Pedro Marques, um dos responsáveis pelo grupo Marques

Sector da construção civil está estável com uma retracção nas obras privadas e um aumento do investimento público

 Face à pandemia da Covid-19, o que tem sentido o grupo Marques como empresa de construção civil?
Pedro Marques (empresário da construção civil, um dos responsáveis pelo grupo Marques) - Sentimos várias coisas em momentos diferentes. Em primeiro lugar, sentimos os constrangimentos que tivemos logo no início da pandemia com as incertezas e sem sabermos como ficaria o sector e se seria ou não afectado. Esta foi uma fase difícil. 
Depois, ficamos sem saber se os contratos públicos que tínhamos em curso estavam ou não em vigor. E se havia ou não prorrogações de prazos. Vivemos uma incerteza muito grande logo no início.
Fomos percebendo, mais ou menos, a tendência. Soubemos que continuávamos activos, soubemos que a maior parte dos contratos públicos se mantiveram, embora com alguma flexibilidade para o caso de haver alguma situação mais delicada. Por exemplo, fecharam muitas fábricas que atrasaram a entrega de materiais. Houve algumas dificuldades que fomos conseguindo ultrapassar.
Tivemos problemas em algumas obras com os trabalhadores que tínhamos deslocados. Houve trabalhos que ficaram prejudicados com isto mas, como havia confinamento, entendemos por bem deixar os trabalhadores regressarem.
Tivemos dois contratos de empresas privadas que foram suspensos, o que nos causou alguma apreensão. Mas, à data de hoje, passado um período de adaptação, estamos neste momento a trabalhar em pleno. E os constrangimentos que vamos tendo à data, são normais, de deslocação do pessoal. Estamos a trabalhar normalmente, com algum constrangimento nas deslocações e com a falta de alguns materiais porque há fábricas que só agora retomaram o fabrico e outras ainda não começaram. 
Portanto, há ainda alguns problemas de abastecimento de materiais de construção civil. 

O grupo Marques recorreu às medidas implementadas a nível governamental?
Fomos acompanhando as medidas do governo com alguma atenção. De uma forma geral, as medidas foram boas mas, na nossa opinião, não muito adequadas ao nosso sector. Aliás, a AICOPA  foi propondo medidas complementares, alternativas que eram mais confortáveis para o nosso sector, mas a única medida a que acabamos por recorrer foi ao layoff, nomeadamente nos contratos de obras que ficaram suspensas porque cumpríamos com os requisitos. 
Consideramos que as outras medidas ou não eram necessárias para nós ou não se enquadravam no sector da construção.

No primeiro trimestre deste ano, a AICOPA transmitiu a mensagem de que o sector da construção civil estava em actividade sobretudo em obras privadas, ao mesmo tempo que apelava a que surgissem mais obras públicas. Entretanto, veio a pandemia…
Do que tenho falado com alguns colegas, preocupa-me muito a parte do investimento privado que foi o que, no nosso sector, sofreu maior abalo. Os privados que tinham investimentos em curso e que estavam a programar investimentos, suspenderam tudo. 
Havia muitas empresas de construção civil que estavam focadas no sector privado e a situação para estas empresas é, agora, um pouco mais complicada. Mas esta perspectiva resulta muito da minha sensibilidade para o sector porque o grupo Marques não estava muito exposto ao contexto turístico puro e duro.

Está a dizer que, além do facto de o número de obras públicas a concurso no início do primeiro trimestre não ser suficiente; com a pandemia, houve uma retracção dos privados em investir, levando a que a situação do sector esteja mais debilitada…
Exactamente. O que a AICOPA disse, na altura, foi que precisávamos de mais investimento público, é verdade. E este investimento público apareceu. E, se repararmos, o nível de concursos públicos para novas obras até subiu. Mas o número de privados que estavam a investir e programavam investimento, retraiu-se. Acaba por haver aqui um realinhamento pelo cenário que ocorria no último ano a ano e meio. 
Assim, o investimento público na construção civil sobe, mas o investimento privado, devido à pandemia, ficou suspenso. Isto porque eu acredito que os projectos se vão retomar mais à frente. Mas, para isso, é preciso que regresse a confiança. 
Na relação entre o crescimento do investimento público e a suspensão de investimento privado, o sector da construção civil está estável. E o consumo de cimento está a aumentar. E eu acredito que até ao final do ano haja um crescimento de obras.
E olhe que este poderia ter sido um ano muito forte na área da construção civil, não fosse a pandemia do Covid-19. Se o investimento privado se mantivesse aos níveis que estava no primeiro trimestre deste ano, eu penso que este seria, provavelmente, um dos nossos melhores anos da última década.

Quais as suas perspectivas para o futuro do sector da construção civil?
Vamos ter este ano e o próximo marcados ainda pelo ciclo eleitoral e isso acaba por ser bom. Vamos ter alguma incerteza que espero que, a curto prazo, se torne uma certeza: este plano de investimento que a União Europeia tem para a manutenção de emprego, uma boa parte será transformado em investimento. Se tal acontecer, uma parte destes valores em circulação irão para obras, mobilizando o sector da construção civil. 
Ora, quando este plano da União Europeia chegar aos Açores eu penso ele será favorável ao nosso sector nos próximos dois a três anos. Favoráveis não no sentido de muito boas. Mas, pelo menos, não haverá declínio. É a minha visão. 
E quando o sector privado retomar o investimento na Região, dentro de 1 a 3 anos, somado ao envelope financeiro que vem da União Europeia, pode ser que o nosso sector esteja, nos próximos 2 a 3 anos, a uma média superior aos últimos 7 a 8 anos.

Não ocorreram despedimentos no sector da construção civil?
Com base nos últimos dados que nós temos, anteriores à pandemia, o sector da construção civil empregou mais trabalhadores. A sensibilidade que tenho é que a pandemia poderá não ter afectado o sector da construção civil de tal forma que provocasse despedimentos. Como sabe, o grupo Marques não parou. O que houve foi alguma suspensão de contratos de âmbito privado. Mas como havia necessidade de mão-de-obra, penso que os números do emprego no nosso sector mantêm-se numa trajectória favorável. Mas, a esse nível, fala a minha sensibilidade.

                                                  João Paz

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Autor: CA

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