Investigadora Decleoma Pereira em entrevista a Lélia Nunes

Descobertos novos vestígios do culto ao Espírito Santo levado por açorianos no século XVIII para a Amazónia

 Correio dos Açores – Dra. Decleoma, muito se fala sobre a presença dos açorianos no Maranhão (sec.XVI) e no sul do Brasil (século XVIII) e pouco se sabe sobre as famílias açorianas que, em 1771, chegaram a Nova Mazagão, hoje Mazagão Velho, fundada em 1770 a mando do governo português. E, muito menos sobre a leva de colonos açorianos que, vinte anos antes, em 1751, iniciou o povoamento de Macapá. Afinal, os açorianos escreveram uma página da história do Amapá?
Decleoma Lobato Pereira (Investigadora) – De fato, a participação de imigrantes dos Açores na colonização da Amazônia foi significativa. Foram os primeiros grupos humanos, juntamente com os ilhéus da Madeira, transferidos para a região pela Coroa Portuguesa. Todavia, infelizmente, a sua saga não foi objeto de grande atenção por parte da historiografia da Amazônia, de modo geral, e menos ainda no que diz respeito à porção que compreende o atual estado do Amapá.
Poucos estudiosos se debruçaram sobre a temática da transferência dos naturais dos Açores, sobre a vida que tiveram, a sua presença e contribuição nas localidades de destino.
Assim, os açorianos, quanto os demais portugueses, escreveram, sim, uma página da história do Amapá, e da Amazônia, mas ainda é desconhecida, infelizmente!

Qual seria a razão ou os motivos desse desinteresse dos estudiosos?
Um dos motivos desse pouco interesse, creio que se deve à falta ou à pouca documentação histórica disponível. A maior parte dos documentos referentes ao período colonial e fase posterior encontra-se nos cartórios espalhados nos vários municípios do estado do Pará, do qual o Amapá fez parte até 1944. Isso exige pesquisa profunda e extensa nesses locais de guarda e, consequentemente, demanda maiores recursos financeiros e humanos.
Eu, particularmente, tenho bastante interesse em realizar um trabalho dessa envergadura, para conhecer a vida das pessoas que foram deslocadas, por decisão própria ou imposição, de outras regiões do planeta para a Amazônia. Compreender as suas motivações, as suas condições de vida, o que pensavam e sentiam em relação às circunstâncias decorrentes dessa imigração e da instalação em ambiente tão diverso.
Além das motivações históricas e sociais que movem a pesquisadora, haveria também um interesse pela busca das raízes familiares da mulher Decleoma, brasileira, nascida em Gipurú-Miri, no coração da Ilha de Marajó, no Pará?
Sim. Motiva-me também profundamente um estudo dessa natureza devido às origens da minha família, Lobato Pereira. Meus avós eram descendentes de portugueses, entretanto de procedência desconhecida.
De acordo com a memória oral da família, da parte materna, meu bisavô, Manoel Joaquim Lobato, teria vindo para o Pará, juntamente com dois irmãos, e se fixado no município de Igarapé-Miri. De lá teriam-se transferido, ele e um irmão, Raimundo José Lobato, para o município de Anajás, em data incerta, provavelmente entre o final do século XIX e início do XX. As informações que possuo sobre isso acabam aqui. Sobre os Pereira, possíveis portugueses, moradores do Arquipélago do Marajó, dos quais meu pai era descendente, sei menos ainda.
Qual a relação da presença açoriana a partir de 1771 em Nova Mazagão  com a saga de 469 famílias desterradas da fortaleza portuguesa de Mazagão encravada em Marrocos (África) pelo Marquês de Pombal e transladados para a Amazônia?
Entre as famílias transferidas para Nova Mazagão, atual Mazagão Velho, várias eram oriundas ou descendentes dos Açores que viviam na antiga Mazagão, no continente africano, actual região de Marrocos. Algumas acabaram, ao longo do tempo, por se mudar para outras localidades, inclusive para Macapá, atual capital do estado do Amapá.
 Já as famílias deslocadas em 1751, para dar início à colonização da Praça de Macapá, elevada à condição de vila, em 1758, fizeram parte de uma leva de imigrantes transferidos diretamente das Ilhas dos Açores. Há registos documentais (Censo de 1808, salvo engano) que mostram uma predominância dos ilhéus oriundos das Ilhas Graciosa e São Miguel.
Além de Macapá também Vila Vistosa da Madre de Deus, criada em 1765, recebeu naturais dos Açores no início de sua construção. Com a extinção desse vilarejo, por volta de dez anos após a fundação, os moradores foram enviados para outras localidades, inclusive para Nova Mazagão.  Portanto, a história da Amazônia e do Amapá está diretamente ligada à história dos açorianos e seus descendentes através dos deslocamentos e realocação das pessoas, das famílias, e dos grupos no período colonial e pós-colonial.

Passados 250 anos da chegada de açorianos às terras do extremo norte do Brasil,  Decleoma, enquanto estudiosa da cultura popular do Amapá à Guiana Francesa, identifica traços dessa presença na Cultura do seu estado?  
Penso que herdamos dos portugueses, oriundos das Ilhas dos Açores, as devoções santorais, em especial ao Divino Espírito Santo. A sua presença espalhada em todo o território amapaense, e paraense também, é um indício fortíssimo da contribuição açoriana e portuguesa na religiosidade e na cultura da região.

O culto do Divino Espírito Santo é uma das mais expressivas e robustas manifestações de fé que se conhece em espaços onde floresceu a herança cultural portuguesa: no Continente europeu, nas Ilhas Atlânticas, no Brasil, nas comunidades emigradas nos Estados Unidos da América e no Canadá. É o maior exemplo de transnacionalidade cultural. As Festas do Espírito Santo têm importância destacada  na formação cultural do Amapá?

