Bispo Emérito dos Açores D. António Sousa Braga

“Os açorianos vivem no seu interior a fé e devoção no Espírito Santo...”

 O Bispo Emérito dos Açores, D. António Sousa Braga, está a celebrar este ano as bodas de ouro da sua ordenação sacerdotal e, em 2021, atinge os 80 anos de idade. Ao longo dos seus 20 anos de bispado nos Açores, uma das preocupações de D. António foi aproximar os padres, as paróquias e a Igreja das festas populares em honra do Divino Espírito Santo. Ele próprio admite que esta não foi uma tarefa fácil dado o distanciamento que existia entre as festas populares e a Igreja. Havia uma fé e devoção autêntica no Espírito Santo mas, quase sem Igreja. Na memória ficou uma homilia que proferiu na Igreja de Santo António de Fall River, nos EUA, onde salientou que a fé e devoção no Espírito Santo é “o elo mais forte que une os açorianos”. Quinta-feira última fomos encontrá-lo “de quarentena, com uma forte gripe” no Seminário de Alfragide, onde se encontra. Mesmo assim, acedeu a falar connosco por telefone. Deixou a convicção de que a gripe iria passar e, com o tempo, iria “ficar fino”. 
De cima dos seus 79 anos, lembrou-se do tempo de criança e jovem na freguesia de Santo Espírito de Santa Maria onde toda a família vivia com autenticidade a fé e devoção no Espírito Santo. E até parece que, na sua passagem por Roma, assumiu o compromisso para si próprio de que, sendo Bispo dos Açores, iria procurar aproximar a Igreja das festividades populares em honra do Espírito Santo. 
Ao longo da vintena de anos de bispado, poderá não ter atingido, em plenitude, este seu objectivo. Mas a verdade é que hoje já não há festa em honra do Divino Espírito Santo no arquipélago sem que a fé e devoção popular pela terceira pessoa da Santíssima Trindade envolva a paróquia, o padre e a Igreja. Um entre os padres micaelenses que mais terá interiorizado a mensagem de D. António Sousa Braga, – a que podemos fazer referência pela nossa proximidade – foi o padre Norberto Brum que, primeiro em Santa Clara e, agora, no Lagedo, na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, procura tornar una a Igreja e a autenticidade da fé e devoção popular no Divino Espírito Santo. 
Sem demérito para ninguém, se é habitual e faz sentido dizer-se que se dá valor a uma pessoa quando ela já não está perto de nós, sem dúvida que, neste momento em que até não há expressão externa das festas em honra do Divino Espírito Santo, quando se pensar num Bispo açoriano que ficou, na história, ligado à aproximação da Igreja açoriana ao culto do Divino Espírito Santo, este Bispo é D. António de Sousa Braga. E isso percebe-se pela entrevista que agora concedeu ao ‘Correio dos Açores’.

Sempre se manifestou, enquanto Bispo, um grande devoto do Espírito Santo…
Em Santa Maria, enquanto criança e jovem, tínhamos uma grande devoção no Espírito Santo. Eram as festas populares a que nós chamávamos ‘Espírito Santo’. Na minha ilha, Santa Maria, sou da freguesia de Santo Espírito. De maneira que, desde pequeno, vivi muito estas festas populares.

Integrava as coroações?
Sim, fazíamos parte das coroações. E as festas populares faziam parte de nós.

Foi, depois, para Roma. Levou o Espírito Santo consigo?
Mas isto é evidente. Fui para Roma estudar teologia e, evidentemente que levei comigo esta espiritualidade e a expressão popular de fé no Espírito Santo a que nós chamámos o Império do Espírito Santo.

Levou para Roma algum símbolo do Espírito Santo?
Levávamos a bandeira do Espírito Santo. E era nas Ermidas, onde se fazia as festas, que se guardava a coroa do Espírito Santo.

Quando assumiu as funções de Bispo da Diocese de Angra procurou, por um lado, aproximar mais a Igreja da festa popular e, por outro, enraizar a festa popular do Espírito Santo na Igreja…
Com certeza, procurámos dar o sentido verdadeiro, original, às festas que o povo fazia e a que nós procurávamos dar conteúdo e transmitir aquilo que era a teologia e a doutrina da igreja sobre o sentido da presença do Espírito Santo. 
Esta não foi uma missão fácil: aproximar a Igreja da festa popular e os devotos do Espírito Santo da Igreja…
Bem, não é assim tão fácil porque o povo vive as festas de forma popular e nem todos têm o conhecimento da doutrina e da teologia. Vivem as festividades em honra do Espírito Santo por tradição. E, por isso, foi necessária sempre a presença da Igreja para que as pessoas, o povo, desse, realmente, uma perspectiva e fé àquilo que viviam já por tradição.

