O 6 de Junho: a manifestação que esteve para não se fazer

“Estão todos às portas da cidade de Ponta Delgada”

 A manifestação do 6 de Junho de 1975 foi, inevitavelmente, “Um Marco na Rota da Autonomia dos Açores’, como se lê na capa do livro publicado por Américo Natalino de Viveiros e que hoje é incontornável para quem quiser conhecer como o PPD/A de então se envolveu, na linha da frente para a maior manifestação popular de sempre na história dos Apores.
Há contornos que antecederam o 6 de Junho de 1975, envolvendo açorianos que viviam em bairros pobres de Ponta Delgada e as dificuldades que enfrentava a lavoura de São Miguel, devidamente descritos no livro, que eram um rastilho a queimar em lume brando que eclodiu na manifestação.
Foram muitas as entrevistas e reportagens que procuraram descrever a verdadeira essência da manifestação com protagonistas que estiveram dos dois lados da barricada. Como escreve Américo Viveiros no seu livro, “Muito se tem escrito e dito acerca do 6 de Junho, cada um com a versão que gostaria que fosse a verdadeira, embora nenhuma delas tenha abordado a verdadeira origem e as causas da manifestação (…) que abriu as portas à Autonomia Política e Administrativa dos Açores”.
Dias antes do 6 de Junho, Américo Viveiros alertou a então cônsul dos Estados Unidos da América, a diplomata de carreira Linda Pfyphel com quem mantinha regularmente contactos assentes “num relacionamento amistoso que se criou, impulsionado por João Gago Matias Tavares”. “Era frequente, naquela altura, falarmos sobre o evoluir da situação política e por isso telefonei-lhe de seguida dando conta do dia que tínhamos designado para a manifestação, já que ela tinha informações sobre o projecto que tínhamos concebido, e para que, pelos canais diplomáticos, desse conta à esquadra da Nato do que iria acontecer…”
Nestes momentos que antecederam o 6 de Junho de 1975 é notório no livro alguma cumplicidade entre simpatizantes do independentismo açorianos e dirigentes do PPD/A que, então, já tinha definido que o rumo era o da Autonomia Político-Administrativa em sintonia com o pensamento de João Bosco Mota Amaral.
Para a mobilização da manifestação, “as tarefas tinham sido divididas por sectores, agrupados pelas grandes áreas empregadoras. José Maria Melo Carmo, Valdemar Oliveira, António do Carmo, Tibério Pereira e José de Medeiros, ficaram responsáveis pela mobilização da lavoura que teve em Luís Albuquerque um discreto, mas importante apoio na mobilização dos agricultores à volta da Ilha. José Francisco Ventura, Olinda Lima Araújo, Santos Pereira e Manuel Raposo Puga foram encarregados de mobilizar os camionistas e os madeireiros, enquanto José Eduardo Gouveia, António dos Santos Figueira e José Maria Cabral ficaram responsáveis pelos trabalhadores dos serviços, da indústria, e do comércio.
O dia do “sinal” para a manifestação de 6 de Junho de 1975 foi 29 de Maio, uma sexta-feira, dia habitual da feira da lavoura. “Luís Franco, o presidente da Associação Agrícola de São Miguel, juntamente com Hermano Mota e Luís Cymbron”, lê-se no livro, “saltaram o portão da Feira e penduraram num vitelo cartazes dizendo “ ISTO É O FIM DA LAVOURA AÇORIANA”, o que mobilizou muitos lavradores naquele dia para São Gonçalo, que era ao tempo a feira de gado e onde hoje se encontra o campus da Universidade dos Açores, pois queriam decifrar a mensagem do bezerro”.

