Um Bispo que foi meu Amigo

Conheci o Senhor D. Aurélio Granada Escudeiro, em fins de 1958, em Lisboa, quando ele era assistente nacional da Acção Católica Rural. Vivia na Rua Vale do Pereiro, perto do Largo do Rato, com outros assistentes nacionais, entre eles o ribeira-grandense, Sr. Dr. Manuel Moreira Candelária, daquela prestigiosa organização da Igreja que tão bons frutos deu e que me parece que não tem encontrado outra organização que a pudesse substituir.
Nesse ano tinha-me matriculado na Faculdade de Ciências, no curso de Matemática e dada a minha mais que insuficiente preparação para frequentar o referido curso, passava por dificuldades muito grandes. Também por isso ia lá de vez em quando pela rua Vale do Pereiro onde sempre encontrava o apoio tão necessário para ir vencendo o desânimo em que vivia mergulhado. Por várias vezes falei com o senhor padre Aurélio com quem desabafava.
Esta evocação talvez ajude a explicar quanto as minhas relações com o meu Bispo D. Aurélio foram sempre de muita proximidade e até amistosas.
Era natural que algumas das intervenções que eu fazia na comunicação social poderiam de certo modo causar-lhe algum incómodo, mas devo afirmá-lo com toda a verdade, que nunca me chamou à atenção para o que quer que fosse. Quando estava em São Miguel, fazia do Seminário do Santo Cristo a sua residência. À noite, depois do jantar, na sala de convívio, conversávamos com muito à vontade sobre todos os mais diversos assuntos e cheguei até a jogar com ele ao totobola. Ele dava-me vinte escudos e eu entrava com igual quantia, preenchia um boletim, à espera que a sorte nos viesse contemplar o que nunca aconteceu. Era uma maneira de cultivarmos a proximidade e amizade.
Não posso esquecer a confiança que em mim depositou para tratar de algumas questões de natureza social. Em dois retiros espirituais para o clero convidou-me para na quarta-feira fazer as quatro conferências habituais focando a doutrina social da Igreja. A seu pedido participei no Conselho Presbiteral. Ao perguntar-lhe a que título ia participar em tão importante reunião, respondeu-me: - “como meu convidado”.
Pediu-me para eu organizar uma lista de pessoas empenhadas nas questões sociais que ele depois nomeou como comissão organizadora da Cáritas de São Miguel. Nos dois encontros de Pastoral Social promovidos pela Cáritas em que participaram mais de 400 pessoas de todas as paróquias da nossa Ilha, desempenharam papéis importantes o senhor Cónego  José Mendes Serrazina e o Sr. Dr. Acácio Catarino, Assistente e Presidente, respectivamente, da Cáritas Portuguesa. As sessões de encerramento foram sempre presididas pelo Senhor D. Aurélio.
Em 1991, a Cáritas de São Miguel promoveu uma sessão solene no Teatro Micaelense para comemorar o centenário da publicação da encíclica “Rerum Novarum”. Ao comunicar-lhe este acontecimento, o Sr. D. Aurélio fez questão de vir da Terceira para participar e presidir à referida sessão.
Quis passar os últimos anos da sua vida terrena na nossa e sua Diocese e o local que escolheu foi a residência sacerdotal que então havia na Rua Frei Manuel, em Ponta Delgada. Ia todos os dias concelebrar a Eucaristia com ele, às 18 horas, e em que participavam as religiosas da Santa Paz que tinham vindo para a Diocese a meu pedido para trabalharem na Cáritas. Era de uma pontualidade impressionante e se por algum motivo eu chegasse atrasado, com um sorriso amigo apontava-me o relógio. Era um Homem de princípios e de orientações pastorais firmes. Todos sabíamos com o que contar. Com ele não havia surpresas, fazendo jus ao princípio de “saber de onde sopra o vento”.
Por ter escolhido aquela residência sacerdotal, conversámos com assiduidade sobre os mais diversos temas e até ao fim manifestou sempre grande interesse em manter-se informado sobre o que se passava nos Açores e era um leitor atento dos nossos jornais.
Nestes cem anos do seu nascimento é-me particularmente grato aceder ao convite que me foi feito para participar nesta homenagem  a um Bispo que quis ser meu Amigo e que para mim está sempre presente.

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Categorias: Opinião

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