Vítima de Covid-19 faleceu uma senhora por quem o Pároco tinha muita estima

“Vi as Furnas como nunca imaginei ver um dia”

As primeiras comunidades que serviu foram na ilha Terceira, onde esteve durante seis anos, nas paróquias da costa norte, Biscoitos, Quatro Ribeiras e posteriormente, Raminho e Altares. Em 2009, foi colocado nas Furnas e na Ribeira Quente.
Nas Furnas já está há uma década e é a colocação mais longa que teve até agora como padre.

Como viveu os dias de confinamento devido à Pandemia do Covid-19?
“Em casa, tal como todos os cidadãos e, a certa altura, em isolamento total devido à cerca sanitária decretada ao Concelho da Povoação.
Procurei permanecer tranquilo e sentindo, ainda mais, a profunda solidão que vem do facto de ser padre. Aproveitei para rezar mais, para ler, ver televisão, falar com a família, amigos mais próximos e fazer exercício físico. Claro que, apesar das celebrações não estarem abertas à participação dos fiéis, as paróquias e os centros sociais não estiveram totalmente inoperantes. Pontualmente, com a ajuda de vários voluntários, foi necessário ir resolvendo questões mais urgentes.
Foi uma oportunidade não procurada, mas forçada, para fazer um grande retiro. Celebrava a Missa de manhã e aquilo que proponha aos meus irmãos das paróquias que sirvo, tentei e procurei fazer eu mesmo: abracei o silêncio, esforcei-me por fazer da casa onde vivo uma pequenina e muito pobre «igreja doméstica», uma vez que vivo só, mantendo-me actualizado através dos meios de comunicação social ao nosso dispor”.

Sentiu a população preocupada, ou nem por isso?
“Sim, bastante preocupada num primeiro instante. No Concelho da Povoação, infelizmente, algumas pessoas foram infectadas com Covid-19. Nas Furnas, faleceu a senhora Angelina por quem tinha muita estima, vítima desta doença. Assisti a um grande exercício de cidadania responsável por parte de quase toda a população. Vi as Furnas como nunca imaginei ver um dia: deserta, sem turismo, sem vida”.

Religiosidade nem sempre é sinónimo
de Cristianismo

As missas foram suspensas e muitos colegas seus aderiram às novas tecnologias para transmitir algumas celebrações. O que pensa desta nova realidade?  
“Faço parte do grupo dos que não aderiu às celebrações utilizando as novas tecnologias. Tenho consciência de que fui bastante criticado em vários meios por esta decisão e por ter tido a ousadia de manifestar a minha opinião pessoal. Não tenho nada contra quem seguiu este caminho pastoral, mas a minha opinião mantém-se uma vez que já existia uma boa oferta de celebrações dignas no seu conteúdo e liturgia, graças aos vários canais televisivos. Aproveitar as celebrações já habituais nos meios de comunicação social em vez de me desdobrar em celebrações foi a postura que adoptei desde o início. Achei e continuo a achar que foi um exagero de Missas, terços, adorações eucarísticas, vias-sacras. Nunca fui adepto de habituarmos as pessoas a manterem-se no passivismo de simplesmente «assistir». Bombardeamos as pessoas com tantos actos de piedade como se não soubessem rezar e como se dependessem do clero para o fazerem, em vez de termos aproveitado a situação para incentivar as famílias a serem líderes nos seus lares. Desta forma, acabamos por promover, uma vez mais, o infantilismo. Sei que vão dizer que as pessoas gostam mais da Missa do «seu padre» e na «sua igreja». Graças aos bons professores que tive no Seminário, não vejo a Eucaristia como um acto pessoal, mas como um Mistério onde qualquer sacerdote, em qualquer lugar, celebra «in persona Christi». Isso precisa ser ensinado aos fiéis ou corremos o risco de voltar ao tempo em que uns eram de Pedro, outros de Apolo, outros de Paulo e poucos de Jesus Cristo (1Cor 3, 4)
É facto que fomos todos apanhados de surpresa, mas foi pena os pastoralistas, os liturgistas e os teólogos das dioceses não se terem reunido para elaborar um guião com substância bíblica e menos devocional, destinado a celebrações que pudessem ser feitas nos lares. É mais fácil assistir do que presidir e ser um interveniente activo. Volto a dizer, não estou contra ninguém e admiro os colegas pelo seu trabalho e dedicação. Faço até votos para que este «fervor» pastoral continue quando as celebrações voltarem a ser presenciais.
O defeito é meu, mas não acredito de velinhas, imagens a percorrer ruas e afins nos torne mais cristãos. Religiosidade nem sempre é sinónimo de Cristianismo. Repito, não estou a desvalorizar o trabalho de ninguém, eu é que me estou a colocar em causa. Acredito que a fé deva estar mais racional do que sentimental. Também aos 41 anos já estou demasiado velho para «prostituir» a minha consciência e maneira de pensar. Se no final de tudo isso, as paróquias que apostaram nessas transmissões ficarem melhores, mais bem formadas e esclarecidas que as outras, eu rendo-me. É a minha opinião, não é um ataque a ninguém. Temos de aprender a discutir mais as ideias e menos as pessoas...”.