A resposta à oposição dos militares

Anunciou-se publicamente a data da manifestação, 6 de Junho, e Américo Viveiros – que estava na Assembleia Constituinte, em Lisboa, regressa neste dia, via Santa Maria.  Como descreve no livro, tinha reunido no dia anterior com Barbosa de Melo e Mota Pinto informando-os do que iria acontecer no dia 6 e a justificar a sua ausência da Assembleia “e a preveni-los da situação, para que estivessem informados quando houvesse alguma tomada de posição por parte do governo provisório”.  Igual comunicação fez ao professor Emídio Guerreiro, que era o Presidente interino do partido. 
E, num daqueles momentos mais relevantes que antecederam o 6 de Junho, quando Américo Viveiros aguardava embarque no avião da SATA de Santa Maria para São Miguel, é chamado ao telefone. Era o José Eduardo Gouveia, a dar conta da “oposição dos militares à realização da manifestação e informando que João Vasco de Paiva estava, desde manhã, retido numa sala do Quartel-General, fechado à chave, e que passadas algumas horas tinha aparecido o General Altino de Magalhães a solicitar a desmobilização da manifestação e por isso era preciso tomar uma decisão.”.
É então que Américo Viveiros questiona José Eduardo Gouveia sobre como é que estavam os vários pontos de concentração e a resposta destemida que recebe é relevante: “estavam todos às portas de Ponta Delgada”.
Ambos entenderam que “não era possível desmobilizar o que quer que fosse e João Vasco Paiva devia responder que não tínhamos maneira de conter o que estava a transformar-se num verdadeiro levantamento popular e que quanto à hipótese de fazer intervir as Forças Armadas, para manter a ordem, como tinha também adiantado o General Altino de Magalhães, ele tinha de responder que a ordem não estava em perigo e por isso era imprudente tomar qualquer medida que fosse naquele sentido”. 
A opinião era a de que “a tropa devia manter-se nos quartéis” e Américo Viveiros concluiu a conversa com José Eduardo Gouveia: “se o João Vasco permanecer no Quartel-General, quando eu chegar havemos de ir lá tirá-lo”. Pediu “ainda a José Eduardo que mantivessem o aeroporto aberto até o voo da SATA de Santa Maria aterrar. Foi o que aconteceu. Quando cheguei a São Miguel, já o João Vasco estava de volta e apesar de termos a garantia que os militares não sairiam à rua para reprimir os manifestantes, não há dúvida que a dimensão que ela assumiu metia respeito a quem quer que fosse e só esperávamos que ela se desenrolasse sem tumultos e que cumprisse os objectivos para que havia sido convocada”, lê-se no livro de Américo Natalino Viveiros. 
Como explica, “os dirigentes do PPD/A estavam prontos para integrarem a primeira linha da manifestação do dia 6 de Junho, mas face aos acontecimentos ocorridos no Quartel-General na manhã daquele dia em que nos era pedido que desmobilizássemos a manifestação, tínhamos assumido que a mobilização não podia ser travada pelo PPD/A porque ela se havia transformado num autêntico levantamento popular e era preciso responder a esse levantamento com medidas muito concretas”. 
Mas, como salienta no livro, foram os megafones do PPD/A que foram utilizados na manifestação “e na sede íamos seguindo os acontecimentos pelas informações que nos iam chegando dos militantes que estavam encarregados disso.

