22 de maio de 2020

Chá da Cesta - 30

Ilha do Faial - II

Logo a abrir o ano de 1910, aparece-nos na cidade da Horta, um anúncio de venda do ‘Chá do Capelo,’1 de Caetano Moniz de Vasconcelos.

Nove anos volvidos, em 1919, Caetano Moniz de Vasconcelos falece. Era viúvo há onze anos, e morava ‘na companhia da irmã Guiomar de Vasconcelos Moniz na rua Walter Bensaúde, freguesia da Matriz da Horta. Foi aí que, devido a uma forte gripe, se encontrou com a morte a 7 de Janeiro de 1919. Contava 69 anos de idade.2’ 
Em 1928, o prédio, a julgar pelos números, não ficava atrás do prédio do Pico Arde de José do Canto. ‘(…) no lugar da Lombega da freguesia de Castelo Branco, medindo 950 alqueires pouco mais ou menos, sem duzentos e tantos alqueires plantados de espadana e trinta alqueires plantados de chá sendo o restante pastagem,’ estava à venda na Horta.3 
Dez anos mais tarde, pelo menos, Manuel Pereira Gomes era dono do chamado chá da Lombega.4 Que pode ou não corresponder ao antigo chá do Capelo de Caetano Moniz de Vasconcelos. 
Naquele ano de 1938, António Hintze Ribeiro, no Primeiro Congresso Açoriano, em Lisboa, ao indicar a produção de chá para 1937, depois de adiantar 100 toneladas, adverte que não entrara ‘em conta com a produção da Ilha do Faial.’5 
Em Setembro de 1941, Caetano Moniz de Vasconcelos, Jr, ao enviar da Horta as condolências pela morte de Ricca, dá-nos a impressão de que já não tem chá.6 Seis anos volvidos, surge ainda referência a este chá.7 
Em 1949, havia três cultivadores de chá no Concelho da Horta, que numa área de 2,42 hectares produziam 600 quilos de chá feito.8 O que daria cerca de 2 400 quilos de folha verde. No ano seguinte, os três cultivadores, em 3,48 hectares, produziram 1.080 quilos de chá pronto.9  O que daria cerca de 4.320 quilos de folha verde. Em 1951, ainda três cultivadores, em 2,61 hectares, produziram 690 quilos de chá.10 O que daria cerca de 2.700 quilos de folha verde.
Um dos três cultivadores, poderá ser Casimiro Gonçalves. Uma notícia no Correio da Horta de 24 de Julho de 1951 dá-nos conta disso: 11 
Quem era Casimiro Gonçalves? A este propósito, oiçamos o seu neto, o jornalista Souto Gonçalves, que partilhou o assunto com a engenheira Clara Estrela Rego, no espaço chá na Feira Açores, 2019 na Horta realizada de 12 a 14 de Julho: ‘O avô, Casimiro Gonçalves, natural de Óbidos, veio para o Faial em 1920, era um homem muito dinâmico que foi comerciante e industrial. Introduziu na ilha a debulha do trigo. Casou com uma senhora da Lombega. Terá feito chá experimentalmente. No dia 24/7/1951 saiu um artigo no Correio da Horta que faz referência ao chá em causa (ele mostrou-mo no seu telemóvel).’12
Henrique Silva, filho de outro dos três produtores, acerca do chá do pai, referiu que este terá continuado até 1960-1961.13 Testemunho de Henrique Silva, 12 de Junho de 2013: ‘Tenho 64 anos, meu pai comprou a fábrica, que já existia, teria eu uns seis anos, por volta de 1955, durou até 1960-1961. Depois dos Capelinhos, do vulcão, ficámos sem mão-de-obra. A plantação era no Mato da Lombega e a fábrica era numa casa no Alto da Lombega que ainda existe, onde agora mora gente. Era vendido localmente como chá da Lombega.’ Sabe se esta fábrica é a mesma de 1913? ‘Não sei.’ 
Quem seria o terceiro produtor do Faial? Clara Estrela Rego, na sua indagação, registou talvez um possível candidato: ‘Entretanto, no domingo à tarde [14 de Julho] recebi um telefonema de uma das senhoras que no dia anterior [sábado, 13 de Julho] se comprometera a investigar sobre o assunto. Por azar era tanto o ruido da passagem do cortejo etnográfico à porta do pavilhão do Espaço Chá que não percebi nada. Então ela voltou a ligar-me mais tarde, depois de ter ido a uma procissão na freguesia vizinha à dela. As condições acústicas não eram muito melhores nem as minhas para tirar apontamento, mas percebi o seguinte. Tinha estado a conversar com a tia dela, suponho que uma pessoa bastante idosa a avaliar pela idade da sobrinha, que confirmou que o local de fabrico era uma casa que hoje pertence a uns estrangeiros (se não me engano em Castelo Branco) e que pertenceu a um senhor chamado Olímpio. Esse local também terá sido uma fábrica de queijos, mais tarde, e terá sido de um Sr. Mário Gomes. Disse-me que quem poderá ter mais informações é a senhora Lívia, da Ourivesaria Olímpio, da Horta. Quanto às antigas plantas de chá ela deu-me informação que há não muito tempo havia uma, mas morreu. Adiantou-me também que quem apanhava o chá eram mulheres que iam para o mato.’14
Uma estatística nacional, aponta para a Horta e para o ano de 1967, a produção de 11 toneladas de chá. Veja-se quadro, mas antes, há que pensar um pouco. Onze toneladas de chá? Em folha? Produzido? Seja como for, é muito chá. E chá que a Horta não produzia. Será chá acumulado? Erro da estatística? Não sei. 