Enquanto Bispo da Diocese de Angra, de facto, consegue – apesar das dificuldades –, aproximar a festa popular da doutrina cristã.
Sim, embora, às vezes, faltasse o esclarecimento que a Igreja, as paróquias, os padres, levavam aos Impérios. O povo vive o Espírito Santo com toda a sinceridade e também, por vezes, com alguma simplicidade e, por isso, nem sempre está em sintonia com a teologia e com a doutrina da Igreja. Mas, os açorianos vivem o Espírito Santo com autenticidade.

Este é um esforço que deve continuar, aproximar a Igreja das festas populares em honra do Espírito Santo.
Pois Claro. Tem de haver sempre a preocupação de acompanhamento. A Igreja e, sobretudo, os pastores, os padres não se podem distanciar desta religiosidade popular que é autêntica e que precisa de ser acompanhada para não perder a sua originalidade e a sua solenidade à doutrina da Igreja.

A vivência que deve existir entre as festas populares em honra do Espírito Santo e a Igreja não significa dependência mas, sim, complementaridade...
Pois claro, tem de haver, digamos assim, essa proximidade e esta preocupação de levar o povo a dar autenticidade àquilo que o povo já sente e vive, procurando a sua ligação à Igreja, procurando a sua ligação à doutrina e à teologia do Espírito Santo. Se nós não ajudamos o povo a viver esta religiosidade popular dentro daquilo que é a doutrina da Igreja, isto, no fim, fica reduzido somente a uma expressão popular sem a ligação à Igreja. Às vezes, corre-se este risco. Eu tenho a experiência, nos quase 20 anos em que estive nos Açores, de que os padres, os pastores, sempre tiveram uma certa preocupação de estarem presentes a ajudar o povo a viver, cada vez mais, com a real autenticidade, aquilo que era a fé e a devoção ao Divino Espírito Santo. 
Nós não podemos compreender a fé da Igreja, não podemos compreender a expressão religiosa no nosso povo, sem esta presença e acção do Espírito Santo. Por isso, este é um caminho e uma perspectiva popular que pode ajudar muito a pastoral da Igreja na vivência autêntica da fé cristã.

Recordamo-nos de uma homilia que D. António proferiu na Igreja de Santo António de Fall River, perante um templo cheio de fiéis – a esmagadora maioria dos quais açor-americanos e seus descendentes – onde, num pequeno texto que nos cedeu, afirmou que não há um elo mais forte do que o Espírito Santo para unir os açorianos no mundo…
Pois, os açorianos vivem muito esta experiência do Espírito Santo, uma experiência popular e autêntica mesmo que, às vezes, possam não estar, digamos assim, muito unidos à Igreja, às paróquias e aos padres. Mas, o Espírito Santo para eles, às vezes, é tudo. E eu tive esta experiência nos 20 anos que estive nos Açores. Mesmo que os paroquianos não fossem todos os domingos à igreja, viviam uma grande fé no Espírito Santo. Uma fé que eu considerava e considero autêntica na presença e acção do Espírito Santo. 

Onde há um açoriano, há Espírito Santo…
Sim, sim… Nas minhas deslocações ao Canadá e a Massachusetts e Califórnia, nos Estados Unidos, onde havia açorianos, nunca faltava a fé no Espírito Santo e a oportunidade, sempre, de celebrar, de viver, de forma popular, a fé no Espírito Santo. É por todo o lado, pelos Estados Unidos, pelo Canadá, também em certas zonas do Brasil, onde quer que estejam açorianos há fé no Espírito Santo.

Este ano, devido à pandemia, não se vão realizar os Impérios do Espírito Santo…
É evidente que a tradição, a necessidade que as pessoas têm de exprimir também externamente aquilo que é a fé no Espírito Santo, não é possível nas circunstâncias que estamos a viver. Não pode haver muita expressão externa, mas há sempre aquela expressão interna da própria fé e confiança no Espírito Santo que é o espírito. 
Mas nos sentimos a necessidade de exprimir esta fé e devoção externamente mas, também, devido a estas circunstâncias, não havendo muita expressão externa, mas há vivência interna que, sendo autêntica, tem o seu valor.

É uma vivência em oração…
Isso mesmo. Internamente, o espírito é espírito.

Por outro lado, sempre acompanhou as festas do Senhor Santo Cristo de quem é devoto.  Cada ilha com as suas tradições...
Sim. A festa do Senhor Santo Cristo dos Milagres tem a sua maior expressão em São Miguel ligada à imagem do Senhor Santo Cristo e a sua devoção espalha-se por outras ilhas e mesmo pelo Continente, Estados Unidos e Canadá. 
Já na ilha Terceira, os fiéis estão mais ligados às expressões populares. Os terceirenses gostam muito de exibir popularmente, externamente, a sua fé e os seus valores. E, portanto, na Terceira há também popularmente uma grande manifestação das festas em honra do Divino Espírito Santo. 
 
Como está a sua saúde?
Vamos andando. Tenho andado de quarentena. Tenho uma constipação muito forte. Mas isto vai bem. Com o tempo, isto afina.

É sempre um gosto falar consigo…
Pronto, Nosso Senhor o ajude e proteja!...Adeus.

                                             João Paz

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Autor: CA

Categorias: Regional

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