Clínicas dentárias reabrem hoje em São Miguel e grande parte aplica taxas adicionais para equipamentos de protecção individual

 Conforme determinou o Governo Regional para São Miguel, depois de uma introdução faseada à “nova normalidade” nas restantes ilhas do arquipélago, dá-se hoje a abertura das clínicas de especialidade, onde se incluem os consultórios  dos dentistas, encerrados há pelo menos dois meses, funcionando apenas para atender casos mais graves e apostando essencialmente nas teleconsultas.
Como explica o médico dentista João Morgado, que abraçouesta profissão há cinco anos, este regresso à normalidade nos consultórios ficará marcado pela existência de várias regras de segurança que têm como objectivo mitigar a propagação do novo coronavírus, nomeadamente a desinfecção das mãos dos pacientes à chegada, bem como o eficaz manuseamento das máscaras sociais.
Nos consultórios médicos em geral, os pacientes devem manter o distanciamento social, até porque será evitada a aglomeração de pessoas nas salas de espera, e devem também chegar sozinhos, “salvo casos excepcionais como o acompanhamento de crianças, idosos, cuidadores informais e pessoas com apresentem limitações físicas e motoras que necessitem do devido apoio”, diz.
Para além disso, explica deve ser ainda evitado o transporte de objectos pessoais desnecessários para o consultório e que possam ser possíveis focos de transmissão do vírus, apelando-se ainda a que sejam evitados “os habituais cumprimentos que envolvam o toque próximo que tão importante é para nós seres humanos, como um beijo ou aperto de mão, mas que nesta fase ainda não será possível”. 
Em relação à equipa médica, João Morgado adianta que toda a equipa clínica, desde auxiliares, recepcionistas e assistentes médicos irão também cumprir este protocolo de segurança que, conforme previsto, inclui a utilização de máscara e/ou viseira e luvas, incluindo ainda um equipamento de protecção individual (EPI) que “será obviamente de utilização única por cada paciente, sendo devidamente substituído no final de cada consulta”.

Clínicas aplicam taxas para 
cobrir despesa com EPI
Uma vez que esta utilização é obrigatória e funciona como “protecção para ambas as partes, para o médico dentista e para o paciente”, e tendo em conta os preços competitivos existentes no mercado para a aquisição de EPI, desta obrigação acaba por resultar uma consequência directa, nomeadamente a aplicação de uma taxa sobre o preço da consulta que, em algumas clínicas, conforme apurou o nosso jornal em contacto com várias clínicas, pode ultrapassar os 20 euros.
Segundo o médico dentista, esta taxa serve “como ajuda para despesas de custo com o equipamento em questão”, salientando que este é “dispendioso e tem custos associados para clínicas e consultórios”, o que terá “reflexos no valor da consulta”.
Porém, apesar das consequências que a aplicação desta taxa terá tanto para os consultórios, que podem assistir a uma forte diminuição do número de consultas,como para os pacientes, que podem deixar de ter condições económicas para ir ao dentista, João Morgado considera importante salientar “que os médicos dentistas não beneficiam desse valor extra”.
Assim, adianta, os honorários dos médicos dentistas irão “manter-se exactamente iguais como dantes, sendo que estes custos vão directamente para despesas de aquisição deste equipamento, essencial à nossa actividade nesta fase”.
Em acréscimo, a utilização deste equipamento “não será agradável nem prática nos dias de calor que se avizinham”, mas tornou-se “um “mal” necessário” tendo em conta a protecção do colectivo, indica ainda.
Por outro lado, e embora se esteja a entrar num “período de maior normalização”, há ainda uma certa dificuldade em adquirir estes equipamentos de protecção individual, refere o jovem dentista, processo este que tem sido complicado “devido à elevada procura e, sobretudo,à necessidade de os podermos adquirir a preços mais competitivos, o que exige tempo de pesquisa e diversos contactos”.
Há, no entanto, conforme apurou o Correio dos Açores, clínicas dentárias que não estão ainda a aplicar a taxa referente aos EPI, reconhecendo que apesar dos “valores exorbitantes” que são agora pedidos pelos referidos equipamentos, não têm coragem para fazer com que os seus pacientes, neste momento delicado, paguem 20 ou mais euros adicionais por uma consulta.
Ainda assim, João Morgado explica que existem muitos factores que irão determinar o regresso à normalidade tal como esta era conhecida nos consultórios médicos, principalmente “o evoluir da situaçãono que toca ao controlo da evolução desta doença”.
Para além disso, é ainda importante que ocorra“a retoma do crescimento económico do nosso país, das questões socioeconómicas, a recuperação da confiança das pessoas na segurança dos tratamentos dentários, bem como o próprio volume de negócio de cada consultório e clínica”, uma vez que estes são também “factores preponderantes para a recolocação do nosso sector em funcionamento”, reforça.

