5 de junho de 2020

Carta aberta ao sr. Secretário Regional da Educação e Cultura da Região Autónoma dos Açores

No Telejornal da RTP/Açores de 2 de junho de 2020, ouvimos o prof. doutor Avelino de Menezes afirmar que “o ano letivo 2019/2020 está estragado”. Afirmou-o do modo próprio que lhe reconhecemos: vincando cada sílaba, pausando entre cada palavra e criando um certo suspense, indiciando ponderação na escolha das frases, refletindo nos conceitos convocados, no que significam e nos sentidos que (re)criam.
O Afonso é uma criança de 4 anos, que salta do lugar onde se encontra e cujos olhos e a boca se transformam em “O” perfeitos, abertos, sempre que se surpreende, sempre que se espanta com alguma ideia.
A afirmação “o ano letivo 2019/2020 está estragado” fez-me saltar do lugar. Conduziu-me a pensar e pensar com perguntas, muitas perguntas. 
Eis algumas que me tomaram de assalto:
1)    O que é um ano letivo? Serão os conteúdos programáticos, previstos nos currículos? Serão as provas de avaliação interna e externa? Serão os resultados escolares? Será o ensino? Será a aprendizagem? Será o processo ensino aprendizagem? Será a relação educativa ou uma certa relação ensinante? Será o (des)empenho, o (des)trabalho, a (des)autonomia de alunos, professores, famílias, pessoal não docente, comunidade educativa? 
2)    O que é um ano letivo estragado? Sem utilidade, como uma máquina que já não cumpre a função que lhe competia? Sem eficácia, como um computador lento que não responde às exigências da pressa? Fora de moda, como a coleção da Primavera 2018? Prejudicial, como comida estragada? Fora do prazo de validade, como o leite do dia?
3)    O que se faz com um ano letivo estragado? Conserta-se e fica sempre com defeito, como a perna daquela cadeira da sala de jantar? Arruma-se até que se torne uma antiguidade, como o “psiché” da bisavó? Deita-se fora como a maçã estragada para que não contamine o que sempre esteve, está e estará bem? Come-se como o iogurte que passou a validade, arriscando a saúde ou porque não há mais nada que se coma?
4)    Que razões fundamentam a conclusão “o ano letivo está estragado”? Ou a afirmação é premissa para outro(s) argumento(s)?
5)    O que pode um ano letivo estragado? 

Vila Franca do Campo, 3  junho de 2020
Atenciosamente, 
Paula Vieira

Professora de filosofia da EBS Armando Côrtes-Rodrigues
 

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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