Horta/Chá/Toneladas15

        1967           11,0

E quando é que terá acabado a cultura do chá no Faial? Há quem indique o ano do vulcão dos Capelinhos: 1958. Pedi ao Professor Forjaz, que relembrou: ‘Eu tinha 16 anos quando o Capelinhos surgiu. E passei a adjunto do eng.º Frederico Machado Director de Obras Públicas. Ajudei a levantar a topografia do vulcão com auxiliar de miras topográficas. Meu pai era o vice-Presidente da Junta Geral Do Distrito da Horta. Desse modo estava a par dos estragos e os do chá estiveram nos relatos.’16 Portanto, o vulcão dos Capelinhos (a cinza), constava do relatório, havia destruído as plantações em 1958.
Há quem aponte, como Henrique Silva, filho de outro dos três produtores, os anos de 1960-1961.17  A estatística oficial ainda mostra uma enorme quantidade de chá para o ano de 1967.
Lembro-me, recordo eu, já em finais da década de sessenta, o Chá Capelo que minha avó me dava a beber à noite.
Que pensar disso? Aquelas datas podem dizer coisas distintas. Ora, o vulcão manteve-se em actividade por 13 meses, entre 27 de setembro de 1957 e 24 de outubro de 1958. Até Setembro de 1957, terá sido possível colher a folha verde das plantações. Todavia, entre Setembro e Outubro de 1958, não foi possível trabalhar como habitualmente. Em finais de 1958 pode ter ocorrido a destruição de plantações. Quais? Será que o relatório as refere com minúcia? Seja como for, não terá destruído o que já fora produzido. 1961-62, segundo o nosso informador, poderá dizer respeito a outras plantações que não foram prejudicadas pelo vulcão. Esses são os anos em que a mão-de-obra começou a faltar. Emigração? E 1967? Pode dizer respeito à produção acumulada que ainda não fora vendida? Será o chá que bebi em finais da década de sessenta e o da estatística de 1967, restos do que fora produzido mas que ainda não fora vendido? Quem sabe.
E para terminar em beleza, tivemos a dita de conversar, via computador, com o Professor Doutor Victor Hugo Forjaz, que nos deu o seu testemunho do consumo e cultura do chá no Faial de há seis décadas. Sobre o chá e o seu consumo na cidade da Horta, partilhou connosco o que transcrevo na íntegra: ‘Sim, recordo-me perfeitamente do chá do Capelo no Faial, minha terra. Na cidade da Horta havia uma casa de chá no extremo do Café Internacional onde as damas finaças iam às 5 da tarde. Era tudo muito British. Com scones e outras queijadinhas de queijo. O gerente era o Sr. Alves, dono da Pensão Internacional e do Café que ficou famoso. Toma-se chá do Capelo, Mrs Collins, Mrs Fielding e assistente, nomes que posso recuperar. Eu adorava os scones quentes com manteiga bem amarela dos Cedros. Enfim, como dizem em Cabo Verde, soidades de velho.’ 18 