Sim. Sem dúvida que as festas do Espírito Santo têm destacada importância na formação cultural do Amapá, considerando a ocorrência de festas seculares, preservadas no interior das comunidades e populações tradicionais, mas também na própria capital do estado. Isso acontece na Amazônia, de modo geral, inclusive na região que compreende a Guiana Francesa. Eu tive a oportunidade de acompanhar uma dessas festas em território francês, no ano de 2012, em uma localidade conhecida como Village Miguel, pertencente à Commune de Regina, distante alguns minutos da sede do distrito. Uma festa cuja memória oral apresenta como secular e iniciada por um indígena brasileiro, mas que foi posteriormente apropriada pelos crioulos guianenses e hoje é controlada por algumas famílias tradicionais. A importância dessa festa para aquela população é evidenciada, entre outras coisas, pelo fato de ocorrer em local construído exclusivamente pare esse fim. Seus fazedores vivem em outros locais distantes, em diversos pontos da Guiana Francesa, das Antilhas, e reúnem-se anualmente apenas para dar continuidade a essa herança cultural religiosa.

Pode descrever ou caracterizar as principais Festas do Espírito Santo que se realizam no Amapá?
No Amapá o Espírito Santo é festejado em várias localidades e três dessas celebrações é objeto dos meus estudos há vários anos.
Em Macapá, a Festa do Divino Espírito Santo está relacionada com o chamado Ciclo do Marabaixo, expressão cultural de origem afrodescendente, recentemente registrada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - IPHAN como patrimônio cultural imaterial brasileiro.
Em Mazagão Velho, os festejos do Espírito Santo preservam, em grande parte, o modelo do Império do Divino, com a presença de uma Corte com uma Imperatriz, formada por meninas entre três a doze anos de idade. É uma das festas mais expressivas do extenso calendário de festas religiosas do município de Mazagão.
No extremo norte do estado do Amapá, município de Oiapoque, também o Espírito Santo recebe grande devoção, inclusive era parte do antigo nome da localidade, Vila do Espírito Santo de Oiapoque. Atualmente, os seus festejos acontecem em várias localidades naquele município. Inclusive uma festa celebrada pelos índios Karipuna, habitantes do rio Curipi. Todas as festas citadas possuem características que as distinguem, mas apresentam também, em grande parte, as principais características da maioria das festas religiosas do catolicismo popular.

O que gostaria de relevar sobre a contribuição dos açorianos no Amapá em tempo de Espírito Santo.?
Embora não conheçamos muito a respeito dos nossos antepassados, é evidente que os santos, e o Divino Espírito Santo, com certeza, foram uma esperança, uma luz, uma segurança, para seus devotos, ao longo do tempo na Amazônia, nos momentos iniciais da colonização.
E são também, no tempo presente, diante das imensas dificuldades que se apresentam na luta pela preservação da região, pela valorização de sua população, em especial dos povos e comunidades tradicionais, e para a salvaguarda do patrimônio cultural herdado de nossos antepassados.
Para nós, atualmente, as festas e práticas culturais tradicionais como as folias, as ladainhas, as procissões, são uma herança colonial que nos liga ao passado, à nossa ancestralidade, e que vai além dos limites geográficos da nossa região.
O Espírito Santo conduziu os nossos antepassados e conduz-nos aqui e em outros cantos do mundo!

 

Lélia Nunes fala de Decleoma Lobato Pereira

 

Durante o Congresso Brasileiro de Folclore realizado no ano de 2006 na cidade de Natal (Rio Grande do Norte), conheci a jovem historiadora e pesquisadora de Culturas Populares, Decleoma Lobato Pereira. Enquanto ela falou sobre a Cultura do Amapá, as festividades religiosas, sobre o Espírito Santo, eu falava da manifestação do Divino em Santa Catarina, o BI da nossa Identidade Cultural.  Era natural que daí brotasse uma amizade embalada pela devoção do Espírito Santo.
Desde então tenho acompanhado no Brasil Sul as suas pesquisas e estudos valiosos desenvolvidos sobre a Festa do Espírito Santo no Amapá.  No ano de 2017, a Associação Amapaense de Folclore e Cultura Popular recebeu o Prêmio Rodrigo Melo Franco (IPHAN) em reconhecimento pelo Inventário de Folias Religiosas do Amapá. A pesquisa do Inventário foi realizada com louvor pela Dra. Decleoma Lobato.
Há muitos anos tenho aguçada a minha  a curiosa para saber mais sobre a instigante Festa do Divino Espírito Santo que se realiza em Mazagão Velho (antigo Novo Mazagão), fundada em 1770, às margens do Rio Mutuacá, a mando da Coroa Portuguesa. A região foi povoada em 1771 por famílias originadas do Norte de Portugal e do Açores transladadas da Fortaleza de Mazagão (Marrocos/Noroeste da África) para a Amazônia em terras situadas entre o norte do rio Amazonas e Guiana Francesa.
Uma saga heróica, uma história surpreendente e a incontestável presença de traços culturais açorianos remanescentes, desde Macapá (Amapá) até o município de Comunne Reginae (Guiana Francesa) onde festas populares como o Espírito Santo, ainda hoje, mitificam seu passado, e que a historiadora e pesquisadora de Culturas Populares e Patrimônio Cultural e Arqueológico no Amapá, Dra. Decleoma Lobato Pereira, nos conta nesta entrevista.

 

Lélia Nunes

Print
Autor: CA

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima