem tanto José do Canto tentou sem sucesso dar parceria, casou em segundas e terceiras núpcias com irmãs de Caetano Moniz de Vasconcelos. O próprio João Borges Cordeiro, disse-nos um bisneto, fazia chá que oferecia à família em latinhas com o rótulo de Pico Arde. Seguramente, a melhor área de chá na Ribeira Grande, onde José do Canto concentrava a sua plantação e fabrico de chá.
Em 1900 já havia gente que sabia trabalhar o chá na Horta, gente natural da ilha ou vindo da de São Miguel, ao ponto do Coronel Chaves recomendar a sua contratação pelo chá Canto em S. Miguel: ‘se o tal do Faial indicado pelo Capitão Chaves (…).’20  

Lugar Areias, Rabo de Peixe, 9 de Maio de 2020

1 Albergaria, Isabel Soares de, Turismo de Jardins na Madeira e nos Açores: Dimensão histórica à situação actual, https://research.unl.pt/ws/portalfiles/portal/4146546/ISABEL_ALBERGARIA._turismo_jardins.pdf
2 Dabney, Charles, Sobre o Tabaco, Agricultor Micaelense, 20 de Fevereiro de 1844, n. º 5, fls. 66-66; Dabney, Charles, Donde veio para os Açores o Coccus Hesperidum?, Agricultor Micaelense, 20 de Abril de 1844, n. º 7, fls. 102-103
3 Cf. UACSD/FAM-ABS-JC/JC/001/Documentação não tratada, cx. 170 [Correspondência expedida por António Taveira da Neiva Brum da Silveira] Carta de D. António Taveira da Neiva Brum da Silveira a Manuel Paim de Frias, Goa, 19 de Janeiro de 1758. 
4 Cf. UACSD/FAM-ABS-JC/JC/001/Documentação não tratada, cx. 170, [Correspondência expedida por António Taveira da Neiva Brum da Silveira] Carta de D. António Taveira da Neiva Brum da Silveira a Tomás Francisco Brum da Silveira, Goa, 23 de Janeiro de 1768.
5 Idem, p. 16.Transcrevendo Ofício do Ouvidor de Macau, Brum da Silveira, de 21 de Março de 1811: Anexado aquele ofício, de 20 de Março, vinha um “abaixo assinado” de 21 de Março de Apao e Achune. Trata-se de um contrato.
6 Carta de Tomás José Brum Terra, Presidente da Sociedade Humanitária de Literatura e de Agricultura da Horta, ao Presidente da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, Horta, 17 de Novembro de 1879, cf. PT/ BPARPD/ASS/SPAM/0106.66; Ou, ainda, a Horta, conforme, BARPD, SPAM, Registo de Correspondência, 1860-1898, 24 de Dezembro de 1879, liv. 23, fls. 19v.
7 BPARPD, Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, Actas da Direcção, 10 de Outubro de 1873 a 31 de Janeiro de 1887, 15 de Abril de 1880, liv. 6, fls. 68v-69v.
8 Carta do Conde da Praia da Vitória a Francisco Maria Supico, Angra do Heroísmo, 28 de Maio de 1879, cf. BPARPD, ACR, CORR. 1966.
9 Câmara dos Deputados, 16 de Março de 1881, p. 1008; Visto em 28 de Abril de 2015;http://debates.parlamento.pt/page.aspx?cid=mc.cd&diary=a1881m03d16-1008&type=texto&q=ch%C3%A1&sm=f: Caetano de Andrade em 1881 dizia: “A protecção que peço para o período inicial da introdução da cultura e do fabrico do chá no paiz, colonias ultramarinas e ilhas adjacentes é apenas o meio pratico de fazer surgir rapidamente uma indústria, que, em breve florescente, se converterá, ao expirar o período proteccionista, em elevada fonte de receita para os cofres do thesouro nacional.”
10 Baker, Charlotte Alice, A summer in the Azores with a glimpse of Madeira, Boston, Lee and Shepard, 1882, p. 35
11Câmara dos Deputados, 16 de Março de 1881, p. 1008; Visto em 28 de Abril de 2015;http://debates.parlamento.pt/page.aspx?cid=mc.cd&diary=a1881m03d16-1008&type=texto&q=ch%C3%A1&sm=f
12 O Açor, Horta, terça-feira, 15 de Dezembro de 1891, p.2.
13 https://pt.wikipedia.org/wiki/Edu%C3%ADno_Rocha
14 O Telégrafo, Horta, 28 de Setembro de 1903. 
15 Correio da Horta, Horta, 5 de Setembro de 1941.
16http://www.tribunadasilhas.pt/index.php/local/item/1219-no-centen%C3%A1rio-da-rep%C3%BAblica-portuguesa-15; Silva, Susana Serpa, Ponta Delgada: Roteiros Republicanos, Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República, Lisboa, 2010, pp. 109-110.
17 A República Federal, Ponta Delgada, 8 de Maio de 1883.
18 Anuário Estatístico Açores, 1978-1979, Serviço Regional de Estatística, Maio de 1987, Angra do Heroísmo, pp. 153.157.
19 Conservatória do Registo Predial da Comarca da Ribeira Grande, [Barrosa], n.º 97 – Secção I – Freguesia da Ribeira Seca.
20 Carta de Artur Hintze Ribeiro, Lisboa, a Eugénio do Canto, Ponta Delgada, 17 de Abril de 1900, cf. UACSD/FAM-ABS-JC/Documentação não tratada, Cx. 259.

Mário Moura

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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