5 de junho de 2020

Um novo amanhecer

Após alguns meses, em que dias se confundiam com noites, finalmente renasce a nova aurora; nasce o sol, esse astro brilhante, acende uma luzinha no fim do túnel no Planeta Terra e nestas ilhas que outrora, se solevaram no oceano Atlântico, designadas Açores, cujo nome é associado a uma ave negra, confundido na altura do descobrimento do arquipélago com o milhafre, também chamado queimado.
Uma noite escura tão prolongada!
Questiono-me, a natureza pura, limpa e verdejante, convidativa à contemplação, ao repouso e ao sonho, não merecia esta gigantesca noite, tão dilatada e taciturna; que sombra, que mostrengo!
Infelizmente não fomos os únicos assolados e fustigados por este repugnante vendaval epidemiológico – o mundo quase todo desgostou este amargo cálice, aperitivo rejeitado e combatido, com todas as forças e energias sem reservas. 
O senhor que nos bateu à porta, traiçoeiro, invisível e sem vergonha, incerto, minúsculo, muito democrático – não olhando etnias, crenças, pobres ou ricos, causou estragos e não fora a força e resiliência de todos – homens e mulheres, agentes de saúde, forças de segurança, colaboradores, autoridades governamentais, civis, religiosas, e tantos anónimos, a situação nas ilhas de bruma, seria bem pior.
A ilha do arcanjo São Miguel, a ilha verde, a das vacas felizes, foi alvo de um ataque do  coronavírus mais violento, sendo criadas cercas sanitárias, para que os piratas transmissores dos vírus, não atacassem populações indefesas.
As ilhas pequenas, Corvo, Flores e Santa Maria, são por natureza - pela sua dimensão geográfica e demográfica – cercas sanitárias e com sorte em estado de graça.
O que mais nos tocou, não só física mas mentalmente (as emoções e os sentimentos também contam) foi a célebre frase – fiquem em casa, fiquem em casa, pela sua saúde e dos seus!
Este apelo repetido, tantas vezes, pelo Diretor Regional da Saúde, transmitia os efeitos desta pandemia, quer em termos sanitários, quer pedagógicos, no momento difícil e incerto das pessoas das nossas ilhas, nascidas e povoadas no meio do Atlântico, atacadas por uma besta que ainda nos espreita.
Também é de realçar, como não podia deixar de ser, o papel do nosso Presidente Vasco Cordeiro, que em momentos tão difíceis, discordando até dos seus amigos do velho continente, opinando sim, por uma solução de acordo com a nossa dispersão territorial e geográfica, vincando e focando-se na saúde dos açorianos; essa sim, era a sua primeira prioridade – a continuidade territorial não era preterida no seu entender.
Há momentos em que as leis são ultrapassadas, quando as desgraças mais alto se levantam, segurar a saúde e salvar vidas, são tempos e motivos de exceção. Há situações na vida que ensombram as leis, ficando estas em segundo plano, porque o contexto é exigente. No entanto a viagem das tormentas continua, mas felizmente a vida lentamente volta à normalidade.
Bastante relevante a atitude e submissão das gentes destas terras abençoadas, que no seu olhar imaginário rodopiam e circum-navegam o horizonte de cada torrão natal, espreitando o minúsculo, mas potente (gigante), irmão do mítico Velho Adamastor, que além do susto e medo, provocou algumas vítimas. 
Apesar de tudo, comparando com o que acontece noutras paragens, embora marcasse fortemente a alma dos açorianos, fomos um pouco poupados.
O isolamento domiciliário não é desejado por ninguém, mas como diz um familiar meu que experienciou momentos difíceis, confinando na cama do hospital durante meses, com uma doença crónica e bastante fragilizada nos cuidados intensivos, entre a vida e seu fim, não tem comparação possível.
A arrumação das pessoas nas suas casas, durante o período mais crítico da pandemia, apesar das limitações físicas e sociais, é útil para reflexão, navegando nos trilhos mentais e espirituais mais ou menos íngremes (no íntimo do nosso ser), quiçá, da descoberta de algo de nós próprios, ainda em embrião.
Será que depois de tamanha e audaciosa experiência vamos ficar mais humanizados?
Deus queira e se as pessoas se entenderem, em uníssono e em coro dirão -sim!  
        Ponta Delgada, 3 de junho de 2020

Jaime de Braga Figueiredo

Print
Autor: CA

Categorias: Opinião

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima