Padre Ricardo Tavares, Pároco dos Fenais da Luz

“Não se pode aproveitar uma pandemia para infantilizar e atemorizar ou até empobrecer um povo”

Nesta entrevista, foram abordados vários assuntos, entre eles, a remota possibilidade de se poder realizar a Festa Nossa Senhora da Luz, que habitualmente se realiza no 2.º domingo de Setembro. “Para já, está proibida, até ao fim de Setembro e para todo o país, a realização de festas paroquiais. Sabemos que entretanto tudo pode mudar. Mas uma festa com a dimensão da nossa não se pode preparar num mês. A ser possível, organizaremos um pequeno programa, provavelmente de dois dias”.
No entanto, e “em todo o caso, a melhor honra e o melhor gesto de amor que podemos ter para com Nossa Senhora da Luz são a visita semanal, dominical, à sua casa, na Eucaristia”.

 Como viveu os dias de confinamento devido à Pandemia do Covid-19?
“No início, com alguma ansiedade. Estávamos a viver um momento único, histórico e desconhecido, ainda assombrados pela memória da pandemia de 1918-1920, que dizimou pelo menos meio milhar de milhões de pessoas em todo o mundo. Senti, como quase toda a gente, a claustrofobia provocada pelas cercas sanitárias na Ilha de S. Miguel, um momento que nos ficará para sempre gravado na memória emocional. Depois, à medida que saíam estudos científicos, fui sentindo uma calma crescente, apesar do cenário assustador de alguns países, como a Itália e a vizinha Espanha. Mantive-me confinado à minha residência, como um quase monge, recolhido na oração e na investigação, para além do serviço à distância de professor e do trabalho subterrâneo paroquial, que quase ninguém vê; aliás, duas das mais importantes obras de um sacerdote são, no silêncio da sua câmara, estudar e orar pelo seu povo sacerdotal”. 

Sentiu a população preocupada? O que lhe transmitia?
“No início, verifiquei que as pessoas desvalorizavam a situação; somos ilhéus, as desgraças, só acontecem lá fora. Notei rapidamente que, de modo geral, a população açoriana, e a portuguesa em geral, deu uma prova de enorme civismo. Portugal e, em especial, os Açores ficarão na história europeia como modelo de resiliência, paciência e eficácia no combate à epidemia. As autoridades civis e religiosas merecem o nosso aplauso, em especial os trabalhadores da saúde, da segurança, das comunicações e do ramo alimentar, sem deixar de lamentar as perdas humanas. Agora que já saímos do estado de emergência, não compreendo a manutenção de algumas imposições governamentais, que roçam na violação de direitos constitucionais, como recentemente já foi confirmado em tribunal. Não se pode aproveitar uma pandemia para infantilizar, acobardar, atemorizar ou até empobrecer um povo. Por alguns exageros vamos pagar bem caro, ao nível económico e sociológico.
Como pároco tentei, no início, incutir, com firmeza, o dever de responsabilidade pela saúde dos outros, alertando sempre para a gravidade da situação; penso que neste tipo de situações não devemos enganar as pessoas com falsas esperanças. No momento presente, todavia, não vejo motivos para perder a esperança. A Natureza tem os seus mecanismos vitais: mata, mas também renova-se. Deus fez e faz tudo com sabedoria!”

Durante esse tempo, e não sendo possível celebrar as eucaristias como dantes, aderiu às novas tecnologias, ou nem por isso?
“Nem por isso. Penso que houve algum exagero, diria uma banalização das missas Online. Bastavam algumas referências, como o Santo Padre, o nosso Bispo e, porventura, algum santuário. A Eucaristia é o encontro pessoal – espiritual e físico – com Deus Pai em Jesus Ressuscitado, no oceano do Espírito Santo. A comunhão integral pede a união total com Jesus, em espírito e carne, que é o Santíssimo Sacramento; e isso não se consegue à distância, virtualmente, pela TV ou pelas redes sociais, por mais que se dê Show. Sirvam, ao menos, para agudizar essa fome de Deus! Como pároco, participei num encontro de catequese e promovi um momento de oração numa plataforma virtual, além de ter mantido um regular contacto com os paroquianos através de E-mail. As redes sociais têm muitos limites; o poeta e filósofo Umberto Eco disse que “as redes sociais deram voz aos imbecis”; também criam uma falsa sensação de companhia e comunidade. Temos de investir mais na “presença” física, na importância da Eucaristia como sacramento que cria e fortalece a comunidade, e na importância do diálogo presencial como meio privilegiado de diálogo e partilha”.

Como é que o Serviço Diocesano foi afectado pela Pandemia do Covid-19? Teve algum serviço que foi cancelado?
“Não fomos afectados, porque o nosso programa, para este ano pastoral, previa dois colóquios, que se realizaram em Novembro de 2019 e Fevereiro de 2020. Visaram reflexões coloquiais sobre a Economia (na Universidade dos Açores) e a Ecologia (no Centro Pastoral Pio XII), tendo como pano de fundo os documentos dos Papas João Paulo II (Centesimus Annus) e Francisco (Evangelii Gaudium e Laudato Si’). Foram particularmente interessantes, porque puseram em diálogo pessoas de diferentes quadrantes sociais e académicos, envolvendo todos os participantes, sobre a inter-relação existente entre a economia e a ecologia, a produção e o ambiente, os problemas sociais e os problemas ecossistémicos”. 

