17 de maio de 2020

Entre o passado e o futuro

Novos grupos de risco

O risco essencial associado à pandemia causada pelo vírus covid-19 resultado desenvolvimento de uma enfermidade letal, transmissível pelo contágio humano. A faixa populacional mais idosa é comprovadamente a mais vulnerável assim como as pessoas portadoras de doenças crónicas. O conjunto foi considerado profilaticamente grupo de risco e em consequência objeto de proteção sanitária apropriada à sua condição. A realidade, porém, vai densificar-se.
O confinamento geral a que a população foi sujeita deu origem à suspensão universal de elevada percentagem da atividade económica com particular incidência no setor dos serviços, inevitavelmente, porquanto é o que mais depende da mobilidade humana bloqueada.
Agora que progressivamente está a ser levantada a proibição de circulação de pessoas e foi deliberado recuperar a atividade económica paralisada, surge um novo, descomunal e esperado constrangimento no plano económico com o nome de recessão: diminuição do PIB, queda das Bolsas, destruição significativa de emprego, contração do investimento, redução de rendimentos, especulação financeira, execuções judiciais e insolvências. Os maus efeitos do costume.
Se quisermos comparar o ciclo económico com a curva da enfermidade pandémica atual o termo contágio deve ser substituído por “efeito sistémico”; curva da epidemia por “curva do ciclo económico”; pico da pandemia por “boom”; planalto da curva da pandemia por “estagnação”. Enquanto a pandemia esteve na sua fase de crescimento a economia entrou em estagnação e brevemente passará a recessão. Será um cruzamento perverso. 
A crise económica não era nem é propriamente um mal inesperado. Para este começo de década aguardava-se já o início da fase de estagnação do ciclo económico, ou seja, a queda suave dos PIB nacionais. Especulava-se muito –peritos e videntes – sobre o que originaria a recessão. Alguns experts até já a consideravam necessária e mesmo possível de ser assistida para controlo dos seus efeitos mais desastrosos. Poderia dissipar o denso nevoeiro político e evitar a guerra.
A declarada guerra económica entre os Estados Unidos e a China agudizava-se (quando escrevo este texto ouço que Trump ameaça cortar totalmente as relações dos EU com a China). A desconstrução da falsa pax-petrolífera prenunciava o caos. A tremedeira da União Europeia e a perda do seu protagonismo no concerto das nações deixava ver um Mundo desorientado. A debilidade crescente das organizações internacionais favorecia o retrocesso da globalização e o “neomercantilismo”. O enfraquecimento da democracia representativa levava à constituição de regimes políticos autoritários e duradouros, legitimados por eleições democráticas e justas. A expansão do “neonacionalismo” expressa na Turquia, Polónia, Brasil e assumida pelos Estados Unidos, como 1ª potência mundial atestava um enorme perigo político.
Todos esses factos eram sinais fortes de que a economia real ou a financeira estaria a gerar uma recessão económica de dimensões históricas. Era tão evidente que a causa próxima poderia ser uma qualquer. Teria sempre poder de destruição massiva. E foi: um vírus de estirpe conhecida.
Não foi possível garantir a saúde e a economia num patamar de equilíbrio. Sobreveio a tragédia. Quando se pára não se produz nem e investe. Quando não se produz perde-se rendimento. Quando se perde rendimento sofrem as famílias, as empresas e o Estado. É o que vem a seguir.
Também existem instituições e extratos etários de risco no caso da recessão. 
Terá de ser aberta uma nova frente de batalha sem que se tenha encerrado a da pandemia e   descartados os anteriores grupos de risco. Não vai ser simples nem cómodo nem barato. No caso de a recessão surgir os grupos de risco serão três e prioritários: os jovens profissionais; as micro, pequenas e médias empresas e o vasto setor dos serviços. São os mais vulneráveis. 
Os jovens profissionais ainda têm visíveis as cicatrizes da crise 2007/9, da precariedade contratual, do desemprego, da emigração forçada. São necessários o seu o empenho e desempenho, a sua capacidade de inovação, a sua resiliência, a sua confiança no futuro. Ignorá-los constituirá o último erro da democracia representativa.
É no setor dos serviços que se encontra o grosso das PME, as startups, o dinamismo renovador, as margens que mantêm o rio no seu leito. 
Delas depende boa parte da dinâmica da gestão do ciclo económico. Carecem dum sistema específico e integrado de proteção económica, flexível e imediato sob pena de caírem como tordos. 

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Categorias: Opinião

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