Investigadora açoriana trabalha em São Tomé e Príncipe para criar a primeira rede de Áreas Marinhas Protegidas do país

 Luísa Madruga escreveu-nos de Blonha, cidade italiana onde a açoriana ficou “retida” por conta de todos os constrangimentos que trouxe o novo coronavírus e onde aguarda a oportunidade de poder retomar alguma da normalidade da sua vida, o que inclui principalmente regressar a São Tomé e Príncipe, onde se encontra a desenvolver um projecto de conservação marinha.
Antes de chegar ao país insular africano, a investigadora hoje com 48 anos de idade trabalhava já em África, mais concretamente em Moçambique, decidindo entretanto “abraçar um novo desafio” no início de 2019, o maior até então, que lhe daria a oportunidade de criar algo pioneiro em São Tomé e Príncipe.
O projecto que chamou a sua atenção, desenvolvido pela Fauna & Flora International – a mais antiga organização internacional de conservação da vida selvagem a nível mundial – em parceria com três organizações não governamentais locais e financiado pelo Blue Action Fund, tem como objectivo criar no país a primeira rede de Áreas Marinhas Protegidas (AMPs).
Para a investigadora açoriana, este vem a ser “um projecto muito interessante”, refere, “não só por se tratar de um enorme desafio e de uma iniciativa pioneira no país, mas porque utiliza uma abordagem de co-gestão, em vez da usual abordagem “top-down” decidida e imposta apenas pelos Governos”.
Assim sendo, o projecto que se encontra a desenvolver envolve processos de consulta e de concertação entre todos os interessados, que são acima de tudo as autoridades governamentais e as comunidades piscatórias, compostas tanto por pescadores como por vendedoras de peixe, as designadas localmente por “paliês”, explica.
Assim, através destes processos de consulta e de concertação, a investigação e o respectivo projecto irão permitir a criação das Áreas Marinhas Protegidas e “posterior gestão e monitorização conjunta destas áreas”, uma abordagem que no entender de Luísa Madruga irá permitir “facilitar não só o reconhecimento da importância das AMPs, bem como o cumprimento das medidas de conservação aplicadas nessas áreas”.
Por outro lado, a par do verdadeiro objectivo do projecto, que considera como o maior desafio profissional que já lhe foi estendido, trabalhar com uma comunidade mais pequena e também mais fechada é visto pela açoriana como “um grande desafio e também uma enorme satisfação”, aponta.
Segundo a própria, este é um desafio na medida em que há um processo longo a decorrer no que diz respeito à mudança de mentalidades que, por vezes, é necessário para implementar um projecto deste género, “sobretudo em comunidades tradicionais, fechadas e remotas”.
A par disto, a iniciativa pioneira da Fauna & Flora International e restantes entidades envolvidas exige ainda todo um conjunto de “processos de resolução de conflitos entre as diferentes comunidades piscatórias que utilizam diferentes artes de pesca, e das comunidades com os Governos regional e nacional”.
No entanto, “é também uma enorme satisfação pela possibilidade de assistir à gradual tomada de consciência sobre a real dimensão das ameaças sobre os ecossistemas marinhos e aos progressos nos comportamentos ambientalmente mais sustentáveis, quer da parte das comunidades costeiras, quer das próprias entidades governamentais”, salienta Luísa Madruga.

A mudança de área
Contudo, o percurso desta investigadora viria a começar mais tarde, uma vez que num momento inicial começou por tirar cursos relacionados com a área de economia e gestão, embora o seu grande sonho fosse o de vir a trabalhar na área da conservação ambiental.
Assim, para se começar a envolver na área, até decidir tirar um mestrado mais relacionado com as questões ambientais, a  açoriana começou por fazer voluntariado numa Organização Não Governamental em Vancouver, no Canadá, cidade na qual viveu enquanto trabalhava na área de Marketing.
Foi mais tarde, quando contava 31 anos de idade e oito anos de experiência profissional que decidiu lutar para concretizar o sonho de longa data que a levou até onde está hoje, ingressando assim na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa (FCT-UNL), onde concluiu o Mestrado em Gestão e Políticas Ambientais, que classifica como “bastante abrangente, incluindo diversos módulos, desde a Ecologia até à Economia de Ambiente”.
Com esta nova formação pretendia encontrar um emprego na área ambiental, “mesmo que isso implicasse recomeçar praticamente do zero em termos profissionais”. Porém, conforme conta, a oportunidade por que ansiava apareceu mais cedo do que esperava, começando por trabalhar num centro de investigação da faculdade em Lisboa.
“A oportunidade apareceu mais cedo do eu que tinha previsto, pois fui convidada por um dos Professores do Mestrado para trabalhar num Centro de Investigação sobre Economia do Ambiente e Gestão Ambiental (ECOMAN-Ecological Economics and Environmental Management Centre, actualmente CENSE), na própria FCT-UNL”, explica Luísa Madruga, salientando que esta “acabou por ser também uma lição de vida, pois ensinou-me que quando se correm riscos para alcançar os nossos sonhos, a vida proporciona-nos as oportunidades para os concretizar”.
Quanto ao seu primeiro “grande projecto”, a investigadora açoriana conta que este tinha como objectivo “a mitigação e reconciliação de conflitos entre a conservação de espécies selvagens e as actividades económicas (FRAP-Framework for biodiversity Reconciliation Action Plans. Development of a procedural Framework for Action Plans to Reconcile conflicts between the conservation of large vertebrates and the use of biological resources: fisheriesand fish-eating vertebrates as a model case)”.
O projecto em causa teve a duração de três anos e foi financiado pela Comissão Europeia,envolvendo em simultâneo organizações de vários países europeus, o que acabou por permitir que a açoriana escrevesse em co-autoria alguns artigos de revistas científicas e também que participasse na publicação de um livro sobre os resultados do projecto.