Eventual quebra no número 
de pacientes pode levar 
a agravamento da saúde oral
Porém, ao existir de facto uma diminuição da procura pelo médico dentista, poderá dar-se o agravamento de certas condições, fazendo com que “situações que se poderiam ser detectadas numa fase mais precoce corram o risco de evoluir mais rapidamente e, desta forma, transformar-se num quadro clínico irreversível”.
Caso disto é a Periodontite, diz o jovem dentista, uma vez que“em estágios avançados da doença poderá haver a perda das peças dentárias”, sendo esta uma doença sem cura e que apenas poderá ser controlada.
Deste modo, e apesar de nos últimos anos ser já possível “observar uma ligeira alteração no padrão dos índices de saúde oral na nossa Região, através de uma maior preocupação desde cedo com a saúde oral nas crianças (…), seria de extrema importância facilitar o acesso das pessoas aos cuidados de saúde oral”, afirma João Morgado.
Para isso, refere, seria necessário existir um maior investimento público na contratação de mais profissionais para colmatar essa falha, para que seja possível dar continuidade ao trabalho de sensibilização da comunidade e à organização de rastreios de saúde oral, acções que no seu conjunto permitem melhorar o acesso à informação por parte de crianças e jovens quando à importância da saúde oral.

As consequências no sector 
da medicina dentária
Por outro lado, é necessário não esquecer, refere, que a aplicação do estado de emergência em Portugal a 18 de Março provocou um “impacto negativo na medicina dentária”, uma vez que a 16 de Março os médicos dentistas tomaram a iniciativa “de fazer suspender as suas consultas nas clínicas e consultórios, dado não estarem asseguradas e reunidas todas as condições de segurança para o atendimento aos pacientes”.
Este impacto negativo, esclarece, “envolveu não apenas os médicos dentistas que viram a sua actividade laboral suspensa e reduzida a serviços mínimos de atendimento, como também toda a equipa de profissionais que connosco trabalham, desde assistentes dentários aos técnicos de laboratórios de prótese que ficaram com o seu trabalho obviamente condicionado”, sem esquecer também os pacientes “que tiveram as suas consultas canceladas, suspensas ou adiadas, o que certamente lhes causou um enorme transtorno”.
Porém, “esta foi uma situação anómala que a todos os profissionais apanhou desprevenidos e afectou de um modo severo. Claramente todo este contexto teve reflexos bastante dramáticos nos nossos agendamentos e marcações, nas receitas dos próprios consultórios e clínicas e, por consequência, nas dos seus funcionários”, refere João Morgado. 
No que diz respeito aos impactos que podem existir na profissão nos próximos tempos, sendo de momento impossível prever quando tudo irá regressar à normalidade tal como esta era conhecida, o médico dentista acredita que será possível que venham a existir mais condições de subemprego.
“No futuro não acredito que haja desemprego na área, mas condições de subemprego, e penso que em casos pontuais vai haver um aumento do nível de precariedade. Vai ser necessário fazer mais com menos recursos”, explica, salientando ainda que neste momento a principal preocupação destes profissionais passa por “tentar minimizar os estragos causados, arregaçar mangas e seguir trabalhando com o mesmo nível de dedicação e empenho”.
Por tudo isto, o jovem dentista refere que o futuro da profissão é visto com um misto de “apreensão” e de “esperança”, sendo necessário haver uma “mudança drástica da Medicina Dentária em Portugal” para que os que mais recentemente entraram na profissão “prosperem sem terem que abandonar o seu país, amigos e familiares”.
No presente, resta “readaptar e reorganizar o sector perante as circunstâncias actuais”, adequando-o a uma “nova forma de trabalhar” e que consiste, “em termos práticos, em intervalar mais os períodos entre consultas, diminuir a concentração de pessoas nas salas de espera, readaptar processos e procedimentos de desinfecção de materiais e equipamentos e desta forma poder oferecer os melhores serviços com máxima segurança a quem nos procura e confia a sua saúde oral”, conclui.

                    

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