A retoma económica faz-se paulatinamente, mas trará dificuldades às famílias. Como poderá a Igreja atenuar essas dificuldades?
 “Como pároco das Furnas preocupa-me bastante o impacto que esta crise terá nesta comunidade que vive maioritariamente do turismo, restauração e hotelaria. Mais uma vez, serão os mais pobres e a classe média a sofrer mais. As instituições e movimentos paroquiais ligados à prática da caridade já estão em alerta e sensíveis para o que aí vem. Os Impérios do Divino Espírito Santo, secularmente ligados à prática da caridade e da partilha poderão ter, se para isso estiverem disponíveis, um papel importante. Será necessário que todos colaborem e trabalhem unindo esforços. Nas comunidades mais pequenas, a solidariedade de vizinhança, que é uma força invisível, mas bastante eficaz, será fundamental”.

Retoma dos cultos e cerimónias
no fim-de-semana de Pentecostes

Já recebeu indicações para a retoma gradual de culto e cerimónias?
“Sim, as comunidades da Ilha de São Miguel estão a preparar-se para retomar, seguindo as indicações das autoridades de saúde e eclesiásticas, no fim-de-semana de Pentecostes. Esta semana reunimos para estudar os documentos dirigidos às paróquias e encontrar vias eficazes de cumprir escrupulosamente as orientações”.

Ansioso pelo regresso das eucaristias?
“Evidentemente. A celebração da Eucaristia em cada domingo faz-nos ter a noção de que pertencemos a uma família mais alargada que não se forja no sangue, mas na fé em Jesus Cristo. Já tenho saudades de estar com todos os meus irmãos. Em cada Domingo, quando nos reunimos na casa da Igreja, partilhamos com os outros a Palavra de Deus, o Pão da Vida e o nosso tempo. A comunidade fica muito mais pobre sem esta partilha e sem se reunir. O simples facto de nos vermos, mesmo sem nos tocarmos, será uma alegria”.

As celebrações serão feitas com os fiéis dispersos pelos bancos. Não deverá haver, por exemplo, o habitual cumprimento das pessoas durante as missas. Um mal menor, digamos assim, porque o mais importante é ouvir a mensagem. Concorda?
“Sim, concordo. Sei que o toque é muito importante na manifestação dos afectos, no entanto, neste momento, não será possível como também não será possível, outros hábitos, a que estávamos acostumados quer na liturgia como na nossa vida social e familiar. Terá de bastar o saber que estamos juntos e reunidos em comunidade”.

Esperançado em relação ao futuro?
“Espero o mesmo que toda a gente: que esta crise sanitária passe depressa e não deixe muitas mais marcas negativas do que aquelas que, infelizmente, já deixou em tantas famílias. Quanto ao resto, acredito que o futuro será o que semearmos no presente. Não acredito no “milagre do futuro melhor” se não formos melhores pessoas no imediato. Com esta crise foi possível assistir ao melhor e ao pior das pessoas. Por isso, não acredito que o mundo se torne num paraíso depois desta crise, acredito sim que a realidade não muda de um momento para o outro e que cada um é chamado a ser o obreiro de pequenas mudanças”.

Que mensagem gostaria de deixar a todos os fiéis e leitores do nosso jornal?
“Agradeço, antes de mais, o convite que me foi endereçado pelo Correio dos Açores, na pessoa do jornalista Marco Sousa e a paciência dos estimados leitores. A partilha aqui feita é bastante pessoal e despida de máscara. Por isso, reforço a ideia anteriormente partilhada: é óptimo que nos preocupemos com a transformação do mundo e sonhemos com um futuro melhor. Desde que não seja uma desculpa para deixarmos para depois a nossa própria mudança. No dia em que formos melhores pais, filhos, irmãos, profissionais, cidadãos, cristãos, enfim... Seres humanos, já o mundo terá começado a ser melhor”.

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