Assinala-se hoje o Dia Nacional da Luta Contra a Obesidade

Perspectiva-se para o futuro uma melhoria na dimensão da obesidade nos Açores, diz o médico João Anselmo

Correio dos Açores - De que forma este dia que hoje se assinala é importante na luta contra a obesidade? 
João Anselmo, (Endocrinologista) - A luta contra a obesidade é um processo contínuo e persistente com objectivos a longo prazo e não no imediato. Mas haver um dia dedicado a esta problemática é não só um reflexo da sua importância, mas também um dia de reflexão. 
É como celebrar o aniversário, preenche e dá uma cor à vida de cada um de nós, mesmo sem alterar o seu curso.

O que dizem os mais recentes dados relativamente à obesidade no arquipélago? Como faz a leitura destes dados?
Os últimos dados foram divulgados no Verão passado. O estudo COSI (Childhood Obesity Study Initiative), que está a ser realizado à dimensão Europeia divulgou a sua 5.ª ronda. 
A primeira foi em 2009 e a última em 2019. Os dados referentes à Região Autónoma dos Açores dão conta de uma prevalência de excesso de peso e obesidade nas crianças da ordem dos 35.9%, isto é, a mais elevada a nível de todas as regiões do nosso país. 
Por outro lado, e quando comparada com a prevalência em 2009 registou-se um decréscimo nos Açores de cerca de 10%, ou seja, a maior queda a nível nacional perspectivando uma melhoria no futuro em relação à obesidade na região.
 
Com os apelos que foram feitos para que a maior parte da população permanecesse em casa durante cerca de um mês e meio, que reflexos pode isso vir a ter na obesidade ao nível dos Açores? 
O confinamento social é algo de novo na história do nosso país. No contexto da actual constituição portuguesa aprovada em 1976, esta foi a primeira vez que foi decretado o estado de emergência e logo por três vezes (45 dias). 
A sua repercussão nos indicadores de saúde está longe de estar estabelecida. Teoricamente, o confinamento domiciliário propicia a inactividade física e o sedentarismo, o que favorece a obesidade. 
Há ainda uma alteração das rotinas diárias nomeadamente do horário das refeições e do ciclo sono-vigília, o que também pode favorecer os maus hábitos alimentares e o ganho de peso. Mas isto são considerações teóricas e na prática teremos que avaliar as consequências.

Para além do gasto de calorias deficitário em comparação com o número de calorias ingeridas, que factores podem estar associados ao aumento de peso num momento como este? 
A obesidade rege-se pelos princípios da termodinâmica, isto é, o que se ingere tem de ser superior ao que se gasta para haver obesidade. Dito de outra forma, e segundo a célebre lei de Lavoisier: nada se perde, nada se cria e tudo se transforma. 
A grande questão são as necessidades individuais de cada um. Pessoas com a mesma actividade física podem ter uma eficiência metabólica muito diferente. Isto é o que confunde as pessoas na vida real.  Porque é que fulano come tanto e não engorda? Depende de factores genéticos e às vezes culturais, porque estas pessoas aprenderam a defender-se, isto é, a comer o que tem menos potencial de se transformar em gordura. 
Isto é também uma aprendizagem e que está a ser fomentada pelos mestres de cozinha, criando ementas verdadeiramente apetitosas mas muito menos calóricas.
 
Que papel desempenha o stress numa situação de pandemia e ganho de peso? 
A verdadeira dimensão da influência dos aspectos psicológicas nesta pandemia está longe de estar estabelecida. O medo do contágio, da perda de recursos económicos, o isolamento, tudo isto pode ter deixado sequelas profundas na nossa sociedade. 
O stress condiciona directamente o funcionamento metabólico, fomenta a ingestão de hidratos de carbono de absorção rápida porque o que está em causa é a sobrevivência e isto sobrepõe-se a tudo. É a resposta natural do ser humano em situações de ameaça. 
Agora quando isto se prolonga por semanas ou meses podemos ter consequências incalculáveis. Uma delas são as informações contraditórias que o nosso cérebro dá ao organismo. Mais calorias, mais energia, mas não se pode reagir, temos que nos manter expectantes. Um paradoxo que sustenta a obesidade nos países em desenvolvimento e também entre nós.  
 
Tendo em conta a dificuldade que alguns pais sentiram para alimentar correctamente os seus filhos nestas últimas semanas, que reflexos pode isto vir a ter na obesidade infantil a nível regional? Esses impactos são já sentidos? 
As dificuldades já existiam mas foram acrescidas com a eclosão da pandemia. Não são tanto pela carência mas pelo marketing e por uma oferta desmesurada de alimentos pobres em nutrientes e ricos em açúcares e aditivos. 
Para filtrar a oferta, só existe uma via que é a educação. Os aspectos punitivos, como os impostos sobre a “fast-food” podem também ser equacionados, mas são uma alternativa de menor eficácia a longo prazo.

