Irina e Alexandra Pires, naturais de Água de Pau

A “incrível aventura” de duas irmãs de São Miguel que decidiram tirar curso de medicina em simultâneo na Letónia

 Numa decisão tomada um pouco por impulso, conforme escrevem, Irina e Alexandra Pires, duas irmãs, acabaram por mudar toda a sua vida de São Miguel para a Letónia, onde hoje se preparam para concluir o curso de medicina em conjunto, apesar dos sete anos que as separam e que as colocam, por vezes, em fases da vida um pouco distintas.
Apesar de ambas terem nascido em Lisboa, por conta da costela pauense da mãe acabariam por, ainda em criança, regressar à ilha de São Miguel, onde viveram juntas “uma infância muito feliz” e onde acabaram por estudar até darem início, em Janeiro de 2015, a esta “excitante e incrível aventura”.
Aliás, conforme escrevem, quando decidiram passar por esta experiência juntas e rumar a um dos países que é banhado pelas geladas águas do Mar Báltico, partiam as duas “com experiências de vida bem diferentes”. Isto é, enquanto Alexandra Pires tinha já concluído o curso de Medicina Dentária, chegando até a exercer durante dois anos, Irina Pires tinha finalizado muito recentemente o ensino secundário na Escola Secundária Antero de Quental.
Inicialmente, contam, o curso de medicina era o sonho de apenas uma das irmãs. No entanto, o objectivo era prosseguir os estudos nesta área numa das universidades portuguesas, e por isso a opção de ingressarem as duas no mesmo curso em simultâneo nunca fez parte dos planos.
“Esta é uma história engraçada, porque foi uma decisão impulsiva (agora ou nunca) e nós não combinámos, de todo, irmos juntas. Aliás, a ideia inicial era a de a Alexandra participar num programa de Cirurgia Maxilo-facial e a minha era a de ingressar em Setembro no ensino universitário em Portugal. Estávamos longe de imaginar que iríamos partilhar este percurso juntas, mas estamos muito gratas pela forma como tudo se desenrolou”, conta Irina Pires.
Quanto à escolha do curso, indicam, para além de ser um sonho de uma das irmãs, esta ocorreu também por terem sido, desde sempre, “rodeadas pelo mundo fascinante da Medicina”, aspecto que as permitiu “ver bem de perto qual é a realidade de ajudar, o que implica e os sacrifícios que têm que ser feitos, mas também a beleza entre o genuíno contacto humano”.
Actualmente, aproximam-se em conjunto do último semestre do curso, cujo final se espera em Janeiro de 2021, depois de todos os alunos passarem por um exame chamado de “State Exam” que, segundo as irmãs, deverá colocar em prova em apenas três dias tudo aquilo que aprenderam ao longo dos últimos seis anos.
Neste percurso marcado por diversas aprendizagens, quer a nível estudantil quer a nível pessoal, Irina e Alexandra Pires salientam que o facto de se terem uma à outra ajuda-as a ultrapassar os momentos de maior saudade da ilha, de casa e da família, uma vez que “ter uma irmã ao lado é ter um pedaço de casa que nos alenta”.
Para Alexandra Pires os valores religiosos, o orgulho no país em que nasceu e as raízes familiares são “cruciais” na sua vida, e é por isso que “a palavra saudade, que é tão portuguesa, ganhou um novo tom” perante este desafio que “requereu persistência e força de vontade”.
Ainda assim, apesar das dificuldades diárias que podem surgir para todos os estudantes que, de uma forma geral, apostam em países que não o seu para prosseguirem estudos, a ex-dentista afirma sentir-se “abençoada todos os dias por ter tido o apoio da minha família na minha decisão, e de poder partilhar a experiência junto da minha irmã”, sentimento este que é também partilhado pela irmã mais nova.
Apesar de ter sido sempre uma possibilidade, tendo em conta as opções profissionais de ambas, as irmãs adiantam que “nunca é fácil deixar a ilha”, e é este sentimento que as permite apreciar cada vez mais as características únicas do arquipélago em que cresceram.
“Cada vez que partimos apreciamos ainda mais a beleza natural que os Açores detêm, a genuinidade das pessoas e a autenticidade da nossa cultura insular. Como um conterrâneo nosso, Daniel de Sá, dizia: “sair da ilha é a pior maneira de ficar nela”, e realmente é, porque fica sempre um grande pesar dentro dos nossos corações de deixar o conforto do nosso lar e, em especial, a nossa família”, afirmam.

