Carlos Costa Martins, economista e empresário

Mesmo que custe mais ao governo açoriano deve-se manter os postos de trabalho até à Páscoa para que a retoma seja mais rápida

 Correio dos Açores - A pandemia provocada pela doença Covid-19 travou a economia açoriana. As medidas adoptadas pelo governo para a economia não sufocar impedindo, nesta primeira fase, a falência de muitas empresas e o desemprego nos Açores, foram as suficientes até agora?
Carlos Costa Martins (Economista e empresário do sector turístico) - Como é evidente, as medidas foram tomadas a nível nacional e foram medidas atempadas. Há muitas críticas relativamente ao tempo e à espera da execução destas medidas, mas entendo que foram medidas – com os desenvolvimentos que tem havido – bastante energéticas que não esperava que surgissem tão rapidamente. 
As medidas regionais foram um bom complemento às medidas nacionais e entendo que foi importante fazermos este tipo de complemento, além de algumas medidas específicas que, ultimamente, se têm tomado, e que também estão a ser importantes. 
Fundamentalmente, as medidas regionais deviam centrar-se, como se têm centrado, na questão do emprego. É preferível, através da manutenção do emprego, ter as pessoas a trabalhar do que pagar o subsídio de desemprego. Até porque, quando as empresas encerram, mais tarde a retoma da actividade é sempre muito difícil e muito demorada.
É, assim, preferível fazer a manutenção de postos de trabalho a todo o custo – mesmo que custe até mais – porque, depois, a retoma é muito mais simples. Toda a actividade entra em funcionamento de uma forma mais coordenada do que se houver uma paragem de uma grande parte das empresas. Até porque o desaparecimento de umas empresas leva à paragem de outras…
É como acontece nos pagamentos: quando há atrasos nos pagamentos, este atraso repercute-se em cadeia. 
Assim, quando uma empresa fecha, há sempre uma repercussão em cadeia que é necessário evitar a todo o custo.

Acredita que a retoma da actividade económica se poderá dar ainda este ano?
Não. Eu estou convencido e entendo que as medidas adoptadas pelo governo vão ter que se manter, como é evidente, no mínimo dos mínimos, até ao final do primeiro trimestre de 2021. Até lá, não vai haver uma retoma económica, sobretudo na área do turismo. A este nível, penso que não há retoma económica antes da próxima Páscoa. 
E, mesmo que haja alguma retoma a partir de Julho, Agosto, Setembro deste ano, serão sempre números muito limitados de turistas que vão chegar aos Açores. Eu acredito que este ano vão haver, por exemplo, turistas nacionais que vão escolher os Açores para passar férias (há sempre gente a arriscar), mas muito longe e muito fora das taxas de ocupação que vínhamos tendo na Região nos últimos anos. E taxas que estavam sempre em crescendo.
Entendo que este é um ano para esquecer. Vai ser um ano com taxas de ocupação baixíssimas a todos os níveis. E a retoma do sector turístico, sem que exista uma vacina eficaz para o vírus, vai ser muito complicada.
Acredito que, não com a pujança dos últimos anos, mas já em quantidades importantes, vamos ter algumas vagas de turistas só a partir da próxima Páscoa. Até lá, é importante manter as medidas regionais de apoio ao emprego.

Os voos inter-ilhas estão a ser retomados e a Azores Airlines vai iniciar os voos para Lisboa a 15 de Junho. Estes ‘timings’ são ajustados? Acredita que ainda haja este ano uma vaga de turistas nacionais para os Açores?
Pois, pode ser que o turismo nacional desperte para vir aos Açores pois, como é evidente, a nível internacional, não há ainda grande conhecimento das poucas repercussões do problema do novo coronavírus na Região.  Mas, a nível nacional, as pessoas foram tendo acesso aos números e sabem que no arquipélago este problema foi bastante mitigado. Com as medidas enérgicas que o Presidente do Governo tomou, tivemos uma pequena amostra do que poderia ser um problema muito mais grave. E conseguiu-se conter a pandemia sem atingirmos as taxas nacionais, muito menos as taxas de outros destinos turísticos internacionais que foram um desastre em países como a Itália, como a França e Espanha.
Contudo, com a retoma dos voos da TAP e da SATA, estou convencido que não vamos, nem de longe nem de perto, ter as taxas de ocupação de anos anteriores mesmo de turistas nacionais. 
Este ano, como já lhe disse, vai ser para esquecer. Vai ser um ano com taxas baixíssimas de ocupação a nível turístico. É possível que haja algum turismo nacional mas, ao nível do turismo internacional, designadamente de países onde a pandemia foi mais acentuada, eu não acredito que tenhamos turistas nos Açores.