O que devem estes pais fazer para evitar que os seus filhos registem um aumento de peso significativo? 
Os pais têm uma tarefa árdua e difícil nos tempos que correm. Ser punitivo ou restritivo pode funcionar no imediato, mas não no longo prazo. A obesidade é, actualmente, um estigma das classes mais desfavorecidas e a sua prevalência decresce substancialmente com a educação e a instrução. 
As pessoas com educação superior têm um terço da prevalência de obesidade do que os que têm apenas o ensino básico.  O papel dos pais é assim assegurar a educação e escolaridade dos filhos e o resto vem por acréscimo, por arrastamento como se costuma dizer.
 
Há estudos que apontam que a obesidade pode ser um factor de risco quando o organismo necessita de combater um vírus como o Covid-19. De que forma as pessoas devem ter isto em conta numa altura em que atravessamos uma pandemia? 
A obesidade é um factor de risco das doenças respiratórias. Está plenamente estabelecido como tal. A restrição respiratória nos obesos e as consequências da obesidade nomeadamente a hipertensão e a diabetes podem facilitar a infecção viral e torná-la mais grave e arrastada. 
Não é por ter mais gordura, mais peso, que alguém resiste melhor. Também ninguém fica mais forte por ter mais peso. São falácias históricas, dos tempos em que a carestia alimentar era generalizada.

Entre aqueles que o procuram, sente que os seus pacientes têm vindo a registar aumentos de peso significativos devido ao confinamento, por exemplo? 
Mantém-se um confinamento relativo na área da saúde pelo que ainda não temos uma visão do que realmente se passou no silêncio dos domicílios durante os últimos meses, em Portugal e um pouco por todo o mundo.

É esta uma das preocupações de quem chega até ao seu consultório ou o eventual aumento de peso é detectado por si durante a consulta? 
O aumento de peso não é a maior preocupação das pessoas nos tempos que correm. Existem outras circunstâncias decorrentes da pandemia que são mais urgentes e valorizadas, como por exemplo o rastreio de doenças neoplásicas e da diabetes.

Qual a evolução do impacto da obesidade em doenças como a diabetes?
A obesidade é o principal factor de risco da diabetes tipo 2 e de facto cerca de 80% dos doentes diabéticos são obesos. Não há volta a dar: mais obesidade mais diabetes. Digamos que isto não é uma pequena vaga que se ergue aqui e acolá. É sim uma vaga de fundo que arrasta milhões de pessoas em todo o mundo.
 
Considera que as pessoas estão conscientes relativamente aos riscos associados ao aumento de peso? 
Estão na medida da sua educação e escolaridade. E isto deve mobilizar-nos a todos no sentido de que as crianças e jovens possam progredir na sua educação, sem restrições e até ao limite máximo das suas capacidades e do seu potencial. 
Os aspectos científicos só fazem sentido quando se tem sentido crítico; os rótulos só fazem sentido para quem sabe ler; o prazer nos alimentos só existe quando não estamos condicionados pela voracidade dos apetites e para isso é preciso ganhar autonomia e não ser um espectador passivo do que a indústria alimentar nos quer impingir. 
As cadeias de fast-food não perdem um momento de propaganda, desta vez serviram refeições gratuitas aos profissionais de saúde e sabemos que não há almoços grátis!

O que de mais relevante tem sido feito nos últimos tempos para melhorar o nível da obesidade na Região?
A obesidade é uma condição multi-factorial por excelência. Digamos que, para o equilíbrio ponderal, convergem factores de ordem física, emocional e social. Nesta altura o que de mais importante podemos fazer pela obesidade é combater a sua progressão social e isto é um problema de organização das sociedades e não tanto um problema científico. 
Trágico é se quisermos transformar a obesidade numa doença medicamentosa, isto é, aumentar os lucros da indústria farmacêutica e da indústria alimentar em simultâneo. Juntas e ao vivo, como dois unicórnios do nosso tempo, atentos às movimentações sociais e económicas e às políticas sociais. 
Os governos e as autarquias estão a reagir, criando vias e ciclovias, zonas de lazer e de exercício físico; piscinas, estádios, pavilhões desportivos etc.; fomentando os clubes desportivos, as maratonas, o ciclismo e tantas outras modalidades; os professores, os médicos e todos os profissionais de saúde estão a incentivar o exercício quase como prescrição, como obrigação de bem-estar. Os resultados vão aparecer… sem se dar por isso e sem dramas.

                                                 

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