A “Mascote” e os cartazes

Victor Almeida foi a “mascote” que abriu a manifestação sentado num burro com um chapéu de palha na cabeça. Contava 18 anos de idade, tinha terminado os estudos secundários e estava à procura do primeiro emprego. 
A manifestação foi engrossando. Apelando a quem estava na rua para se juntar aos manifestantes, dizendo “SE ÉS AÇORIANO VEM PARA AQUI”. Havia um conjunto de tarjas com frases escritas que depois eram repetidas pelos populares. Uma delas dizia “o povo açoriano está a ser explorado. Nem somos autónomos nem somos portugueses”. 
“A manifestação seguiu o trajecto da procissão do Senhor Santo Cristo dos Milagres, com um desvio pela sede do PCP para provar que não havia medo das ameaças e perseguições que ele vinha desencadeando. Nessa altura os manifestantes já eram aos milhares”, escreve Américo Viveiros.
“Nas ruas por onde passava a manifestação as pessoas que se encontravam nos passeios ou nas lojas, eram convidados a juntar-se. Os comerciantes fechavam as portas do seu comércio e os empregados engrossaram a grande massa humana que constituía a manifestação”.
“Chegados ao Largo junto ao Liceu de Ponta Delgada em frente ao Palácio da Conceição, a população entova as palavras de ordem e pedia a demissão do Governador Borges Coutinho. Aguinaldo Almeida, que depois veio a ser Presidente da Junta de Freguesia de São José, era um homem preocupado com a segurança perante alguns ânimos mais exaltados e num grupo juntou-se José Franco, Luis Índio, Luis Franco e outros, mas de entre eles destacou-se João Gago da Câmara que empunhando o megafone gritava palavras de ordem para a varanda”, lê-se no livro.
“Nessa alturajá o General Altino de Magalhães estava no Palácio da Conceição e dirigiu-se aos manifestantes dizendo que todas as reivindicações de carácter económico e social eram justas e legítimas, coisa que precipitou então a demissão imediata do Governador Civil”.
Os acontecimentos foram-se sucedendo em cadeia e são descritos no livro. O General Altino de Magalhães “afiançou que, para responder à crise política do momento, iria ser criada uma Junta Governativa e, pediu que João Gago da Câmara, que subisse até à sala do Palácio da Conceição para falarem, já que as palavras de ordem que ele clamava, não eram perceptíveis. João Gago subiu até ao Palácio da Conceição  e recorda que entrou na manifestação junto ao edifício dos CTT na Praça Vasco da Gama, sem saber do que se tratava pois tinha ido à loja de ferragens comprar uma torneira para uma casa onde estava a fazer obras  para o efeito. Na conversa com o General Altino de Magalhães, este disse-lhe que necessitava de contar com um conjunto de pessoas que o pudessem aconselhar e depois com a Junta colaborar. Nessa altura João Gago começou a referir um conjunto de nomes de que o General ia tomando nota para não se esquecer. Quando João Gago deu os nomes de pessoas amigas e conhecidas, mal sabia ele o que iria acontecer depois”.
“Os manifestantes entretanto não deram por terminada a sua missão e entendiam que era necessário consolidar as posições para evitar qualquer recuo. Valdemar Oliveira conclama os manifestantes para tomarem posições no Emissor Regional dos Açores, aeroporto, porto e Rádio Marconi e assim fizeram. Começaram a formar-se piquetes para proteger aquelas instalações e José Eduardo Gouveia acompanhado de outros elementos foi acompanhar a constituição de tais piquetes para que a qualidade dos elementos integrantes fosse garantida e se evitasse assim qualquer desmando que fizesse perigar as conquistas entretanto alcançadas”.
E sucederam-se outros acontecimentos na “longa noite” de 6 de Junto de 1975, que hoje faz 45 anos, merecendo realce a criação da Junta Regional dos Açores que foi um embrião de Governo próprio, através da qual foi constituída uma Comissão que incluía os deputados do PPD/A eleitos por São Miguel e outros representantes do PS e do CDS que elaboraram a primeira proposta de Estatuto Provisório da Região.
Os nomes que João Gago da Câmara deu como potenciais elementos que poderiam ajudar no futuro a Junta Regional, acabaram por ser presos a 9 de Junho porque o comodoro Emanuel Ricou entendia que aquelas pessoas mencionadas por João Gago da Câmara eram os cabecilhas da Manifestação e da FLA.
 O 6 de Junho de 1975 foi há 45 anos um marco para os Açores pela mobilização popular que gerou, e que se ampliou em Novembro do mesmo ano em que o povo se levantou em massa em todas as Ilhas para anunciar que trilharia um caminho próprio se as forças da esquerda revolucionária tomassem, como pretendiam, o poder em Lisboa, mas ainda sobretudo porque abriu caminho à aprovação da Autonomia Constitucional, que teve como base o projecto do PPD, mas com propostas dos demais partidos com assento na Assembleia Constituinte.  

Excertos retirados do livro 
“6 de Junho: Um Marco 
na Rota da Autonomia”
                                            João Paz
 

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Autor: CA

Categorias: Regional

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