Foi na Caloura que tudo começou

Reza a história que terá sido o Papa Paulo III que ofereceu a imagem do Senhor Santo Cristo a duas freiras de Vale de Cabaços, que foram a Roma impetrar Bula Apostólica para viverem canonicamente.
Depois disso, a imagem foi trazida para o Convento da Esperança pelas religiosas, quando estas trocaram Vale de Cabaços por Ponta Delgada, decorrido que era o ano de 1540, mais precisamente a 23 de Abril, num domingo de Pascoela.
O isolamento do sítio e o perigo que representava a presença de corsários, sobretudo franceses, terão estado na origem da saída das cerca de 29 religiosas que em 1533 ali viviam. Nessa altura, saíram de lá cerca de 1 9 religiosas para inaugurar o Convento de Santo André em Vila Franca do Campo, e as restantes vieram para Ponta Delgada, onde fundaram o Mosteiro de Nossa Senhora da Esperança, que venera a imagem do Senhor Santo Cristo, e que está na origem das maiores festividades religiosas que se celebram nos Açores.
Quanto ao Vale de Cabaços, na Caloura, ainda hoje ali se encontra a Ermida e o convento, que se ergue sobre as rochas vulcânicas perto do porto, e cuja construção parece ter começado no início do século XVI.
Em 1522, existia no local uma pequena capela da invocação de Nossa Senhora da Conceição, precisamente no ano em que Petronilha da Mota e Isabel Afonso, duas jovens vilafranquenses se refugiaram em Vale de Cabaços, às quais se juntaram posteriormente mais seis meninas.
De realçar que embora a Ermida esta seja vulgarmente como Ermida de Nossa Senhora das Dores, foi e ainda hoje continua a ser da inovação de Nossa Senhora da Conceição.
Naquele tempo, foi Rui Gonçalves da Câmara, 5º Capitão Donatário da ilha de São Miguel, que se encarregou daquela casa de religiosas, da qual foi padroeiro e para a qual obteve a Bula de Roma para que a mesma fosse considerada como Mosteiro, com todos os privilégios a que tinha direito.
Entretanto, os anos passaram e a Recolecta acabou por ficar vazia depois da saída das últimas religiosas, permanecendo ali apenas um eremitão até 1632, que acabou por sair contra a sua vontade.
A 20 de Novembro do mesmo ano, deram entrada no mosteiro os eremitas de Nossa Senhora da Consolação, do Vale das Furnas, na sequência da erupção de 2 de Setembro de 1630 que destruiu este vale e os obrigou a sair de lá, dirigindo-se assim par Cabaços, por provisão de D. João Pimenta Abreu, Bispo dos Açores.
Nessa altura começaram os religiosos a fazer obras de adaptação e reconstrução do mosteiro, melhorando as estruturas já existentes e acrescentando outras.
Assim sendo, acrescentaram um quarto junto à sacristia, com tabuados e madeiras provenientes das Furnas, um corredor com cinco celas, uma dispensa e um refeitório, e ainda uma cozinha e uma ‘necessária’ (instalações sanitárias) do lado de fora e contíguo.
O Conde da Ribeira Grande, D. Manuel da Câmara, mandou acrescentar mais um quarto e outra cela para que ele pudesse repousar quando visitasse a Ermida, estávamos em 1633.
Entretanto, o Conde ordenou que fossem feitos alguns melhoramentos à sua custa, começando os trabalhos no ano de 1664, com a construção de um novo lanço de dormitórios, quatro celas e um oratório, “para calvário e retiro dos eremitas”, acrescentando depois uma nova sacristia, um coro para a Ermida e também um Sacrário.
Quatro anos mais tarde, o Capitão Bartolomeu de Frias Coutinho entrou para a Recolecta, já depois de ter mandado construir três quartos no dormitório poente para neles habitar.
Em 5 de Agosto de 1684 Jean Fauger chegou a Ponta Delgada à procura de seu filho, Padre João da Madre de Deus que se encontrava em Vale de Cabaços, e que não via desde 1659, altura em que este tinha oito anos de idade.
A Jean Fauger foi destinado um pequeno espaço para habitar, onde trabalhava como escultor e fazia imagens, colunas, peanhas, pedestais, anjos e serafins, de madeira e de pedra, destacando-se da sua obra o nicho em pedra que executou em Dezembro de 1684 e que foi colocado no frontispício da Ermida.
A morte surpreendeu-o a 5 de Dezembro de 1693, daí que não tenha chegado a concretizar o desejo que tinha de fazer o altar para Nossa Senhora da Consolação.
Em Janeiro de 1738, o Padre Manuel do Rosário foi a Lisboa pedir uma esmola a D João V para poder reedificar um dormitório, cozinha, cisterna e outras oficinas, cujas obras eram mesmo necessárias e urgentes, tendo-lhe sido atribuídos trezentos mil réis por decreto real, ordenando a entrega dessa mesma quantia na Alfândega de São Miguel, pelo Concelho da Fazenda.
A 8 de Junho de 1751, o Capitão Mor da Ribeira Grande, Manuel de Sousa
Correia, entrou para a Recolecta tomando o nome de Manuel do Sacramento e assumindo o comando do forte anexo ao Convento, que tinha sido mandado construir pelo seu filho primogénito para defender o mesmo.
Foi em 1832 que se deu a extinção da Recolecta, depois da permanência dos recolectos de Vale de Cabaços desde 1632, ou seja durante duzentos anos, os quais eram conhecidos por “calouros”, daí a origem do nome Caloura.
De salientar ainda que o nome Vale de Cabaços se ficava a dever ao facto de o mesmo se encontrar coberto de flores brancas de uma erva denominada por legação, que faziam lembrar flores de cabaças, embora o vale em si também fosse conhecido por nomes como “Conceição”, ”Consolação” ou “Nossa Senhora da Piedade”.
A extinção da Recolecta foi ditada pelo artigo 10º do título III do Decreto de 1 7 de Maio, assinado em Ponta Delgada pelo Regente do Reino, D. Pedro, Duque de Bragança, e referendado por José Xavier Mouzinho da Silveira, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça, sendo os seus bens e rendimentos incorporados nos da Nação.
Por ordem do Governo, a 6 de Junho de 1 854, foram vendidos o Convento, a Cerca e a Ermida, adquiridos pelo 2° Barão e 1° Visconde das Laranjeiras, António Manuel de Medeiros da Costa Canto e Albuquerque, permanecendo o conjunto arquitectónico ainda hoje na posse da sua família.
Por herança dele, passou para a filha D. Cecília de Medeiros Albuquerque Jácome Corrêa, casada com Thomaz Ivens Jácome Correia, depois passou para o filho deste casal, António de Albuquerque Jácome Corrêa, entretanto falecido, e actualmente é propriedade dos herdeiros.

Sara Nóia
 

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Autor: CA

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