O Serviço Diocesano iniciou uma série de sessões de homenagens e reflexões sobre figuras que marcaram a Igreja açoriana, como o P. Manuel António Pimentel. Está previsto continuar esse roteiro cultural?
“Sim, vamos continuar a homenagear o clero que marcou a Região. Além do P. Manuel António (Pastoral Social), já prestámos honras públicas ao P. José Maria Almeida (Pastoral Juvenil), o Venerável P. Bartholomeu do Quental e o P. Sena Freitas (Cultura). Inclusivamente, também é necessário sublinhar o papel dos sacerdotes que deixaram o ministério e ficaram na história do arquipélago como incontornáveis agentes civilização”.

Entretanto, recomeçam as eucaristias este fim-de-semana, que coincide com o fim-de-semana de Pentecostes. Como é que este regresso foi preparado, sabendo que nada será como dantes?
“Recebemos as orientações da Conferência Episcopal Portuguesa e da nossa Diocese, e vamos cumprir as regras básicas, sem entrar na paranóia do exagero. Espero que nada seja como dantes, porque é hora de dar um salto para uma participação mais profunda no mistério da Eucaristia: Deus, nosso Pai Eterno, espera por nós, para o Banquete do seu Filho, onde Ele oferece os deliciosos dons do seu Espírito Santo. Que as pessoas aproveitem melhor este «momento social» que é ainda dos poucos que conseguem criar laços comunitários!”

Confirma, que este ano não deverá haver a Festa Nossa Senhora da Luz, que habitualmente se realiza no 2.º domingo de Setembro?
“Para já, está proibida, até ao fim de Setembro e para todo o país, a realização de festas paroquiais. Sabemos que entretanto tudo pode mudar. Mas uma festa com a dimensão da nossa não se pode preparar num mês. A ser possível, organizaremos um pequeno programa, provavelmente de dois dias. Em todo o caso, a melhor honra e o melhor gesto de amor que podemos ter para com Nossa Senhora da Luz são a visita semanal, dominical, à sua casa, na Eucaristia”. 

Covid-19: Está confiante quanto ao futuro?
“Muito. Tudo isto passará. Coisas há, que melhorarão; outras ficarão iguais e outras, piores. Há gente a aproveitar-se da crise para não trabalhar ou para reclamar apoios sociais que não precisam ou não merecem. Quem vai pagar a factura deste espírito corrupto? Certamente será a classe média, escravizada pelo Estado desde a fundação do mundo, para sustentar pobres que o são por negligência própria e ricos que não trabalharam pelos bens que têm. Fico também assustado com a iminência de um novo pico da doença, chamado “histeria populista” ou “pandemia da paranóia da higiene e da fobia ao contacto social”. No início até se compreendia; mas, agora, há que manter o equilíbrio, cumprindo as regras básicas emanadas pelas autoridades de saúde, mas sem nos fecharmos no buraco da nossa casa. O nosso sistema imunitário precisa de ser desafiado para se manter forte; se passarmos a vida a desinfectar tudo, ficaremos mais frágeis e propensos a novas infecções. Peso e medida em tudo, é o que espero de todos. Precisamos de nos tocar, abraçar e beijar, para fazer crescer o amor por nós mesmos e pelos outros. Ainda estamos atordoados por esta crise, mas espero que nós, sacerdotes, sejamos um modelo desta maturidade, combatendo a hipocondria e os transtornos de ansiedade, que surgem em nós e nos outros. Doenças sempre houve e sempre haverá. Não nascemos para viver numa redoma de vidro, mas para sujar as mãos, nesta bela aventura da vida, como crianças famintas pela descoberta. É nossa responsabilidade proteger e cuidar da vida, mas sabemos que só quando passarmos pelo portal da morte teremos acesso à Vida Eterna, que é experienciar a intimidade da família de Deus”.

Qual a mensagem que gostaria de partilhar com o nossos leitores?
“O Domingo do Pentecostes é o quinquagésimo e último dia do Tempo Pascal. Era a festa das colheitas primaveris do povo hebraico (Shavuot); para nós, cristãos, é o dia em que Jesus, exaltado na glória do Pai, nos envia o dom pessoal do Espírito Santo, o primeiro fruto da primavera da Ressurreição. Deus Pai já nos tinha enviado um Paráclito, Jesus Cristo, para nos inserir na sua relação filial com Ele. Depois de ressuscitar, Jesus enviou, aos que O amam e seguem, “outro” Paráclito, o Divino Espírito Santo, para continuar a sua missão na terra. O Espírito Santo Paráclito permite-nos conhecer e amar o Pai, Jesus, a Igreja dos seus discípulos, o nosso próximo, mesmo quando nos é desagradável, porque também ele é vocacionado para amar. O Paráclito faz morada em nós, enquanto pessoas e comunidade, para gerar uma amizade sobrenatural, que se chama “Vida Eterna”. O Paráclito faz-nos dar testemunho do Pai e de Jesus, através das nossas obras de justiça e solidariedade. Ele guia-nos como um mestre, explicando as palavras de Jesus para cada contexto e momento das nossas vidas; abre-nos o Livro da Vida, fazendo-nos mergulhar no significado profundo de cada acontecimento, despertando a nossa memória para os momentos em que vimos Deus a orientar a nossa vida. O Espírito Santo Paráclito traz-nos a mensagem do Paráclito Jesus, que não nos deixa órfãos, indefesos, desprotegidos; defende-nos como um advogado que se foca na nossa positividade. Através de nós, do nosso testemunho, o Paráclito denuncia a injustiça e o egoísmo do mundo, permitindo a restauração, entre nós, do Reino de Deus, que é o Império do Espírito. Vivamos no Espírito, com o Espírito e pelo Espírito! Tal como Jesus, o Espírito Santo é o nosso Mestre, o nosso Guia, o nosso Consolador, o nosso Defensor, o nosso Advogado da Graça. 
Nossa Senhora, esposa e templo do Espírito Santo, guarda-nos no teu regaço!”

Marco Sousa
 

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Autor: CA

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