Correio dos Açores: Como estás a viver esta crise pandémica?
Diogo Amaral: Com muita cautela. Todos acompanhamos as notícias diariamente e vemos que o vírus é real e chegou aos Açores. Apesar de não estar na linha da frente no combate ao vírus, tenho o dever de zelar pelos meus utentes todos os dias cumprindo e fazendo cumprir todas as regras impostas quer pela DRS quer pela instituição onde exerço. Esta pandemia veio provar que muita gente tinha por garantido um bem essencial que é quase sempre esquecido: a liberdade. A liberdade de poder sair, conversar com os amigos e simplesmente poder sair à rua e respirar ar puro. O meu muito obrigado aos que estão na linha da frente: auxiliares, enfermeiros, médicos, bombeiros e agentes da PSP. Estes sim são os verdadeiros heróis.
Foi difícil comunicar o cancelamento do Festival da Povoação deste ano?
Muito. Em 9 anos de festival, deve ter sido das opções mais difíceis que tivemos que tomar. Como somos dos últimos festivais de verão a acontecer em São Miguel (em termos cronológicos), aguentamos ao máximo a decisão para ver a evolução da pandemia. Este ano comemorávamos a 25ª edição e vai ser sem dúvida especial. Já tínhamos anunciado a nossa primeira banda internacional – Hoobastank – e, apesar de já ter saído em comunicado oficial na página do festival, aproveito para reforçar que a mesma banda está confirmada para a 25ª edição do Festival da Povoação em 2021. Confesso que para mim ainda foi uma decisão mais difícil sendo membro da organização e enfermeiro. Mas nunca colocamos os interesses do festival acima da saúde da população. Nunca.
Como será o festival no próximo ano?
Será nos mesmos moldes que estávamos a planear para este ano. Como há sempre diferentes pontos de vista, aproveitamos este “intervalo de tempo” para limar arestas e trazer inovações para abrilhantar aquela que será a edição mais especial de todas do Festival da Povoação. Estamos sempre abertos a críticas para poder inovar e dar poder de escolha a todos os que nos visitam naquela semana.
Correio dos Açores: Qual o impacto do cancelamento deste festival em termos sociais e económicos para a Povoação?
Diogo Amaral: Enorme. Não falo por mim, falo pelos comerciantes que aproveitam para fazer o seu negócio naquela semana para poder aproveitar ao máximo a enchente de pessoas que visitam e pernoitam na vila da Povoação. Estamos a falar de uma semana em que tudo mexe: snack-bares, hotel, residencial, restaurantes, supermercados, etc., em que muitos deles são negócios familiares. Claro que mais gente traz mais barulho e mais leilão mas a vila ganha cor, animação e uma dinâmica diferente. Arrisco-me a dizer que, a par da festa do Corpo de Deus e os seus famosos tapetes, é o fim de semana que atrai mais gente à vila da Povoação.
Como concilias a tua profissão de Enfermeiro e a música?
Não é fácil. Para um enfermeiro que trabalhe por turnos, um domingo ou um sábado à noite é igual a uma terça feira de manhã. Por vezes tenho que efetuar trocas para poder ir a lugar X ou Y e assim poder conciliar as duas coisas, sempre de forma a não prejudicar nada nem ninguém pois acima da música, estão sempre os meus utentes. Aproveito para agradecer aos meus colegas de trabalho a paciência e compreensão para comigo e com esta paixão que tenho.
Como defines o teu estilo “djing” ?
Gosto de utilizar duas palavras para essa pergunta: Versatilidade e adaptabilidade. Não tenho nenhum estilo predefinido porque gosto sempre de me adaptar a cada casa e a cada festival consoante o público que tenho à minha frente. Gosto de fazer a festa e sobretudo, gosto de ver as pessoas a se divertirem e a sorrir enquanto estou em palco.
Conta-nos como te apercebeste desse teu talento?
O “clique” para entrar neste mundo deu-se em 2009. No Festival da Povoação, antigamente era chamado de Semana Cultural da Povoação, reparei que quando acabavam as bandas, o técnico de som (que não era dj), colocava todas as noites sempre o mesmo cd e as pessoas ficavam até altas horas a dançarem e a se divertirem. Foi aí que pensei: “e porque não haver alguém em cima do palco a meter música?”. Em 2010, quando recebi o meu primeiro ordenado, fui logo comprar uma controladora e uns headphones. Um mês depois, arrependi-me e vendi tudo porque pensava que era fácil e no fim não percebia nada daquilo. Após esta situação, comecei a ler e a ver vídeos sobre a arte em si. No final de 2011, tive a sorte de começar a aprender o básico com quem sabia na famosa discoteca Toronto Night’s na Povoação e vi que realmente gostava daquilo. Comecei também a acompanhar mais de perto o djs que vinham atuar ao Festival da Povoação para poder aprender mais sobre a arte. Com todos eles, tive sempre aqueles 5 minutos de conversa para perguntar sobre músicas e técnicas. Em 2016, subi por 40 minutos ao palco do Festival da Povoação pela primeira vez para uma pequena brincadeira e foi aposta ganha! Em 2018 subo ao mesmo palco oficialmente com o meu próprio nome e foi dos melhores shows que já tive.
Como foi a primeira vez que atuaste para um público?
A primeira vez foi em Março de 2012 na discoteca Toronto Night’s. Tive a oportunidade de tocar 20 minutos e levei de casa tudo preparado num papel onde escrevi as músicas até ao segundo para não poder falhar nada! Correu mal porque no fim dos 20 minutos tinha a pista vazia. E porquê? Porque levei um set pré feito e não fiz a leitura da pista, ou seja, não tive em conta o gosto das pessoas que estavam a dançar à minha frente. Mas aproveitei isso para poder evoluir e aprender mais.
Que tipo de público pretendes atingir e como consegues a sua interatividade?
Há uma vertente do djing que tenho aperfeiçoado ao longo dos últimos 4 anos que está a ter sucesso: Ser Dj em casamentos. É, sem dúvida, um show diferente onde o gosto musical tem que ser muito afinado. Com isto, atinjo público literalmente dos 8 aos 80. É uma vertente que me dá muito gosto fazer porque é intimista e conseguimos conhecer muita gente. Reforço que é necessário ter uma cultura musical muito grande pois em vez de termos duas ou três mil pessoas, temos 20 ou 30 e há que saber levar todos “ao colo” para que fiquem todos contentes.
A reação do público tem sido positiva aos teus trabalhos?
Quero acreditar que sim. Aproveito para agradecer a todos o que me criticaram (negativa ou positivamente), pois só assim consigo aprender com os erros e evoluir. Agradeço também a todos os que dispensaram algum do seu tempo para falar comigo, dar dicas, ensinar e até mesmo aquelas que me deram oportunidade de tocar no seu festival/discoteca/bar.
Qual foi o teu melhor concerto?
Festival da Povoação 2018. Sem dúvida. Sabia que ia ter casa cheia e pedi para ser o último a tocar (no sábado depois do dj internacional). Preparei-me bem em casa com muita música nova. Também estive muito atento ao público na quinta e na sexta feira para ver a forma como reagiam aos vários estilos musicais. Estive 3 horas em cima do palco e quando acabei ainda tinha muita gente e fiquei emocionado quando coloquei a última música (Frank Sinatra – MyWay) e vi pessoas abraçadas a cantarem comigo. Aí soube que todo o trabalho de casa efetuado, compensou.
Com que nomes sonantes já partilhaste a cabine em espetáculos?
Dos mais sonantes posso salientar WillSparks e DenizKoyu. Realço WillSparks, pois, é uma referência para mim a nível musical porque identifico-me muito com o seu estilo. Tenho que deixar aqui reforçado que, apesar de não serem considerados internacionais, tenho muito orgulho em ter partilhado o palco com vários nomes da nossa região.
Que projectos tens em mãos?
«A nível musical colaboro com a empresa AzoresWeddingEvents e temos tido imenso sucesso devido à unicidade do que fazemos. Este é um dos projetos que mais dá prazer em colaborar pois, de ano para ano, conseguimos superar as expetativas e elevamos sempre o nível cá em São Miguel. Não deixo de parte também a parte de evoluir do Diogo Amaral como Dj procurando sempre aprender mais para poder chegar a mais palcos. A nível pessoal, procuro sempre evoluir enquanto enfermeiro. A minha paixão no mundo de Enfermagem é a Emergência Pré-Hospitalar e é algo que invisto muito do meu tempo com cursos e mais estudos.
