O Divino Espírito Santo nos Açores

Este ano não estamos tendo as habituais festividades do Divino Espírito Santo, tão fortes e tradicionais nas  nossa Ilhas. E todos sentimos a falta da alegria que sempre rodeia a sua preparação, com rezas, folguedos, abundante hospitalidade, música e foguetes sem conta. E não falemos de quanto nos está custando a ausência dos cortejos de distribuição das pensões, com os seus imponentes carros de bois, e das coroações, conduzindo as coroas e as crianças que vão coroar, desde a casa dos mordomos dos impérios para a igreja paroquial e volta, empunhando os acompanhantes, muito empertigados nos seus fatos domingueiros, velas e ramos de flores, enquanto avançam solenemente ao compasso das filarmónicas, imperturbáveis perante os olhares e os comentários de quem assiste, e o estralejar das roqueiras e dos morteiros, lançados para o ar assinalando a festa.
Vamos associar estas e outras memórias ao ano 2020, que ficará inesquecível pelas piores razões. O cancelamento das mordomias e impérios do Espírito Santo toca-nos de forma mais dura, por serem festas que se celebram em todas as ilhas dos Açores e dentro delas em cada pequena comunidade, no seio das cidades ou pelas freguesias rurais.
É deveras impressionante a expansão do culto do Divino no nosso Arquipélago. Diz-se que foi trazido de Portugal pelos franciscanos, que terão acompanhado os primeiros povoadores e que terá sido a Rainha Santa Isabel a introduzi-lo no nosso País, fazendo coroar um pobre, por alturas do Pentecostes, na sua vila de Alenquer. O certo, porém, é que tais celebrações só se mantiveram sem interrupção nas nossas Ilhas e daqui foram levadas para toda a extensão da diáspora açoriana.
 Mesmo as poucas evocações espiritanas que acontecem em Portugal, parecem ter afinal ligação aos Açores, seja em Tomar, com a Festa dos Tabuleiros atribuída a um administrador do concelho oriundo da Ilha do Pico, seja na aldeia do Penedo, nas alturas enevoadas da Serra de Sintra, onde no centro se encontra a sede da Filarmónica Euterpe, nome raro e inesperado, também usado semelhantemente na cidade da Horta, na Ilha do Faial.
Entre nós, há impérios em toda a parte. Quando era menino, levavam-me, em Domingos seguidos, às coroações da Primeira e da Segunda Rua de Santa Clara e aos arraiais da Arquinha, da Rua do Passal ou do Foral do Amorim. No sábado antes do Domingo da Trindade, à noite, era a mudança da Bandeira do Império dos Nobres, encaminhando-se para a Igreja de São Pedro, rasgando a noite os grandes círios acesos dos membros da Irmandade.
Mas era e é assim nas nove ilhas dos Açores! O que me tem muitas vezes intrigado, na busca de uma explicação aceitável. É que o Espírito Santo reveste mistério e está lá no fundo da Revelação Cristã. Como se tornou tão popular entre nós e tão compreendido e sentido pela generalidade dos Açorianos suscita interrogações de difícil resposta, verdadeiros enigmas para quem não partilha a fé ancestral do Povo Açoriano. Recordo a emoção dos sinistrados do terramoto de 1 de Janeiro de 1980, no Topo, em São Jorge, aglomerados em torno da Coroa do Divino Espírito Santo, como se fosse a única protecção disponível. Ou o espanto de muitos habitantes do Faial da Terra perante o limite das águas da catastrófica cheia de 1986 na beira do apoio da Coroa no inundado “Triato”.  
Nas minhas andanças pelo mundo da nossa emigração pluricentenária, vim sempre a deparar com as tradições do Espírito Santo. No Sul do Brasil, na cidade de Taquari, ofereceram-me uma gravura do antigo edifício sede do Império local, por sinal então recentemente sacrificado ao impulso modernizador do município. No Palácio dos Bandeirantes, sede do Governo do Estado de São Paulo, uma tela enorme no átrio representa uma coroação igual às nossas, só que com muitos participantes de cor, como é comum em terras brasileiras.
Nos Estados Unidos e no Canadá, os impérios são mais que muitos e alguns deles convergem em Fall River, desde há anos, para as Grandes Festas, cujas peculiaridades de alguma forma têm vindo a replicar-se entre nós. Participei na Convenção do Centenário de uma das Sociedades Fraternais da Califórnia, onde também estava o Cardeal Humberto Medeiros, e aí pude ouvir o Supremo Cantor, acompanhado pela Suprema Pianista, títulos muito respeitados no âmbito dessas fraternidades, executar com requintes o hino “Alva Pomba”.
No Havai, caso limite da nossa emigração e derradeiro argumento da identidade açoriana, visitei o Império do Espírito Santo na Big Island e assisti a uma Missa de Bispo, celebrada pelo prelado de Honolulu, nas instalações do Império em Punchbowl, a dois passos do impressionante cemitério de guerra, onde também prestei homenagem a um patrício nosso, morto durante o traiçoeiro ataque japonês a Pearl Harbour. Não esquecer que os nossos conterrâneos que emigraram para as então chamadas Ilhas Sandwich na segunda metade do século XIX nem saberiam talvez ler nem escrever, mas levaram consigo, no fundo da alma, as tradicionais devoções açorianas e mantiveram-nas vivas ao longo de quase 150 anos.
O Divino Espírito Santo, fogo do Amor de Deus, traz consigo abundância de dons, partilha generalizada, fraternidade universal. É disto que, com altos e baixos, se vem mantendo o Povo Açoriano, desde a descoberta das Ilhas até aos nossos dias, e esperamos que pelo futuro dentro e sempre!
             
            João Bosco Mota Amaral 

(Por convicção pessoal, o Autor 
não respeita o assim chamado 
Acordo Ortográfico.)           
 

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