D. Aurélio Granada Escudeiro: nos cem anos do nascimento de um Bispo memorável

Ocorre hoje, dia 29 de Maio, o centésimo aniversário do nascimento de D. Aurélio Granada Escudeiro que foi Bispo da Diocese açoriana de 1974 a 1996. Nascido em 1920, na Vila de Alcains, no Portugal profundo de interioridade, (também berço do general Ramalho Eanes), foi ordenado sacerdote em Portalegre, no dia 17 de Janeiro de 1943, e celebrou  missa-nova na sua terra natal a 24 de Janeiro daquele ano. Foi seguidamente pároco em Gavião e Ortiga (1943-1944) e em Mação (1944-1948). Falava bastantes vezes na sua experiência de pároco, em que muitas vezes teve, ele mesmo, de abrir e fechar as portas da igreja e tocar os sinos para as missas, em terras em que a prática religiosa era quase “terra de missão”. Foi depois professor de Moral e Religião no Liceu Nacional de Castelo Branco. Foi nomeado bispo pelo Papa Paulo VI e coadjutor de Angra a 18 de Março de 1974, dando entrada solene na Sede Episcopal angrense a 19 de Junho desse mesmo ano. Após o falecimento de D. Manuel Afonso de Carvalho, foi nomeado bispo residencial a 30 de Junho de 1979, tomando posse da diocese, como seu 37º prelado, um mês depois. A bula de preconização foi emanada pelo papa João Paulo II.
Assinalar os cem anos do nascimento de D. Aurélio Granada Escudeiro não é mais do que um acto de justiça a um verdadeiro Pastor que marcou os Açores de forma muito concreta e segura. Durante 22 anos, que começaram poucos meses depois da Revolução de Abril de 1974, viveu, sentiu e marcou os grandes acontecimentos da vida dos Açores, as grandes transformações e os grandes anseios que tomava como seus e a que se dedicava, dentro do que lhe competia, na palavra e na orientação.
 Intransigente nos princípios, era porém profundamente humano e compreendia como poucos a sociedade que saía do nascimento de novos tempos, no Ocidente e nos Açores em concreto. Não foi, muitas vezes compreendido, mas nunca acusou qualquer ressentimento. Procurava ultrapassar os contratempos de uma governação difícil de uma diocese dispersa, mas nunca confundiu diálogo com cedência de autoridade e quem seguia a vida da diocese sentia que havia um rumo concreto, seguro e disciplinado, que se espelhou nas profundas mudanças que se deram, desde a realização do Congresso dos Leigos, até à criação dos Conselhos Pastorais e Presbiteral, passando pela renovação da Sé e do Seminário de Angra, após o sismo de 1980, pela reconstrução das igrejas, nas ilhas afectadas, sem com isso descuidar a presença eclesial no campo social, trazendo congregações religiosas para a Região, com especial destaque para a vinda das Clarissas para o Mosteiro das Calhetas, e fazendo com que pela primeira vez em 500 anos, solo açoriano fosse pisado por um Papa, como aconteceu em 11 de Maio de 1991, em Angra e Ponta Delgada, com a visita de João Paulo II.
 D. Aurélio tinha no sangue o gene da Acção Católica que tanto ajudou a incrementar em Portugal e nos Açores e era um Homem culto e de ampla visão social, com especial enfoque para o fenómeno das migrações. Visitou as comunidades açorianas dispersas pela diáspora, levando-lhes palavra e alento e trouxe aos Açores nomes grandes de figuras que sendo ou não naturais dos Açores, lidavam de perto com as nossas comunidades. Chegou mesmo a ser presidente da Comissão das Migrações da Conferência Episcopal Portuguesa. Dentro da sua missão, na Acção Católica Nacional e Internacional, visitou vários Países, na Europa, Estados Unidos e Canadá, tendo inclusivamente ido em missões de trabalho a Angola, Moçambique e a Goa, na Índia.
 As suas notas pastorais, doutrinais, simples, mas eivadas de profundo conceito e citações, são documentos que não morrem e que marcam posições da igreja açoriana, por vezes difíceis, ante muitos acontecimentos.
 Mesmo não se concordando com algumas das suas orientações, há que reconhecer que estamos perante uma figura marcante nos Açores e que merece, da parte da Diocese, em primeiro lugar e da parte da sociedade civil, digna perpetuação, como sinal de alguém que adoptou esta terra como sua, fez das nossas tradições as suas tradições e vibrou como vibra um açoriano com o culto ao Senhor Santo Cristo, ao Espírito Santo, ou à Senhora dos Milagres, na Serreta, ou Bom Jesus no Pico.
Na passagem destes cem anos do seu nascimento e quase a completarem-se 8 anos sobre a data do seu falecimento, aos 92 anos, no dia 25 de Agosto de 2012, na residência sacerdotal construída e doada à Diocese por Monsenhor Weber Machado Pereira, será altura de lhe ser prestada devida homenagem, porque D. Aurélio fica como alguém que amou os Açores na igreja que lhe foi confiada e muito ajudou a satisfazer um anseio antigo, secular mesmo, dos Açorianos: que a diocese viesse a ter, pela segunda vez na história, um bispo diocesano natural dos Açores, o que veio a acontecer com D. António Sousa Braga, seu sucessor.
Era leitor assíduo e atento de jornais e ele próprio durante alguns anos foi colaborador e cronista no semanário “Reconquista”, da cidade de Castelo Branco, fundado em 1945, ano em que terminou a Segunda Guerra Mundial e de que chegou a ser Chefe de Redacção.
Esta é apenas uma despretensiosa nota de testemunho que faço questão de deixar aqui, neste dia de centenário de um Bispo que muito respeitei, mesmo nas diferenças de opinião e nas discordâncias que muitas vezes, pessoalmente, e através do jornal Correio dos Açores, expus e que nunca mereceram uma crítica, nem um tratamento de menor amizade da sua parte.
Por isso guardo com carinho a sua memória de Bispo e de Açoriano de coração que até quis, ao contrário de quase todos os seus antecessores  “ser sepultado no cemitério de Angra, no jazigo dos Bispos”, caso falecesse nos Açores e, assim “poder beneficiar das orações do bom povo dos Açores, que muito amou e pelo qual consagrou a Deus os derradeiros anos da sua vida”. (palavras do seu testamento).
Porque “uma pessoa só morre quando dela se deixa de falar”. E a vida de D. Aurélio continua a falar-nos.

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