23 de maio de 2020

Cesto da Gávea

Univirusidades

A pandemia do SARS-Cov-2, que tanto tem alterado a vida por esse mundo além, quase não havendo área da atividade humana que não tenha sido afetada com graves consequências, continua na ordem do dia pelas piores razões. Não se sabendo ainda como vai evoluir, embora haja esperança no rápido aparecimento de medicamentos antivirais e posterior confirmação de vacinas eficazes, verificou-se uma mobilização generalizada do imenso potencial da investigação científica, hoje dotada de meios tecnológicos incrivelmente poderosos, impensáveis há 20 anos. Na base desta explosão do conhecimento humano estiveram as universidades e os centros de investigação a elas associados, pois não há aplicação do adquirido científico sem investigação fundamental. Aliás, a fronteira entre a investigação fundamental e a aplicada é difusa, acontecendo que numa sociedade onde o capital investido exige lucros seja como for, é comum cair-se no erro de valorizar a aplicação, em detrimento da pesquisa básica. Esta fica para os países mais ricos, que assim conseguem dominar a montante o que os outros vão beber a jusante.
A montante do “rio do conhecimento” estão aa universidades, um universo estimado em 10.000 verdadeiramente merecedoras da designação. Alargando o conceito às IES-Instituições de Ensino Superior, contam-se mais de 25.000 – só na Índia, existem mais de 4.300. Os Estados Unidos têm 3.200 e a China 2.600, mas se estreitarmos o “funil” da qualidade, juntando na noção de universidade a investigação científica e o ensino superior (aquilo que define, desde Alexander von Humboldt, uma “research university”) o número global restringe-se a pouco mais de 1.000. Destas, 40% estão na Europa, perto de 30% na Ásia/Pacífico e 15% nos Estados Unidos, havendo uma concentração das americanas no topo do ranking, onde nas primeiras 10 ficam 2 inglesas e a única “continental” europeia é a ETH-Instituto Federal Suíço de Tecnologia, famoso pelos seus estudos em redes corporativas globais (6º lugar no QS University World Ranking, 2019). Da distribuição geográfica das universidades mundiais, deduz-se que a quantidade nem sempre é sinónimo de qualidade -- embora ajude, por dar maior base ao recrutamento seletivo -- algo que a pandemia em curso veio colocar em evidência de forma dramática na China e na Índia. Dois países de dimensão subcontinental, representando conjuntamente 35% da população mundial, lançam no mercado anual de trabalho milhões de licenciados: em Junho próximo, sairão 9 milhões das universidades e institutos chineses, enquanto na Índia, formar-se-ão perto de 1 milhão de engenheiros. Com os crescimentos económicos da era “pré-covidiana”, o mercado de trabalho sino-indiano absorvia a multidão de mão-de-obra qualificada, realidade que tardará em regressar, provocando tensões sociais e políticas que exigirão muita atenção dos governantes. 
Uma classe média instruída, treinada nas novas tecnologias e na utilização das redes sociais, entrando aos milhões no tecido social, irá provocar muitas dores de cabeça aos autocratas daqueles 2 países asiáticos. Pode ser que no caso chinês, o exemplo de Hong Kong, onde uma juventude educada que se habituou a viver em liberdade mete algum respeito, conduza a um progressivo amaciamento do regime, mas o alargar das liberdades cívicas trará consigo reivindicações de caráter social e político, não se sabendo como reagirá a autocracia instalada, perante tal ameaça. Paralelamente à pandemia do novo coronavírus, há uma outra virose nascida das universidades que deve ser levada a sério pelos dirigentes chineses (e certamente estará a ser, porque Xi e a sua corte não andam a dormir) agora que as fábricas fecham, os mercados financeiros despencam e o futuro da globalização pode mudar rapidamente. Quando a Renault francesa encerra fábricas e despede milhares, a Rolls-Royce britânica vai pelo mesmo caminho e um pouco por toda a parte se fala em recessão, de pouco servirá manter o anterior modelo de deslocalizações, de economia de fortuna, de dependência de componentes importados da Ásia, ou de produtos tecnológicos lá fabricados em condições de concorrência ambiental e social completamente inadmissíveis. Haverá que repensar os organismos de regulação internacional, com destaque para os das Nações Unidas, organizando o mundo em grandes blocos geográficos regionais, obrigados que são os “manda-chuvas” a olhar para a realidade, não para o mundo virtual que criaram. 
Os cientistas americanos e europeus bem aconselham os governantes, mas enquanto a voz do dinheiro soar mais alto, nada será feito. Veja-se a rede portuguesa de Ensino Superior, que funcionaria muito melhor com metade das instituições existentes, mas é utilizada politicamente para um falso desenvolvimento do interior. Várias vezes alertei para esta anomalia, enquanto Reitor da Universidade dos Açores. A rede inglesa de universidades, sofrendo do mesmo mal, vai ser obrigada pela crise pandémica e a estupidez do brexit a encolher à força, podendo fechar ou fundir mais de 30 universidades de menor projeção. São sinais dos tempos, estas “univirusidades”.

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Categorias: Opinião

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