A retoma de outras actividades económicas, que não o turismo, vai acontecer mais cedo?
Se reparar, todos os sectores de actividade económica queixaram-se. O sector do leite e lacticínios queixou-se. E porquê? Porque exportámos, essencialmente, bens agro-industriais e produtos da pesca, os nossos principais mercados são o Continente português e Espanha e, por todo o lado, fecharam os cafés, a restauração e a hotelaria, que é onde se consome muito do nosso leite, queijo, carnes e peixe.
Quanto ao peixe, basta ir à praça (Mercado da Graça) e verificar quais são os preços a que o peixe está neste momento e os preços a que estariam se, nos seus principais destinos de consumo, não houvesse o problema do novo coronavírus. 
Sou um grande consumidor de peixe. Adoro peixe e, realmente, os preços baixaram para níveis de há uns anos. Houve uma grande quebra ao nível da exportação e os vendedores voltaram-se para o mercado interno e chegou peixe aos supermercados e às peixarias a um preço muito inferior ao que era normal.
Portanto, mesmo estes sectores, agricultura e pescas, foram gravemente afectados na Região pela pandemia, como é evidente.

Vai funcionar a campanha ‘consuma produtos açorianos’…
É importante que se consuma produtos açorianos. Entendo que é um bom investimento publicitar internamente os produtos da Região com ou sem pandemia. Este é um slogan que deve ser sempre trabalhado para estar, em permanência, à frente dos olhos dos açorianos. 
E, realmente, os produtos açorianos são de excelente qualidade.

A Câmara do Comércio e Indústria dos Açores e a Associação de Industriais de Construção Civil da Região entendem que, para recuperar a economia açoriana do efeito da pandemia, são necessários 500 milhões de euros. É esta a sua perspectiva?
Esta ordem de grandeza de números, relativamente ao orçamento regional, e atendendo aos meses em que a economia vai estar parada, não me parece fora das necessidades e de qualquer estudo que seja feito. Acredito que este número esteja muito próximo da realidade.
Não sei se estes 500 milhões de euros são comportáveis ao nível da despesa pública regional mas seria desejável, como é evidente.

Mesmo que a Região tenha que se endividar…
Sim, Mas, repare: acredito que vamos ter disponíveis verbas da União Europeia que, há uma semana atrás, não seriam possíveis de imaginar e que resultam da abertura agora manifestada. Dos cerca de 750 mil milhões de euros para atribuir, (parte a fundo perdido e outra parte através de empréstimos), aos Estados membros, uma parte deste dinheiro há-de chegar aos Açores. E com a chegada do financiamento comunitário destinado à Região, creio que seja possível ao governo regional dispor de uma verba bastante considerável. E, nesta perspectiva, não ma parece exagerada a reivindicação do sector empresário regional da necessidade de 500 milhões de euros para recuperar a economia da pandemia. E é importante manter as empresas para que a retoma da economia se faça de forma coordenada.

Pelas suas palavras, depreendemos que comunga dos ‘timings’ definidas pelo Governo dos Açores para a reabertura da economia. Ou, já deveríamos estar em retoma?
Falar à posteriori é muito simples e muito fácil. Entendo que o Presidente do Governo, sobre esta matéria, teve um comportamento exemplar. Tomou as medidas que tinham de ser tomadas. 
A questão da abertura é inevitável. Temos é que nos preparar, neste intervalo, para a segunda vaga da epidemia que há-de chegar e, se calhar, mais forte do que a primeira. Temos de estar preparados para esta eventualidade de vir uma segunda vaga. É necessário dotar as instituições de saúde dos meios e mecanismos capazes para que estejam mais bem preparados para uma segunda vaga. 

Posso interpretar que o incremento de voos para os Açores pode abrir portas para uma segunda vaga de Covid-19 na Região?
Não. Os Açores estiveram até muito bem para a primeira vaga porque não havia nenhuma região e nenhum país que estivesse preparado para a primeira vaga do novo coronavírus. Temos os casos da Itália, da França, de Espanha, mesmo dos Estados Unidos que é uma grande potência mundial. Todos tiveram problemas e não estavam preparados, ao nível de equipamentos e instalações, para a primeira vaga. 
Normalmente, as segundas vagas da pandemia costumam ser piores porque há já um maior relaxamento por parte da população relativamente às medidas e à tomada de precauções. E, por isso, acredito que a segunda vaga seja pior do que a primeira.
Agora, como é evidente, os Estados e as regiões têm que se preparar para esta segunda vaga e penso que é isso que se pretende, neste momento: ter um tempo que permita repor os stocks e comprar os equipamentos que sejam necessários para fazer face ao aparecimento desta segunda vaga.

Foi anunciado que se estava a criar um Fundo de Capital suportado pelo Estado que sirva de incentivo para a manutenção das empresas na fase de relançamento da actividade económica. Esta é uma boa medida?
Sim. Como é evidente, as empresas portuguesas sofrem cronicamente de uma descapitalização e isto não é efeito da pandemia. É um facto que já vem detrás e que se acentuou com o novo coronavírus. A descapitalização das empresas é um eterno problema a nível nacional e, portanto, é necessário dotar as empresas de algum fundo que lhes permita, também, fazer face às crises que são cíclicas. E quanto mais capital tiverem as empresas, e quanto mais capital próprio disponham nos seus activos, melhor podem reagir às crises. 
Repare que, neste surto, as empresas que tinham algum fôlego financeiro ainda foram capazes de aguentar os empregados, enquanto outras, apesar dos apoios nacionais, paravam a actividade e tiveram que fazer despedimentos. E outras empresas foram, automaticamente para layoff. 
 . 
Está optimista quanto ao futuro a curto e médio prazo, ou nem tanto…
Esta foi uma crise nova para todos, sobretudo do ponto de vista de saúde pública. E nas empresas nunca ninguém tinha imaginado que um surto epidémico pudesse gerar tantos problemas a nível económico. Isto é tudo novo para toda a gente. Esta foi uma aprendizagem forçada que tivemos de fazer. Mas temos de ser optimistas. A vida não pode e não vai parar. 
Espero bem que seja possível encontrar, a curto prazo, uma vacina para nos deixar a todos descansados. Quando for possível o aparecimento da vacina – e há a previsão de que ela vai aparecer no primeiro trimestre de 2021 – acredito que haja uma retoma mais rápida da economia do que neste momento é previsível. 

Entretanto, o que tem feito o empresário Carlos Costa MArtins?
Tenho-me dedicado a ajudar os meus filhos nos quatro Alojamentos Locais que têm. Aproveitámos este interregno de turistas para fazer toda a manutenção e reparações nas instalações. 
Considerámos que, nestes momentos, não se deve deixar cair as coisas. Antes pelo contrário, devemos prepararmo-nos melhor do que estávamos para, quando chegarem os turistas, estar tudo melhor ainda do que estaria no seu normal. 

A Região deveria aproveitar este espaço de vazio de turistas para fazer manutenções de infra-estruturas turísticas, como, por exemplo, miradouros, trilhos…
É nesta altura que as obras têm que ser feitas e não quando os turistas estão à porta, muito menos quando já estão cá dentro e querem ir aos locais e não podem passar. 
Aliás, no caso dos nossos AL’s, estamos a fazer, nesta altura, todas as grandes reparações que eram necessárias fazer. 
Felizmente, temos as coisas bem organizadas. Temos taxas de ocupação tão altas que é muito difícil, em qualquer época do ano, fazer reparações. E, portanto, temos de aproveitar agora e estamos a reconstruir. Mais do que manutenções, estamos a preparar as coisas até melhor, fazendo tudo o que é necessário, dando outro tipo de condições aos espaços. 
E estamos a pensar em outros investimentos para melhorar até o nível de alojamento. 

O que se está a fazer a esta escala de um Alojamento Local deve-se fazer ao nível de um hotel e também à escala dos trilhos, dos miradouros…
Sim, claro. É evidente. Esta é a altura óptima e ideal para uma profunda reparação dos trilhos, - agora em que está tudo calmo e não há turistas a passar – e em que há tempo e disponibilidade de mão-de-obra para isto (porque há mais gente no desemprego). 
Eu digo que a retoma só acontece a partir da próxima Páscoa mas, oxalá que esteja enganado e que a retoma seja feita, em parte, neste Verão mais do que eu penso que vai ser. 
Eu acredito que não vamos chegar aos 50% da taxa de ocupação turística que vínhamos a ter. Mas oxalá que estejamos completamente enganados e que cheguemos aos 60 a 70%. 
Agora, se não aproveitarmos este período, em que há tempo e disponibilidade em mão-de-obra, para investirmos em miradouros e nos trilhos; noutra altura, com os turistas presentes, será mais difícil e pouco aconselhável fazê-lo.
                                                   João Paz

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Autor: CA

Categorias: Regional

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