Rabo de Peixe reconhece que máscaras sociais são importantes mas casas com famílias numerosas são penalizadas

Desde Quarta-feira que está a ser feita em Rabo de Peixe a distribuição das máscaras sociais prometidas pelo Governo Regional. Uma pequena embalagem com três máscaras laváveis e reutilizáveis, com instruções de utilização e de lavagem de acordo com as especificações técnicas da Direcção Geral da Saúde e do Infarmed-Autoridade Nacional do Medicamento e Produtos de Saúde. Uma medida anunciada em meados de Abril mas que só agora começa a chegar aos restantes concelhos de São Miguel, depois do Nordeste ter sido o primeiro a receber estas máscaras. 
A distribuição foi feita pela Junta de Freguesia de Rabo de Peixe que alocou 14 pessoas, devidamente protegidas, a esta operação que vai percorrer as ruas da Vila até hoje, Sábado. Apesar da medida que a população reconhece ser necessária, muitas foram as críticas de quem vinha à porta para receber o pequeno pacote. Principalmente por considerarem vir “tarde. Praticamente quando já não há casos é que temos as máscaras”. Mas também porque foram apenas distribuídas três máscaras por cada habitação e “há muitas casas que têm várias famílias a morar juntas”.
Com grande alarido, a população foi reivindicando com quem fazia a distribuição. Perante tanta azáfama apenas era pedido que fosse informada a Junta de Freguesia no dia seguinte, para se saber quantas famílias viviam na mesma casa, para que se tentasse encontrar uma solução. 
A distribuição das máscaras foi feita a partir das 19 horas, para garantir que a maior parte da população se encontrava em casa, mas mesmo assim houve quem não respondesse à porta e foi necessário deixar um pequeno papel informativo, indicando que a família se dirigisse à Junta de Freguesia para receber em mãos as suas máscaras. 
Este não foi o caso de Milton Vieira que atendeu à porta para receber a sua embalagem e apenas comentou que sendo a família composta por quatro pessoas aquelas máscaras iriam ser úteis para ir intercalando com outras, cirúrgicas e sociais, já adquiridas pela família. “Era para terem vindo mais cedo”, explicou ao acrescentar que fazem sempre falta nestes tempos que correm e agora que mais serviços e comércio vão abrir portas. 
Mais abaixo, Ugolina Soeiro também disse não estar à espera das máscaras sociais distribuídas pelo Governo Regional para começar a sair de casa, já que agora a entrada em qualquer serviço ou transporte público obriga ao uso de máscara. Aliás, Ugolina confessa que, sendo costureira, foi a si que muitas famílias de Rabo de Peixe recorreram para que as ajudasse com as máscaras. “As pessoas começaram a perguntar-me por máscaras e eu comecei a ver na internet como se podia fazer máscaras porque as pessoas precisavam. Comecei a fazer há uns 15 dias e a primeira semana foi uma loucura, era muito preciso, porque principalmente os pescadores precisavam para ir para o mar”, conta.
Com os devidos cuidados de segurança e higiene, Ugolina Soeiro diz que “acudia como podia” e ainda continua a fazer. Quando entrega os pequenos pedaços de tecido sempre vai lembrando e prevenindo “que as pessoas devem ter muito cuidado. Porque embora o vírus esteja mais calmo aqui, é preciso que as pessoas se cuidem. Mas cada um é responsável, não só por si, mas também pelos outros”. E diz que no geral tem notado esses cuidados por parte da população. Há sempre alguém que não tem tantos cuidados como os homens que ficaram estes meses todos sem trabalhar e que poderão ter estado menos preocupados com o distanciamento social e ajuntamentos “mas a polícia andou sempre a precaver e a mandar para casa. Agora as famílias, sinto que tiveram cuidado. Até as crianças”.
Numa outra rua, estalou a polémica. Famílias mais populosas, habitações com vários casais, “falta de dinheiro para poder comprar” máscaras para cada um, e a reclamação que “vêm tarde” para quem precisa de se proteger. 
