Como dois jovens empresários ‘trocaram as voltas’ ao vírus

Empresário transforma nas Portas do Mar loja de recordações numa mercearia para sobreviver à pandemia da Covid-19

 Depois de vários anos ligado ao artesanato, aquela que viria a descobrir ser uma das suas paixões e que o levou a investir na abertura da sua própria empresa, a EMA, André Cunha viria há cerca de oito meses a apostar numa das lojas situadas no complexo comercial das Portas do Mar, tendo como objectivo chegar até um público específico: o turismo.
No entanto, com a chegada da pandemia aos Açores, e ao ver-se obrigado a fechar as portas do seu recente negócio, o jovem faialense entendeu que deveria redireccionar o seu foco, fazendo assim com que nascesse a EMA Mercearia e Souvenirs, e evitando assim – em menos de uma semana – que a empresa que com tanta dedicação criara entrasse em insolvência.
“Tivemos que nos adaptar, fizemos um website improvisado, começámos a comprar produtos de primeira necessidade e começámos a divulgar e a vender esses produtos oferecendo o transporte até casa das pessoas com facilidades de pagamento a partir de casa, através do multibanco ou com MbWay”, explica o jovem, adiantando que durante as entregas todas as medidas de segurança são também cumpridas.
Esta adaptação acabou por se tornar na salvação da empresa que criou, permitindo assim “aguentar o negócio, pagar ordenados e algumas obrigações a que não conseguimos fugir mensalmente”, embora refira que a transição entre os dois modelos de negócio acabou por ser também ela exigente.
“Apostar nas entregas ao domicílio foi também um pouco complicado para nós numa fase inicial porque éramos uma loja de souveneirs. Ou seja, não tínhamos nome no mercado, as pessoas não nos conheciam e quando começámos a fazer publicidade da Mercearia Ema, que nasceu devido à pandemia, as pessoas começavam a questionar-nos.
Para nós foi mais complicado nessa altura conseguir clientes, se fôssemos uma casa já feita, com os nossos clientes fixos e tivéssemos já portas abertas há algum tempo, era mais fácil passar para esta transição”, explica o empresário.
À loja física, mesmo com o alívio das medidas impostas pelos planos de contingência e pelo estado de emergência aplicado, chegam ainda poucos clientes, algo que André Cunha acredita que ocorra porque há ainda um medo generalizado entre a população no que diz respeito ao permanecer em espaços fechados, e também pela obrigação do uso de máscaras sociais.
“Só recentemente é que abrimos portas e começámos a ver mais pessoas na rua. Só que com esta situação da pandemia as pessoas têm medo. Até passam e olham para dentro mas não entram também porque somos obrigados a impedir a entrada de pessoas que não tenham máscaras, e há muita gente que não entra no espaço porque não as traz consigo.Notamos que as pessoas também estão mais de pé atrás quando se trata de fazer compras em espaços fechados, e como temos um espaço pequeno isso também contribui para que isso aconteça”, refere.
Por esse motivo, adianta ainda que este modelo de entregas ao domicílio irá – provavelmente – manter-se até que se comece a sentir alguma da estabilidade de antes na economia local, até porque há alguma “pressão” por parte de determinados clientes que pretendem manter as compras feitas à distância nas suas rotinas.
No entanto, mesmo investindo as suas poupanças nesta adaptação, a realidade é que apesar das previsões “não temos garantias de que o turismo volte assim tão cedo, ou seja, o turismo poderá voltar no próximo ano, mas ninguém nos dá garantias disto porque ninguém consegue prever quando as coisas vão estabilizar e voltar à normalidade”.
Mesmo considerando que teve sorte em ter um espaço que conseguiu adaptar ao novo tipo de negócio, o que não acontece com todos os empresários até porque “há quem tenha negócios muito específicos”, a localização da loja poderá ser uma condicionante para a mercearia, conforme explica.
“O risco que corri e a aventura em que me meti, em ter uma mercearia nas Portas do Mar, não foi o mais sensato, porque ter uma mercearia aqui não é o mesmo que ter uma mercearia no meio de uma freguesia ou no meio de uma cidade, porque ninguém vem às Portas do Mar fazer as suas compras da semana ou do mês. 
Estamos a arriscar neste negócio pelas entregas ao domicílio e estamos numa fase em que temos que tomar algum rumo para fazer face às despesas”, diz André Cunha, relembrando que toda esta transformação ocorreu apenas no espaço de uma semana, decisão esta que que foi decisiva no futuro da empresa.
No entanto, e à semelhança de muitos empresários, o jovem faialense é da opinião que as ajudas provenientes do governo não são céleres o suficiente, havendo inclusive empresas que mais depressa fecham as portas do que reúnem toda a burocracia necessária para aderir, por exemplo, às linhas de crédito disponíveis.
Em relação a este tipo de apoio disponibilizado, André Cunha mostra-se contra, uma vez que a par dos investimentos na ordem das dezenas de milhares de euros que são – por norma – feitos anualmente, há ainda “muitos encargos mensais que já sufocam as empresas”, principalmente aquelas que num primeiro momento dependeram de créditos que continuam a ser pagos, conclui.

                                   

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