23 de maio de 2020

Elogio da solidão

Uma realidade incontornável da vida e que o confinamento obrigatório determinado pela pandemia da Covid-19 colocou na primeira linha de atenção, foi o problema da solidão em que vivem seres humanos, nomeadamente daqueles que estão cá na terra há mais tempo.
Não estranhei totalmente esse sentimento partilhado por muitos, mas aflorou-me logo ao espírito a ideia de que um  problema humano grave  das nossas sociedades de massas é o da solidão .
Ora, a solidão é encarada pelas nossas sociedades como uma coisa nefasta, quando ela é fundamental para o ser humano por muitas e variadíssimas razões.
Ora, a solidão é a melhor companheira que se pode ter na vida; o amor, a amizade, nalguns casos especialíssimos podem não durar e de ordinário não mudam, enquanto que a solidão não nos abandona nunca tanto na vida como na morte, que é a solidão radical por excelência.
A solidão não é o abandono quando ela é vista como um caminho para nós mesmos, uma busca para o auto-conhecimento, pois só ela permite a cada um estar consigo mesmo e entrar em contacto com o mais profundo do seu ser, o que na vida social não é possível.
Na multidão, como dizia o Nietsche, “ tu és devorado pelos outros, enquanto que na solidão és devorado por ti mesmo” e não me consta que ele fosse misantropo.
Ao ler várias biografias de personalidades de diversos quadrantes e culturas, de diversos tempos e lugares, fico espantado com as vidas solitárias que muitos levam ou levaram.
A título de exemplo cito o caso do francês Montaigne, que era juiz de profissão e a determinada altura abandonou a carreira de magistrado e isolou-se na torre do seu castelo próximo de Bordéus, em França, onde escreveu os celebérrimos ensaios.
Mas Montaigne teve a sorte que muitos não têm e que foi o encontro com Etienne de La Boétie (autor do livro “A servidão voluntária”), que foi a sua alma gémea (porque eu era ele, porque ele era eu, escreveu Montaigne): o amigo foi levado demasiado cedo pelos deuses infelizmente e ele nunca mais na vida encontrou outro igual.
Para aqueles que são criativos a solidão tem outra virtude: liberta os poderes criativos do indivíduo, os quais são asfixiados pelo turbilhão da vida quotidiana; a solidão revela o criador e a sua capacidade criativa.
Eu amo a solidão que me permite a expressão dos mais íntimos sentimentos e ideias, conferindo-lhes a sua exata medida.
A solidão é a minha fortaleza interior.
Na solidão aproximamo-nos do humus da existência e nela encontramos o abrigo seguro no meio de qualquer tempestade.
Por isso, que cada um abandone os abrigos e desafie os perigos, que cada um ame a sua solidão e dela faça o seu pendão de vitoria na vida.
Do seu cume verás a luz que te há-de iluminar o caminho da salvação.
Se és um peregrino do absoluto então busca-o na solidão imensa do mundo.
 

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Categorias: Opinião

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