Qual o teu maior sonho na vida enquanto DJ?
Poder pisar mais palcos pelas nossas maravilhosas ilhas. Quer sejam festivais quer sejam discotecas/bares.
Como podes descrever o trabalho de um DJ nos Açores?
É um sentimento ambíguo pois por um lado é maravilhoso poder atuar para o nosso público e sentir a energia do mesmo, mas, por outro lado, é muito difícil sair dos Açores, infelizmente, devido ao “estigma” de ser Açoriano. Mas ser Açoriano não está ao nível de todos!
Onde preferes atuar: numa cabine de bar ou num festival?
Não tenho preferência a este nível. São atuações diferentes que requerem muita atenção e uma leitura de pista exímia para poder concluir o trabalho com o máximo de sucesso.
Quem são as tuas referências no mundo da música?
Não me canso de referir isto, mas as minhas referências são sobretudo todos os que são considerados “regionais”. Já privei com quase todos e muitos deles tenho orgulho em chamar de amigo. Explico o porquê de serem referência: Conheço o seu trabalho e, sobretudo, sei o quanto trabalharam para chegarem ao patamar que estão. Fizeram um esforço enorme para poderem singrar no mundo do djing cá nos Açores e é neles que me inspiro.
Qual a tua maior paixão na vida: enfermagem, música ou desporto?
Pergunta difícil! Pergunta mesmo muito difícil! Nem sei como responder porque gosto imenso dos três tópicos em questão! Apesar de já não fazer desporto regularmente como desejo (futebol) devido a uma lesão grave que colocou um ponto final precoce, gostaria de voltar ao ativo já na próxima época. Quanto a Enfermagem, aproveito todos os cursos e formações que aparecem, pois além de enriquecerem o meu conhecimento, aumentam a minha capacidade de resposta perante o meu dia enquanto enfermeiro. Quanto à música, tenho a certeza que fará sempre parte da minha vida quer seja em casamentos quer seja em festivais/discotecas/bares. Não posso deixar de falar acerca da “vida” que estabeleci com a Filarmónica Marcial Troféu e a famosa Orquestra Ligeira da Câmara Municipal da Povoação enquanto músico. Ainda estou no ativo na orquestra e já lá vão 15 anos a fazer parte da mesma.
E a aquariofilia é um hobby ou uma paixão?
É sem dúvida uma paixão que se tornou num hobbie. A aquariofilia é um hobbie que requer muita disciplina, mas é muito recompensador.De momento mantenho um pequeno aquário de cerca de 15 litros com camarões RedCherrie. O maior aquário que já tive tinha uma capacidade de cerca de 400 litros. Após a manutenção, sentava-me em frente ao mesmo a ver os peixes e aquilo acabava por ser relaxante. Quando tiver a vida mais definida, vou voltar a ter um aquário ao meu gosto.
Como antevês o futuro a curto prazo na música “djing” nos Açores?
Estamos a viver uma situação delicada sem precedentes. Estamos sem atuações e isso reflete-se no orçamento económico pois é sempre um reforço monetário extra no fim do mês. Por outro ponto de vista, nem tudo é mau pois os djs podem aproveitar este tempo em casa sem atuações para poder aprofundar o conhecimento, a técnica e procurar muita música nova.
Que achas no período pós pandemia os festivais serem com artistas denominados “prata da casa?
Sem dúvida! Sem dúvida alguma! Penso que o futuro poderá passar por aí! Começar com eventos pequenos com os nossos artistas para fazer acontecer duas situações: 1- Dar mais valor e fornecer mais concertos ao artista açoriano; 2- Fazer valer junto do público que também temos artistas de qualidade cá nos Açores. Sempre fui apologista de incluir sempre valores açorianos nos festivais! Quero aproveitar para deixar as minhas palavras de agradecimento ao Correio dos Açores pela oportunidade e a todos os que me apoiam e ajudam. Façam valer o vosso apoio pelo artista açoriano! Apoiem! Nem imaginam o quanto uma simples palavra de apoio significa para o artista açoriano!
António Pedro Costa