A Letónia e a sua “timidez”
Já na Letónia, que conta com um carregado passado histórico, sendo este um país que apenas conseguiu a sua independência no início da década de 90 depois de ocupado por países como a Suécia, a Alemanha e a União Soviética, o maior desafio das irmãs passa por se adaptarem às diferenças culturais e à “timidez letã”, como caracterizam.
Esta timidez colectiva, marcada pelo passado do país que fez com que o povo fosse “obrigado a conter a sua cultura, as suas tradições e até a sua língua”, resulta em “interacções sociais bem mais contidas” quando em comparação com Portugal, resultando por exemplo num grande silêncio em locais que são, por norma, barulhentos, como no caso dos transportes públicos, contam.
Para além disso, em comparação com Portugal continental e com os Açores, destacam a “gastronomia absolutamente diferente” e o facto de os letões serem “um povo bastante organizado e orientado para o trabalho. Creio poder dizer que são pontuais como os ingleses, organizados como os alemães e focados como os suecos”, diz Alexandra Pires.
O clima por si só foi também um grande desafio para as duas irmãs, que incluiu aprenderem uma nova forma de se vestirem com o auxílio de camadas de roupa para assegurar que se mantêm quentes nos Invernos rígidos: “Logo no início uma amiga norueguesa introduziu-nos à ideia de “onionlayers” e ela sendo de um país com -30 graus Celsius no Inverno não nos deu alternativa senão seguir o conselho”, dizem.
Já no que diz respeito ao curso em si, o maior desafio apresentou-se para Alexandra de imediato na primeira aula de Anatomia, onde para além de se depararem de imediato com um teste sem terem discutido a matéria, toda a arquitectura do edifício onde esta se realizou “obrigava a uma vénia de respeito”.
Já para Irina, como o curso é internacional, o maior desafio – pelo menos inicialmente – deu-se ao “interagir com tantas nacionalidades diferentes ao mesmo tempo” algo que, no entanto, considera “uma mais-valia” que lhe proporcionou “uma visão mais completa do mundo”.
Em geral, afirmam, “esta aventura não é composta por apenas um grande desafio, mas sim de vários pequenos desafios. Somos abençoadas por nos termos uma à outra e amigos das mais diversas culturas. Todos os dias aprendemos algo novo e isso é maravilhoso”, dizem.
Pensando nas especializações pelas quais poderão optar, embora ainda não tenham tomado esta decisão de forma definitiva, Irina e Alexandra Pires indicam que em primeiro lugar pretendem dedicar o seu tempo à Medicina Interna e à Cirurgia, sem descuidar também a importância da Psiquiatria.
Entre os desafios que são estendidos de momento à comunidade médica um pouco por todo o mundo, nomeadamente com a propagação do Covid-19 e com o papel que os profissionais representam de respectiva mitigação deste vírus, as irmãs elogiam a forma como o país consegue controlar o vírus.
“De acordo com os dados da Organização Mundial de Saúde, a Letónia está entre os países europeus com menos casos de infectados. A Letónia entrou em estado de emergência a 23 de Março e desde então as fronteiras entre os estados bálticos estão fechadas e o tráfego aéreo condicionado.
O comércio não fechou, apenas ficou com horário reduzido, à excepção de supermercados e farmácias. As consultas externas foram interrompidas nos hospitais públicos, as cirurgias electivas foram adiadas e em geral as pessoas têm-se demostrado com consciência civil e respeitam as leis de distanciamento social”, dizem.
Enquanto futuras médicas, este período vem “relembrar a importância da educação quanto à higiene e certamente aumentou o “self-awareness” e a consciência social”, e também que “a Saúde Pública não é só importante agora, mas sim sempre”.
Já no que diz respeito à Humanidade de uma forma geral, na opinião de Irina e de Alexandra Pires, esta pandemia “mostrou ser um desafio à essência e instinto humanos, valorizando a saúde e o contacto físico”, ensinando também que, “por vezes, a Natureza é mais forte do que o Homem e do que a Ciência”, concluem.

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