Dois anos ao serviço da ONU no Brasil
e dois projectos em benefício dos Açores
Trabalhar na área ambiental proporcionou também outras experiências vantajosas para a investigadora, nomeadamente a de trabalhar na ONU a partir do Brasil e a de trabalhar no Canadá, conforme já mencionado.
“Foram ambas experiências enriquecedoras. O Canadá (Vancouver) foi um “tiro no escuro” já que não tinha emprego ou casa assegurados, mas já levava na bagagem o visto de trabalho. Era ainda bastante jovem, mas valeu a pena correr o risco, pois acabei por encontrar um bom trabalho e desfrutar de uma ótima qualidade de vida, praticando também várias actividades de interesse pessoal.
No caso do Brasil (Brasília), fui contratada pelo Programa do Ambiente das Nações Unidas (UNEP Brazil) para desenvolver projectos de Economia Verde e de Economia da Biodiversidade e Ecossistemas (TEEB), em colaboração com o Ministério do Ambiente do Brasil e outros parceiros institucionais.
Custou-me bastante viver tão longe do mar, mas foi um desafio muito interessante, tinha uma excelente equipa de colegas e acabei por conhecer uma boa porção daquele país-continente”, relembra Luísa Madruga.
Por outro lado, esta oportunidade de trabalhar na área pela qual se sente verdadeiramente bem serviu também para trabalhar a favor do arquipélago onde cresceu por duas vezes distintas.
A primeira, adianta a investigadora, decorreu da proposta de tornar a ilha das Flores a Reserva Mundial da Biosfera para a UNESCO, “que foi, felizmente, aprovada”, e a segunda oportunidade diz respeito a um projecto europeu dedicado à identificação de “Key Biodiversity Areas” e desenvolvimento do “Ecosystem Profile” das regiões ultraperiféricas europeias”, trabalhando especificamente “para a região da Macaronésia, que, como se sabe, inclui os Açores”.
Porém, é na área da conservação marinha que dedica maior atenção, porque “no âmbito da conservação da natureza e biodiversidade, o ecossistema marinho foi sempre aquele que mais me deslumbrou. Não só pela ligação de nascença ao mar, como pelo facto da diversidade marinha ser realmente fascinante e ainda bastante desconhecida”, salienta.
Depois de tantos anos longe do arquipélago, embora regresse quando possível, sempre que ouve a palavra “Açores”, Luísa Madruga refere que recorda a “grande paixão que tem pela terra natal, as ilhas às quais não me canso de voltar, a minha família e amigos mais chegados, o privilégio que tive em crescer numa terra como São Miguel e o orgulho de ser açoriana”, conclui.
                                      

“A melhor forma de prever o futuro é criá-lo”, máxima que inspira Luísa Madruga

 

Que sonhos alimentou em criança?  
Luísa Madruga - Vários, em diferentes idades. Mas aquele que me acompanhou até à idade adulta, foi sobretudo o de explorar os fascínios da Natureza pelo mundo fora.

O que mais o incomoda nos outros? E o que mais admira?
A falta de autenticidade e transparência. A capacidade de se deslumbrar com coisas simples, do fascínio constante pela vida.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
É uma pergunta que sempre me intrigou. Gosto muitíssimo de ler e tenho uma irremediável paixão por livros e, por isso mesmo, não consigo eleger um apenas.

Como se relaciona com a informação que inunda as redes sociais?
Relaciono-me bem com a informação útil e interessante, mas mal com os disparates que aparecem muito mais do que eu os gostaria de encontrar.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet? Quer explicar?
Muito dificilmente. Tanto por motivos profissionais, como pelo hábito já enraizado do fácil e rápido acesso à informação que me interessa e ao contacto com pessoas queridas distantes.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Gosto muito de viajar, mas não continuamente e desde que tenha uma “base” para regressar. Possivelmente um conjunto de viagens na Indonésia.

Quais são os seus gostos gastronómicos?
São (também) diversificados. Sobretudo comida tipicamente portuguesa, italiana e asiática, desde que não inclua carne.

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Que se pode abraçar e beijar livremente as pessoas que nos são queridas, sem receios e censura.

Qual a máxima que o/a inspira?
A melhor forma de prever o futuro é criá-lo.

Em que época histórica gostaria de ter vivido? Porquê?
Nunca alimentei fantasias de viver em outras épocas e estou satisfeita por viver na época presente. É um período de muita incerteza, mas muito importante e que oferece um grande potencial de mudança à escala global.

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