Publiquei em 2011 numa rede social uma foto do senhor José Cristiano, na sua actividade de vendedor ambulante, no Campo de S. Francisco, durante as festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres. Esta foto mereceu e continua a merecer milhares de comentários e partilhas, por onde hajam Micaelenses espalhados nos quatro cantos do mundo, em apreço ao referido vendedor.
Desde sempre, tenho presente a imagem do senhor José nas festas do Senhor, uma pessoa que chamava à atenção pela sua pele e cabelo claro, pelo seu sorriso, simpatia, educação e, claro, pelos óptimos produtos regionais à base de açúcar que eram a delícia da miudagem e não só!
O certo é que o senhor José Cristiano marcou muitas e muitas gerações como se pode confirmar pelos mais diversos comentários, dos mais variados extratos sociais e idade: “esta é uma foto realmente histórica”, “pedaços do nosso viver já longo”, “todos nos lembramos deste senhor, sempre que ia às festas, primeiro era ver o Senhor Santo Cristo e logo a seguir ver o senhor Cristiano”, “figura inesquecível”, “ele dá sabor às nossas tradições”, “lembro-me dos meus pais comprarem-me os galinhos” etc… São estas algumas das expressões usadas a lembrar o vendedor, o homem!
Face à estima demonstrada por tanta e tanta gente em prol do senhor José Cristiano, não resisti em ir à sua procura. Encontrei-o em casa na Rua dos Fundadores da Vila, Freguesia de Matriz, Ribeira Grande.
Recebeu-me o senhor José do Rego Valério, mais conhecido por José Cristiano, nos seus oitenta e três anos de vida, com o seu sempre simpático e cativante sorriso, acompanhado da também simpática esposa, senhora Maria de Fátima, é pai de quatro rapazes e duas raparigas.
Anda na actividade de vendedor ambulante desde sempre, acompanhou o seu avô, seu pai e hoje o negócio é seu! A produção de rebuçados em forma de galinhas, galos, bicos (grandes e pequenos), de tremoço, peneiras de farinha de milho, trigo, e de curar a farinha, tudo confecção e produção caseira e artesanal. Também vendia trempes em ferro.
Recorda, com alegria, o seu pregão: “Quem é que quer mais?”, que era conhecido em toda a ilha nas festas Paroquiais e, especialmente, nas grandes festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, onde instalava a sua banca nas escadas de acesso ao Campo do Senhor lado Sul, em frente à porta principal do forte de S. Brás. Apesar de já não existirem estas escadas, ainda hoje, mantem a tradição e instala-se no mesmo local. Sente com satisfação que é acarinhado pelos seus clientes e pela população em geral.
Estava desolado, o Covid 19 apanhou o seu negócio, o prejuízo é grande! Este ano não tem a sua fonte de receita para a sua sobrevivência, não há festas! Inconformado, relata que a sua produção começa a ser preparada seis semanas antes das festas do S. S. Cristo, estava pronta a ser vendida! Ficou em casa!
O senhor José Cristiano é um exemplo de luta, de vida e honestidade! Ouso afirmar pelos muitos testemunhos lidos que, na sua qualidade de homem simples do Povo, tem a grande virtude de, ao longo destes anos, unir à sua volta os Micaelenses e de, através dos seus produtos regionais e da sua postura, colocar a então Vila hoje, cidade da Ribeira Grande, no mapa de S. Miguel e dos Açores.
Padrões de vida como os do senhor José Cristiano numa sociedade cada vez mais materialista e egoísta são necessários valorizar, dar a conhecer. Não podem passar ao lado! Para quando uma justa homenagem para memória futura deste exemplar cidadão Ribeira-grandense e Micaelense?
Bem haja senhor José Cristiano!