Empresa açoriana “salva” Santo Cristo do antigo Seminário de Ponta Delgada

No dia 14 de Maio de 1966 foi inaugurado o Seminário Colégio do Santo Cristo em Ponta Delgada. Era Sábado da Festa do Senhor e Bispo D. Manuel Afonso de Carvalho. Para presidir às festas e cerimónia de inauguração do emblemático e polémico edifício, estava nos Açores o Cardeal Maximilien Fürstenberg, então Núncio Apostólico em Portugal.
D. Manuel Afonso de Carvalho foi um dos Bispos diocesanos que mais se interessou pelo culto do Senhor Santo Cristo, de tal maneira que em 1959, há precisamente 61 anos elevou a Igreja de Nossa Senhora da Esperança à categoria de Santuário e escolheu o Senhor Santo Cristo como patrono da grande obra do seu episcopado que foi o Seminário de Ponta Delgada.
Por isso mesmo, na capela do referido Seminário, foi criado um grande painel/mosaico do Senhor Santo Cristo, ladeado por dois anjos em adoração, numa feliz concepção de um tríptico que ali esteve, naquele espaço até à venda do Seminário que foi transformado no São Miguel Park Hotel.
Para milhares de alunos que passaram por aquele estabelecimento de ensino, quer como candidatos ao sacerdócio ou colegiais, o destino de tal conjunto artístico e devocional era pergunta frequente.
Felizmente que tal obra de arte escapou à transformação do Seminário em Hotel e graças aos responsáveis da empresa Eng Luís Gomes & Filhos a quem foram adjudicadas as referidas obras, salvou-se o referido conjunto. Foi serrada a parede onde se encontrava, protegida com moldura de ferro e armazenada.
Aquando da insolvência daquela nossa emblemática empresa de construção civil, foi feito leilão do conteúdo dos seus armazéns.
Entre os materiais a leiloar encontrava-se o painel com a Imagem do Santo Cristo e os outros dois mais pequenos com os anjos em adoração.
Para evitar o risco de tais peças irem parar ao Continente português, de onde era o empresário que ficou com parte do recheio da referida empresa, os gestores da “Serralharia do Outeiro”, nos Arrifes, negociaram com a referida empresa e conseguiram que a obra de arte ficasse em São Miguel.
E é assim que se conseguiu salvar um verdadeiro tesouro de arte que agora está em exposição numa sala nobre daquela empresa nos Arrifes e que este ano recebeu especial decoração, com arranjos florais e um magnífico tapete de flores.
Esta história merece ficar registada, pela perspicácia e amor à terra e suas tradições revelada no gesto da Serralharia do Outeiro que evitou o desaparecimento definitivo de São Miguel de um conjunto de iconografia em mosaico que marcou as curtas dezenas de anos de um edifício nascido para a formação religiosa e que por vicissitudes várias foi transformado num hotel de referência em São Miguel.
Poder-se-á perguntar por que motivo ninguém na Diocese se interessou pela dita obra de arte, ou o que terá levado a empresa proprietária do Hotel a não ter aproveitado o painel para uma sala que poderia ser uma belíssima atracção turística. O que interessa agora, porém, é que este património enriquece uma empresa açoriana, como é a Serralharia do Outeiro e enobrece a freguesia dos Arrifes que a acolhe!
                  

Santos Narciso
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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