Luís Penacho e Idelta Penacho têm nove pessoas a viver na mesma casa, entre filhos, genros, noras e netos. “A quem vou dar três máscaras?”, questiona Idelta ao que o marido acrescenta que devia haver informação concertada entre o Governo Regional e as Juntas de Freguesia “que é quem sabe quantas pessoas vivem numa casa” e adequar o número de máscaras a distribuir. Luís Penacho dá conta que “há casais que não têm hipótese de comprar. Quem tem 10 a 12 pessoas numa casa, três máscaras não serve para nada, e de um lado podiam tirar para outro. Casas que tenham hipóteses de comprar não deviam ter, porque aqueles que têm mais necessidades deviam ter. Há casas aí que não têm hipótese de comprar, que têm quem não trabalhe e quem vive de uma reforma”. 
Aquelas três máscaras vão ser úteis porque são reutilizáveis, mas a família desde cedo procurou proteger-se “porque sabíamos que este vírus era uma coisa perigosa”. Além das máscaras comparam também desinfectante, para usar quando se entra e sai. “Já não vou para a cidade há três meses, tenho medo de ir na camioneta”, refere Idelta Penacho que reconhece que há quem leve a perigosidade do vírus na brincadeira. 
Pensamento semelhante tem Rúben Faria que diz que apesar de “nem todos terem o mesmo pensamento”, a maior parte da população está a cumprir com as recomendações das autoridades de saúde. Da sua parte, como trabalha no comércio cedo teve de se proteger e por isso já tinha máscaras suas, mas acha boa a medida do Governo Regional distribuir máscaras sociais pela população. “Já devia ter sido mais cedo e acho que vão ser suficientes, porque temos muita população e dar uma máscara a cada pessoa sairia muito caro. Mas se este vírus se mantiver, deviam dar mais máscaras para abranger toda a gente”, explica Ruben Faria.
Vanessa Vieira diz que para a sua casa as três máscaras são suficientes mas aponta para a vizinha da casa de cima, onde vivem 15 pessoas, “e estas máscaras não dão para nada”. Especialmente porque se trata de “pessoas que não têm possibilidade de comprar e são pessoas de idade”. No seu dia a dia, Vanessa Vieira diz que a pandemia veio trazer alterações. Começou a usar máscara quando sai à rua, lava as mãos várias vezes ao dia, usa desinfectante nas mãos e também em casa, “como acho que toda a gente tem feito”. 
Também José Paulino diz que as mãos são “desinfectadas pouco a pouco” e a máscara agora faz parte da sua indumentária já que é obrigatório quando tem de ir “a algum sítio porque agora é obrigatório”. Mas “quando venho para fora, tiro logo a máscara que não consigo estar muito tempo com ela”. 
Quanto à embalagem agora entregue “não vai dar” para as sete pessoas que vivem na sua casa. “Na minha maneira de ver, deviam dar pela quantidade de pessoas que moram dentro da casa. Agora, eu tenho quatro casais, pequenos de 10 e 11 anos como vai ser? Não podemos partilhar as máscaras”, questiona sem saber como vai ser quando for tempo de regressar à escola. 
E chegam a tempo? “Já tinha morrido se estivesse à espera destas máscaras. Em vez de ser a Covid-19, já tinha era a Covid-39. Chegaram as máscaras quando está tudo quase a acabar. Esperemos que sim”, diz com boa disposição. 
Do mesmo mal se queixa Carla Cabral que com 12 pessoas a viver na mesma casa não sabe como as vais distribui já que a mãe tem doenças associadas e precisa de máscara quando sair de casa. “Dizem que não podem dar mais do que uma por casa, mas isso não dá para nada”, argumenta ao acrescentar que teve de comprar máscaras para toda a família já que demoravam a chegar. 
Da parte da Junta de Freguesia, Jaime Vieira refere que a distribuição de máscaras sociais pela população é uma medida importante, no entanto, reconhece que Rabo de Peixe é uma Vila “com especificidades próprias em que cada habitação pode ter duas ou três famílias”. Por isso vai tentar que haja um reforço de máscaras na Vila para chegar a todos. “Se tivermos capacidade de dotar todas as famílias de máscaras e se tiverem consciência que é importante tomar precauções, com conhecimento e ferramentas próprias, não seremos diferentes dos outros e iremos fazer com que em Rabo de Peixe continuemos a ter zero casos”, refere.
De uma forma geral, explica o Presidente da Junta de Rabo de Peixe, a população tem cumprido com as indicações da Autoridade de Saúde. “Há sempre uma pequena percentagem que pode não cumprir, mas estamos a falar de 9 mil pessoas. Estou orgulhoso das pessoas porque fizeram aquilo que pedimos, que era proteger-se”, conclui Jaime Vieira.
    
 

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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