Lugar das Areias, Rabo de Peixe, 15 de Maio de 2020


1  O Fayalense, Horta, 4 de Janeiro de 1910.
2  http://www.tribunadasilhas.pt/index.php/local/item/1219-no-centen%C3%A1rio-da-rep%C3%BAblica-portuguesa-15
3  Jornal a Democracia, Horta, 14 de Julho de 1928.
4  Correio da Horta, Horta, 28 de Outubro de 1938.
5  Ribeiro, António Hintze, Do chá dos Açores, Livro do Primeiro Congresso Açoriano, 8-15 de Maio, 1938, Lisboa, 2.ª edição, Jornal de Cultura, Ponta Delgada, p. 378.
6  Carta de Caetano Augusto Moniz Jr, Horta, Francisco Canavarro, Ponta Delgada, 21 de Setembro de 1941, cf. UACSD/FAM-ABS-JC/Documentação não tratada, Cx. 175.
7  Correio da Horta, Horta, 6 de Junho de 1946.
8  Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, n.º 12.
9     Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, 1.º Semestre de 1952, n.º 15.
10  Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, 1.º Semestre de 1953, n.º 17.
11  Correio da Horta, ilha do Faial, 24 de Julho de 1951, p.2: ‘Chá Casimiro. Da Casa Casimiro Gonçalves, recebemos uma lata e um pacote de bom chá, produzido nas suas propriedades na freguesia de Castelo Branco. O chá que é de delicioso paladar pode rivalizar com os melhores. Tratando-se de uma indústria faialense, que merece a protecção do público para poder prosperar, aconselhamos a que façam uso diário do delicioso e saboroso chá. Ao Senhor Casimiro Gonçalves agradecemos a oferta de um pacote e uma lata de chá da sua propriedade.’
12 Mail de Clara Estrela Rego a Mário Moura, 19 de Julho de 2019 
13  Testemunho de Henrique Silva, 12 de Junho de 2013: ‘Tenho 64 anos, meu pai comprou a fábrica, que já existia, teria eu uns seis anos, por volta de 1955, durou até 1960-1961. Depois dos Capelinhos, do vulcão, ficámos sem mão-de-obra. A plantação era no Mato da Lombega e a fábrica era numa casa no Alto da Lombega que ainda existe, onde agora mora gente. Era vendido localmente como chá da Lombega.’ Sabe se esta fábrica é a mesma de 1913? ‘Não sei.’ 
14  Mail de Clara Estrela Rego a Mário Moura, 19 de Julho de 2019. 
15  Estatísticas Agrícolas, Continente e Ilhas Adjacentes, 1971, Portugal, Instituto Nacional de Estatística, Lisboa, Serviços Centrais, [1972?]
16  Segunda entrevista por correio electrónico ao Professor Victor Hugo Forjaz, 3 de Dezembro de 2019.
17  Testemunho de Henrique Silva, 12 de Junho de 2013: ‘Tenho 64 anos, meu pai comprou a fábrica, que já existia, teria eu uns seis anos, por volta de 1955, durou até 1960-1961. Depois dos Capelinhos, do vulcão, ficámos sem mão-de-obra. A plantação era no Mato da Lombega e a fábrica era numa casa no Alto da Lombega que ainda existe, onde agora mora gente. Era vendido localmente como chá da Lombega.’ Sabe se esta fábrica é a mesma de 1913? ‘Não sei.’ 
18  Segunda entrevista por correio electrónico ao Professor Victor Hugo Forjaz, 3 de Dezembro de 2019.

Mário Moura

Print
Autor: CA

Categorias: Opinião

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima