29 de maio de 2020

Carta Aberta - O tudo de uns é o nada de outros

Tenho pena, tenho mesmo muita pena, que sejam sempre os mesmos os parentes pobres do sistema, que se queira poupar sempre à custa dos mesmos, que se exija que as coisas corram bem sempre contando com a boa vontade, a disponibilidade, a motivação, a flexibilidade, a criatividade, a determinação, a generosidade, a empatia, o respeito, a liderança, o comprometimento, a paciência, a capacidade de adaptação, a justiça, a equidade na diversidade, o bom senso, a coerência, a otimização, a reflexão, a análise, o espírito de sacrifício, os recursos, esticando a corda até ao limite...
Assume-se como certo, desde sempre, embora não esteja escrito em contrato algum, nem exista qualquer tipo de protocolo, nem tenha sido feita qualquer negociação, que os docentes devem e têm de comprar o material que necessitam para trabalhar, passo a explicar:
- o professor compra, com o seu dinheiro, todo o material de uso corrente que necessita para preparar as aulas e para lecionar (cadernos, lápis, borracha, esferográfica, dossiers, etc.);
- o professor, quando sente necessidade de possuir mais alguns recursos, nomeadamente livros, para melhor preparar os seus alunos para os momentos de avaliação ou para o exame, encomenda-os e paga-os do seu bolso;
- o professor, tantas e tantas vezes, por motivos diversos e variando de escola para escola, imprime em sua casa aquilo que necessita para usar nas aulas com os seus alunos; alguns, até, adquirem uma plastificadora e as respetivas folhas para conseguirem garantir a reutilização e durabilidade de alguns desses recursos;
- o professor que leciona disciplinas que pressupõem a utilização de calculadora gráfica tem de tratar de adquirir uma; e, se o ensino à distância se mantiver, para além deste ano letivo, convém começar a pensar em encomendar uma mesa digitalizadora;
- o professor, no desempenho das suas funções, trabalha cada vez mais com recursos e plataformas digitais, no entanto, as escolas não têm computadores para os docentes trabalharem fora das suas aulas (às vezes nem têm para trabalharem durante as aulas). Assim, cada docente tem de possuir um computador portátil, que leva para a escola, todos os dias, para conseguir cumprir com aquilo que lhe é exigido;
- o professor tem de ter ligação à internet em sua casa, pois não há hora para “desligar” da escola, trabalha fora de horas, recebe mails oficiais fora de horas e envia mails oficiais fora de horas; - o professor, muitas vezes, utiliza o seu telefone ou telemóvel pessoal para contactar com os pais e/ou encarregados de educação dos seus alunos, disponibilizando o seu contacto para que estes o possam fazer no sentido contrário;
Estes são alguns exemplos que comprovam que os professores são os únicos funcionários públicos que têm que levar para o seu local de trabalho as ferramentas que necessitam para exercer a sua profissão (quem parar em frente a uma escola, antes da hora do início das aulas, até poderá pensar que está junto de uma aerogare, pois há quem faça viagens de alguns dias com menos bagagem do que a quantidade de coisas que os docentes levam diariamente para a escola). A verdade nua e crua é que se o ensino à distância funcionou, e continua a funcionar, foi, e é, à custa dos recursos que os docentes têm nas suas casas, adquiridos e mantidos pelos próprios.
Para além do referido acima, existem alguns casos em que um professor quando chega de novo a uma escola é informado que terá de lecionar em diferentes polos dessa unidade orgânica, não existindo horários dos transportes públicos que permitam fazer, por essa via, as necessárias deslocações; note-se que, quando concorreu, não fazia parte dos requisitos ter carta de condução e possuir viatura. Os outros funcionários públicos fazem as suas deslocações em serviço nas viaturas oficiais, tendo alguns, até, direito a condutor.
Aquilo que muitos pensam, e que poucos contradizem, é que os professores ganham muito bem e têm muitas férias. Sobre isto, também tenho algumas coisas a dizer. Vou falar do meu caso concreto, servindo como exemplo para o leitor perceber o que se passa com milhares e milhares de professores deste país:
- os professores nunca trabalharam tanto, nunca lhes foi exigido tanto como nos dias que correm (não estou a falar das mudanças radicais que vivemos nos últimos meses, em consequência da pandemia que assola o mundo, e para as quais tivemos de dar resposta num tempo recorde), no entanto, estou a receber o mesmo que recebia há 18 anos, tendo durante algum tempo deste período recebido ainda menos. E não, contrariamente àquilo que se julga, não há professores a ganhar milhares de euros por mês;
- no ano letivo transato, contabilizei 80 horas passadas em reuniões, após o horário letivo normal da minha escola (tenho-as todas anotadas no meu caderno, um daqueles que uso em trabalho e foi comprado com o meu dinheiro...); cumpre-me aqui esclarecer que estas horas não são pagas nem como horas extraordinárias, nem de qualquer outra forma, e não incluem o restante trabalho realizado para a escola, pela noite dentro e aos fins-de-semana; imaginem, não é o meu caso, as dificuldades e angústias por que passa uma professora que se encontra colocada numa escola, longe dos restantes familiares, e que tem consigo filhos pequenos;
- sou coordenadora de departamento curricular (não me disponibilizei para o efeito, não votei em mim e não posso recusar o cargo) e recebo uma gratificação por exercer essa função; devido a esse acréscimo no meu vencimento base, subo no escalão do IRS, e aquilo que realmente recebo a mais por esse cargo corresponde a 42% do valor dessa bonificação; registei, também, todas as horas que trabalhei por conta do departamento, durante dois meses, não contando os contactos informais com colegas que são realizados frequentemente, e, através de uma básica regra de três simples, cheguei à conclusão que cada uma dessas horas foi paga pela módica quantia de 3,85 euros (esta remuneração é inferior ao valor pago por hora de trabalho de um funcionário público que receba o ordenado mínimo). Aqui, tenho de abrir um pequeno parêntesis: acho absurdo, para não dizer indecente, que um “técnico superior”, após 5 anos a estudar numa universidade, seja remunerado desta forma e questiono-me, com muita frequência, se valerá a pena pagar cursos superiores aos nossos filhos, nestas condições.
Estivemos a “desbravar terreno” durante quase dois meses no ensino à distância e, no meio de muita angústia e noites mal dormidas, conseguimos chegar a um patamar satisfatório nesta nova e tão diferente modalidade. Neste momento, regressamos todos à escola gerindo as incongruências que nos foram impostas pela tutela, no meio de evidente desnorte. Recebemos fortes recomendações para cumprirmos o distanciamento social, para fazermos a higienização frequente das mãos e cumprirmos com as regras da etiqueta respiratória. Para além destes cuidados, temos de usar máscaras. E é de máscaras que quero falar... Pois bem, no primeiro dia de aulas deste retorno à escola, dia 11 de maio, recebemos duas máscaras laváveis, numa embalagem que continha, também, um panfleto com as instruções de lavagem e utilização das mesmas. Com a primeira lavagem, à mão, antes ainda da primeira utilização, uma das máscaras que me deram começou a desintegrar-se, ou seja o TNT, que deveria funcionar como filtro fixo no interior da máscara, começou a apartar.
Afinal, entregaram-me máscaras de qualidade duvidosa! Nas instruções, era também referido que as máscaras não devem ser utilizadas mais do que 4 horas seguidas, devem ser lavadas após cada utilização e usadas bem secas. Isto é gozar com a nossa cara! Num dia em que tenho aulas de manhã, à tarde e tenho uma reunião ao final do dia, como aconteceu na segunda-feira passada, tenho de utilizar, no mínimo, 3 máscaras.
O meu serviço entregou-me duas (mesmo havendo dias em que necessito de 3), que tenho de usar sempre que estiver no interior da escola, que devo lavar e secar para utilizar no dia seguinte. Esta é a prova de que as máscaras fornecidas na minha escola, e é da minha escola que falo, não foram em quantidade que permita o seu uso em exclusivo dentro das instalações escolares e muito menos obedecem aos padrões de qualidade recomendados. Mais uma vez, está o sistema à espera que os professores comprem os acessórios que necessitam para trabalhar. Mais uma vez, verificamos que nos outros serviços públicos são fornecidas máscaras descartáveis aos funcionários.
Será que alguém ainda pensa que a educação “pesa” muito nas contas do estado? Se as escolas tivessem as mesmas condições que os outros serviços, o estado teria muitos mais, mas mesmo muitos mais, encargos com a educação!
Estou a trilhar o 25º ano da minha carreira profissional e gostei da escola desde o primeiro dia em que nela entrei, já lá vão 41 anos. Neste momento, estou cansada e farta e só me apetece mudar de vida. Pior do que estar exausta, é sentir a ingratidão, o abandono e o desrespeito...

Rosa Maciel
Professora de Matemática do
3º Ciclo e Ensino Secundário
da EBS das Flores

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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